Os acrobatas

Subamos! 
Subamos acima 
Subamos além, subamos 
Acima do além, subamos! 
Com a posse física dos braços 
Inelutavelmente galgaremos 
O grande mar de estrelas 
Através de milênios de luz. 
 
Subamos! 
Como dois atletas 
O rosto petrificado 
No pálido sorriso do esforço 
Subamos acima 
Com a posse física dos braços 
E os músculos desmesurados 
Na calma convulsa da ascensão. 
 
Oh, acima 
Mais longe que tudo 
Além, mais longe que acima do além! 
Como dois acrobatas 
Subamos, lentíssimos 
Lá onde o infinito 
De tão infinito 
Nem mais nome tem 
Subamos! 
 
Tensos 
Pela corda luminosa 
Que pende invisível 
E cujos nós são astros 
Queimando nas mãos 
Subamos à tona 
Do grande mar de estrelas 
Onde dorme a noite 
Subamos! 
 
Tu e eu, herméticos 
As nádegas duras 
A carótida nodosa 
Na fibra do pescoço 
Os pés agudos em ponta. 
 
Como no espasmo. 

E quando 
Lá, acima 
Além, mais longe que acima do além 
Adiante do véu de Betelgeuse 
Depois do país de Altair 
Sobre o cérebro de Deus 
 
Num último impulso 
Libertados do espírito 
Despojados da carne 
Nós nos possuiremos. 
 
E morreremos 
Morreremos alto, imensamente 
Imensamente alto.

 

Vinícius de Moraes
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A criança que fui chora na estrada

I

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

 

Fernando Pessoa (Novas Poesias Inéditas. (Direção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 4ª ed. 1993).

Cais

Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz

Invento o mar
Invento em mim o sonhador

Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir

Invento o cais
E sei a vez de me lançar

(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

A reza

Quem tem fé vai a pé. O homem lá de casa começou com espalha pé, sua voz trovejou, dizendo para eu me recolher da intenção de ir à reza. Eu disse: É… Pois vamos ver. Peguei as contas a pagar, todas, estavam caladas na gaveta procurando ocasião de ser avistada por ele. O homem silenciou a voz, calou os pés, amansou o pensamento. Ficou num canto deslembrado da vida. Fui andando, duas léguas de distância a casa de Dona Jesuína, rezei com fé, depois o samba. Meu corpo ganhou molejo desassombrando os tormentos. Minha fé nunca falhou, a porca pariu, vendi por dois trocados, paguei as contas. Depois disso a voz do homem voltou um pedaço, era só chuvisco, a voz de trovão sumiu no meio das dívidas.

 

Aidil Araújo Lima (Mulheres sagradas, Portuário Atelier Editorial, 2017)

Por do sol

Outra vez eu estava fazendo aquele mesmo caminho, trocando passos devagar. As pernas estavam tão pesadas, não é fácil tentar carregar o peso da alma. É muito estranho estar cercada de pessoas e sentir-se imersa na solidão, mas dessa vez, de alguma forma, eu fui conversando com aquela dor. É que não foi a primeira vez que nos encontrávamos. Aquela manhã despertou nublada, mesmo sendo um dia de sol. Acordei com um silêncio reverencioso como se o amanhecer soubesse o que estava por vir. A triste surpresa da notícia: Tua vó Deja morreu!

Parecia estar se repetindo a história de quando minha vó Martinha, meu sol, se pôs. Era manhã do dia vinte e quatro de novembro de dois mil e cinco. Eu estranhei a tranquilidade, na minha casa os cafés da manhã significavam barulhos, conversas e risos, mas naquele dia a intrigante calma foi interrompida pela voz de minha mãe dizendo: Levanta para ver sua vó antes dela morrer. Meu corpo estremeceu inteiro, minha vó era muito mais que uma vó, era minha mamãe, meu porto seguro, meu exemplo de ser humano e de mulher.

Me senti arrastada por um turbilhão de emoções inexplicáveis, diante do desalento que sobreveio a mim. Levantei estonteada, a todo momento minha mente era invadida pelas lembranças de momentos que tínhamos vivido. Eram tantos abraços, estórias, risos, canções, cheiros, sabores e memórias; eu nem sabia que podia guardar todas essas recordações. E assim, oscilando momentos de lucidez e de divagações, fui até a casa de minha vó, entrei no quarto, e a vi indo embora, respirando cada vez mais lentamente. Saí de lá correndo, chorando, me recusando a acreditar que estava perdendo minha mãe.

Eu olhava para ela inerte no caixão, sem aquele costumeiro sorriso, custava a acreditar; ela parecia estar dormindo como sempre fazia na sesta que tirava depois do almoço. Não suportava aquele murmurinho e os risinhos das pessoas tomando chá e cafezinho com biscoitos como se nada tivesse acontecendo. Bando de abutres! Tem pessoas que vão para velórios sem nenhuma preocupação ou respeito pela luto dos outros, vão para rever os velhos amigos e conversar. Notei que costumam visitar mais os mortos do que os vivos. Apareceu gente que eu nunca tinha visto visitá-la enquanto estava viva. Monte de urubus!

