O gosto simples da vida

No banheiro social há toalhas limpas. Azuis como os azulejos da parede. E há sabonetes de glicerina, como antigamente. Tudo perfeitamente igual. A água morna do chuveiro me reconforta. Banho-me demoradamente. Pudera lavar-me dos anos todos da minha existência e me enxugar purificada. Fênix. Recém-parida de uma origem outra, da qual despontasse ungida, identificada, semelhante e comungante com todos, para a plenitude do gozo simples da vida. O gozo simples da vida, esse só é concedido aos iguais. Toda a complexidade da existência não vem senão das diversidades que os diferentes entre si procuram impor-se, reciprocamente. Viver é simples. Os viventes complicam esse viver na invasão iconoclasta, tentando desmoronar, com as suas verdades, as sagradas verdades de outrem. E se esboroa o gosto simples pela vida. E é bastante olhar os rostos. Há sempre uma denúncia de amargura no mais disfarçado dos sorrisos. Mas sempre se prosseguirá sacrificando o gosto simples da vida, na arrogância pretensiosa de colocar verdades próprias em posição de definição acima das demais.

Não quero descer para o jantar, mas temo ser mal interpretada. Não há capricho ou rancor. O tempo é semelhante a um tornado, acaba arrebatando tudo. Há só o desejo de fugir ao convívio deles. Talvez receiem ser contaminados pelo vírus da minha liberdade.

Gláucia Lemos (fragmento de Marce, Solisluna Editora, 2013)

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Metal contra as nuvens

Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz

Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão

Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos

Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá

Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa

Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo

Olha o sopro do dragão
É a verdade o que assombra
O descaso que condena
A estupidez, o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais

Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Esta é a terra de ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão

Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
Tudo passa, tudo passará

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos

Dado Villa-Lobos / Renato Russo

Reversus

Olhei-me, hoje, no espelho e não me vi. Era outro o rosto. Desfigurado.
Fitei para ver se enxergava o que via.
Tinha cara de escárnio, rindo dor e dizimação de negros lançados em camburões, valas, navios, mar.
Insisti para ver, e vi.
Arrogância subjugando mulheres transpassadas pela estupidez de um membro hirto, humanamente flácido. Dedo em riste, braço empunhado. Nenhum indício de gente escorrendo seminalmente.

Estapafúrdia visão.

Procurei minhas pupilas pretas no vidro. Escorreguei no sem tempo.
Mazelas acordaram meus olhos. Eu e meus remendos de gente. Visitei as pequenas mortes que cometi.
As prepotências mínimas de não saber quem sou. Você sabe quem eu sou?
As violências miúdas que empunhei por autoritária autoridade. Aqui sou eu que mando.
Vi a ideia maquinar a mente construindo proveito próprio sobre a falta do outro.
Vi somente o meu rosto e não vi a cara de mais ninguém em cada face que cruzei.

Estapafúrdia visão. Espelho meu.

Minhas desumanidades coladas no espelho onde (não) me vi. Perplexa, esfrego os olhos. Dilatado o meu olhar, enxergo fora do espelho o espelho meu.

Lílian Almeida

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Imagem disponível em: https://cdn.pixabay.com/photo/2015/10/24/11/09/drop-of-water-1004250_960_720.jpg

Sobre o silêncio

         O Surdo não precisava tapar os seus; já os tinha obstruídos. Desconfiava, no entanto, que as máximas da finada Idelfonsa, de tanto lhe martelarem os ouvidos, e de lhe provocar irritação, acentuaram-lhe a surdez. Ele resistia a ouvi-la, de maneira quase inconsciente, e habituou-se a fechar os ouvidos também para os outros. E assim tecia uma teia cada vez maior de silêncios, em que vigiava e laborava e atentava, disfarçado a um canto, fingindo-se de aranha morta. Quem quiser que lhe caísse na teia. Bastava-lhe engolir um inseto de cada vez e recolher-se sobre si mesmo. O Surdo amadurecia nos silêncios. De meditação em meditação sentia-se crescer por dentro. Os outros não reparavam, porque presos às exterioridades do seu próprio ser, cujo valor superfaturavam. Há silêncios que falam por uma assembleia inteira, como também há silêncios inertes. É preciso saber ouvi-los, mesmo quando se tem ouvidos moucos, e neles distinguir vozes, ecos, ressonâncias, sussurros – os interlocutores de maior valia, porque não tendo como falar, entendem-se à sua maneira altamente discreta com quem os sabe acolher. O Surdo os amava, os defendia, saindo dos seus silêncios quando estes, por demais densos, por demais audíveis, conseguiam ferir-lhe os tímpanos emudecidos, expondo-o, então, ao vozerio atordoante do mundo.

