#brevidades 7

O céu

Anúncios

Três poemas de Trans formas são, de Alex Simões

mil&tânatos
quero poder cantar impunemente
sem ter de agradecer por estar vivo
ou problematizar por que se sente
medo de ter tesão, tédio, convívio
onde estão meus amigos, minha gente,
mortos por mil & tânatos motivos
ou quase vivos quando assim de frente
qual das verdades que nos traz alívio?
não ter resposta pode ser apenas
o início de uma certa indignação
mal disfarçada e em doses pequenas
na militante estética do não
se apresentar nem para salvar o mundo
nem pra trazer à tona o que, no fundo

 

respeitar o tempo
respeitar o tempo
o tempo do tempo
o tempo
o meu tempo
o seu tempo
o tempo de todo mundo
o tempo de cada um.

lograr respeito
por saber que o tempo há tempos
no plural é bem mais tempo
e por isso
Tempo uno
e às vezes
Tempo o.
autorchisteplagia
o poeta e o escritor
brincam, mas mui serenamente, e
postam no computador
os trocadilhos que mentem.

e os que leem e os que escrevem,
no que brincam, sentem bem,
não apenas pelo gozo,
mas pelo jogo também.

e assim se reinventa a roda
e se entretém a nação.
e pra amarrar esta coda
andorinhas passarão.
Alex Simões (Trans formas são. In: Organismo, 2018)

 

IMG_20190310_160905 (2)

Cinco poemas de Ezequiel

É DE MEU PAI ESSE CASO
exagerado e colorido

Meu é somente
essa reserva de solidão



DIA SEGUINTE

Ontem te pedi Senhor:
- Me faz ser homem.
- Quero ser Deus.

E tu que tudo
Pode
Não fez nada.



VII

Cobri todos os espelhos da casa
Fujo de todos os espelhos da rua

Limpa que sou
Minhas mãos não mapeiam meu corpo



V

lasquei um grito e disseram: - É menino, que lindo!

andei, comi
fiquei sério
me contive,

vesti e despi como menino.

Escancarava a trava

ando com uma foto de menino grudada na casa
uso chapéu com flor,
meia colorida,
batom e bigode.



DO TEMPO

Lourenço a pressentia,
Com dedicação,
A dedicação que se devota à rainha
A mais bela entre todas

Chovia e ele se lambuzava em ser a ventania.
Ezequiel (Margô Paraíso/ Luciany Aparecida, PANTIM, 2018)

IMG_20190217_155642

Choro de mulher

Joaquim Pedro ouve choro de mulher. Por que não dizer simplesmente choro? Porque o de mulher é longo, mina de nascentes insuspeitadas, por ela própria desconhecidas. Brota de dentro, de camadas que ela sem saber encobriu durante a vida. É lancinante e calmo, freme e escorre, estanca e se precipita, ora sincopado, ora suave. O choro de Marbela era um rio a correr. Quando, afinal, chegaria ao estuário, em fundo abraço de lágrimas, até que se completasse a mistura, até o apaziguamento? De onde estava, a avivar para a noite a brasa do charuto, Joaquim Pedro seguia sem querer o curso daquele  choro, era como se o visse escorrer em filetes por ente pedras, ou engrossar nos declives; quando parado, em súbita represa de água escurecida, Joaquim Pedro pensava: “Acabou”. No entanto, do fundo subia uma indistinta corrente que o fazia transbordar e prosseguir; Marbela retomava o choro, a princípio enfraquecido, gemidos de um ferido animal agonizante, em seguida entrecortado.

Há homens que choram. Em geral os demais homens os desprezam. Admite-se no macho o grito, jamais a súplica. Homem chora por dentro nos seus veios subterrâneos. Nas mulheres o trânsito da dor é mais fácil, elas desabafam e esquecem.  Esquecem? Por ventura alguém esquece? Há feridas abertas, para sempre abertas, e delas pinga sangue.

Com o charuto a queimar além da metade, Joaquim Pedro ouve o pranto de Marbela rumorejar, debilitado qual água em beira de riacho. Pronto. Agora, o rosto ainda a queimar, mas sob o efeito balsâmico de pomadas, Marbela ficará deitada uma ou duas horas, de olhos abertos na escuridão, de alma engessada, de peito sem ressonâncias, vazia, esvaziada. Adormecerá de madrugada, e não será por culpa do canto rouco dos galos e das asas que eles tatalam nos poleiros.

Hélio Pólvora (Don Solidon,  Casarão do verbo, 2011)