Não me levem a mal, eu só queria ficar quieta com minha dor. Não suportava quando vinham me dizer: Não chora, a vida é assim mesmo. Ela descansou! Eu sabia que a vida era assim! Mas, eu queria chorar, desejava desesperadamente, de alguma maneira, aliviar o peito, não apenas o peito, cada átomo do meu ser doía. Lembro-me de que alguém perguntou se eu estava bem. Tirei forças não sei de onde, engoli as lágrimas e para ser educada respondi: Sim, eu estou bem! Ele respondeu: Você não parece estar muito sentida com a perda. Olha, vou dar um conselho para você quando for a um velório. Se tu não tens nada de útil a dizer, cala a tua boca e mostre-se consternado com quem está de luto.

Olhei pela última vez o rosto da minha vô e um rio quente e salgado desceu pelos meus olhos. Eu não tive coragem de abraçá-la pela última vez quando a vi deitada na cama respirando pausadamente. Agora ela estava morta! Meu Deus, só então me dei conta, ela não estava dormindo, estava morta! Saí da casa. Estava tão cheia de gente, reparei ao sair me batendo nas pessoas. Nem prestava atenção em quem eram, meus olhos estavam marejados demais; meu coração doía demais; minha mente vagueava demais para me apegar a certos detalhes. Veio então o pior momento. Era a hora do enterro, fecharam o caixão.

Em meio a essa turbulência toda uma amiga especial fez algo inesperado e me ajudou muito nesse momento tão obscuro. A Lívia tinha muito medo de funeral, nunca passava em frente a uma casa onde se tinha uma coroa de flores pendurada na porta. Nem esperava que ela fosse aparecer. Fiquei embaixo de uma árvore na frente da casa quando senti uns braços pequenos me apertarem forte, muito forte por trás, nem olhei para ver quem era, eu já conhecia aqueles pequeninos braços. Era a Lívia! Ela não falou nada, nem mesmo quando precisou me segurar, algumas vezes minhas pernas cambalearam. O silêncio dela me disse tantas coisas.

Pareceu levar uma eternidade para percorrermos o caminho que levava ao cemitério naquele fim de tarde. Os homens carregavam o caixão. No povoado de Almas é tradição os amigos fazerem isso. O carro da funerária acompanhava tocando uma marcha fúnebre. Maldita marcha fúnebre! Danem-se todas as marcas fúnebres! Eu queria que parassem de tocar a porcaria daquela música; eu queria que cessassem todas aquelas súplicas, eu queria o silêncio do lado de fora, porque por dentro o barulho estava ensurdecedor; eu só queria caminhar em paz com as minhas memórias. A tarde se findava com um tom de gris. O sol se pôs em tons mais alaranjados, vermelho escuro e cinza, senti como se o céu estivesse consternado, como se entendesse o que eu sentia.

 A manhã do dia quatro de setembro de dois mil e dezesseis, tinha tudo para ser mais um dia de trabalho normal mas, o estranho silêncio que tomava todo o lugar foi interrompido por meu celular tocando. Foi então que ouvi aquela frase: Tua vó Deja morreu! Eu me recusei a acreditar, tinha falado com ela antes de dormir e ela estava tão bem, tão contente. Fiquei um tempo sentada na cama tentando me convencer de que era verdade, e que ela havia mesmo sofrido um enfarto.

Eu olhei para ela naquele caixão, sem brincos, sem anéis nem batom, as unhas sem pintar, pensei comigo: Ela não ia gostar de se ver assim. Estava sempre tão arrumada. Quando íamos sair ela dizia:  Nada de sair feia, vamos colocar umas coisinhas, ninguém sai comigo desarrumada. Ela também não iria gostar daquele cheiro de flores mortas, preferia mesmo era um bom perfume. Estava tão dura, mas parecia sorrir, ou talvez eu só estivesse projetando a imagem de como gostava de vê-la.

Todo aquele ritual novamente, dessa vez sem marcha fúnebre. Eu disse sem arrodeio: Deixem minha dor em paz. Não deixei aquelas “rasga mortalha[1]” cantarem nada. E fui de novo fazendo o mesmo caminho, mas dessa vez, eu fui conversando com a minha dor: É estranho, mas estou aqui outra vez me arrastando, carregando você, é mais uma saudade que vou levando, nunca vou me acostumar com isso. Olhei para o céu e ele estava novamente se pondo alaranjado, vermelho escuro e cinza; consternado, tranquilo e triste. Até os dias de hoje, para mim, o pôr do sol traz um pouco de saudade, tem tons de despedida. O sol foi embora como elas, naqueles dias em meu coração ficaram apenas os crepúsculos.

[1] Ave de rapina noturna que tem seu canto considerado como agouro.

 

Mary Almeida

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa, Obra poética, Editora Nova Aguilar, 2005)

Quatro poemas de Rupi Kaur

tentar me convencer
de que tenho permissão
para ocupar espaço
é como escrever com
o punho esquerdo
quando nasci
para usar meu direito
 
- a ideia de encolher é hereditária

 

é a sua voz
que me despe

 

riachos correm da minha boca
lágrimas que meus olhos não carregam

 

nossas costas
contam histórias
que a lombada
de nenhum livro
pode carregar
 
- mulheres de cor

 

Rupi Kaur (Outros jeitos de usar a boca, Planeta, 2017)