 

Hélio Pólvora (fragmento de Inúteis luas obscenas, Casarão do verbo, 2010)

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Três poemas de “Um girassol nos teus cabelos” – poemas para Marielle Franco

Março desaba sobre nós – golpe de chuva
que encerra outro verão de sonho e fúria.

Carregaremos março em nossa voz,
com seu peso de luto e armadilha,
com seu signo de fogo e súcia.

Diapasão que desregula toda música,
essa dor que nos lega teu silêncio sentencia
que abril não chegue nunca.

Provisoriamente, Carlos, não cantaremos o amor.

Entregues ao pasmo desse mês suspenso,
cantaremos março – e esse calendário
que arde em sangue.


Entregues à revolta desse mês suspenso,
cantaremos março – e os oito tiros
que atravessaram a noite.

E no estribilho da canção presente, o teu nome.

Kátia Borges

 

era noite, dia
da poesia. morri
também. bem sei,
tudo vai mal, estamos
morrendo mais
rapidamente, desde os 17
de abril de 16, desde
06 de fevereiro de 15, desde
28 de junho de 69, desde
01 de abril de 64, morremos sim, não
há alma que aguente 4
tiros na cabeça, quase 40
dias de intervenção militar, 400
humilhações diárias, 4000
beliscadas na veia
do coração, a velha
morte bem instalada no meio
dos caminhos blues. o choque. tudo
em volta está deserto. era noite, dia
da poesia. morri
também, marielle, mais
uma vez, mas, na manhã
seguinte, abri os olhos e você,
não. tudo certo, 2 e 2
são 5 e seguimos assim, cheios
de morte dentro. nesses eternos dias
de lutoA

Karina Rabinovitz

 

|ella|

queda a tarde no horizonte
franca
mente

memória sangra
sempre
viva

ao ponte
nunca velho
escrevo

é hoje:
do luto troco apenas uma letr’;
      a

Andréa Mascarenhas

 

Poemas do livro Um girassol nos seus cabelos: poemas para Marielle Franco (Quintal Edições, 2018. Mulherio das letras)

 

 

A árvore envenenada

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Fotografia de imagem de Márcio Vasconcelos presente no livro-poema A árvore envenenada, de Celso Borges.

essa árvore foi envenenada

alonso ramirez não gostava
das folhas que caíam na piscina
e dos morcegos felizes
desabando velozes na noite sobre
alcântara

lá do alto a lua cheia
ilumina a lenha oca
declarando guerra à morte

árvore, árvore do tempo envenenado
daqui de baixo minha alegria te contempla


alcântara, 25 de agosto de 2018

(Celso Borges)

Entre a estrada e a estrela: três poemas de José Inácio Vieira de Melo

O que me move a continuar essa história sem roteiro
é a possibilidade de mergulhar no abismo.
Cada passo é um se jogar no vazio de cada segundo.

Em cada gota de sangue, o milagre da matemática
estabelece ritmos e formas – transformações
da paisagem que me compõe e que vou compondo.

Nas cores do arco-íris banho meu olhar e saio pronto
para colorir os sofrimentos que vou encontrando.

No meu movimento, gentes, geografias,
diamantes, espinhos, auroras, crepúsculos.
Viver é assim, mas amanhece e já aponta a noite.

Escolhi, então, apenas andar por aí,
cobrir-me com a poeira dos caminhos
e descobrir a verônica das estrelas.

O mundo foi feito pra gente andar, isso eu já disse,
é que este verso tem marcado meu ritmo,
e que tem me salvado das amarras do cotidiano.

O meu tempo é pouco, mas é certo também
que tenho todo tempo do mundo
e só quero sentir minha respiração.

 

Em todo lugar
explode a primavera.

e dois olhos brilham
como duas pérolas.

Sou eu a mostrar
minha solidão

às estrelas.

 

O que posso dizer de mim,
essa coisa neutra que quer ser vista,
e se ver, sem carecer de espelhos,
até chegar na essência?

Um neutrino,
um simples menino,
mínimo, mínimo, mínimo.

Só me resta sentir a luz do Sol,
que corre milhões de anos
para chegar até aqui,
fazendo carícias.

 

José Inácio Vieira de Melo 
(Entre a estrada e a estrela, Mórula Editorial, 2017)