Três poemas águas de Elizandra Souza

Felinas palavras
Se eu morrer, que seja com meus próprios dentes
Assim como os javalis que lapidam a própria lança
Esculpindo e afiando o bote no inimigo
Comendo de noite e dormindo com o sol

Se eu morrer, que seja com meus próprios dentes
Palavras felinas entalhadas entre as lâminas
Mordendo e fuçando o que servem de alimento
Entre os pés, entre o solo, entre a lama

Se eu morrer, que seja com meus próprios dentes
Estes dois troféus que quanto mais o tempo passa
Brilham quando bebem as águas do rio...

 

Navio em pleno mar
Hoje eu me apaixonei por uns três segundos
Olhei no seu olhar e pensei no futuro
Castelei um amor profundo
E descobri que você navegava em outras ilhas
Navio em pleno mar...

 

Chegada
Se tu viesses me ver nessa noite
Encontraria na porta, um sorriso encanto
Um abraço envolvente como manto
Remédio que afugenta o açoite

Se tu viesses em passos lentos
Entalhando meu rosto em um camafeu
Ouviria todos os conselhos dos ventos
Vagalumeando ou brincando com o breu

Se tu viesses do horizonte belo
Galopando e seguindo o curso do rio
Pontilhando nas estrelas nosso elo
Escutaria o caminho que tanto te assobio
Elizandra Souza (Águas da cabaça, Edição do autor, 2012)

IMG_20190713_203009

Anúncios

Ombela: a origem das chuvas

Dizem os mais velhos que a chuva nasceu da lágrima de Ombela,
uma deusa que estava triste.

– Estou triste e vou chorar... mas para que as minhas lágrimas
não matem os bichos nem as pessoas que vivem na Terra, vou
deixar que tenham muito sal e que alimentem os mares.

O pai de Ombela, ao saber da sua tristeza, veio falar com ela:
– Minha filha, a tristeza faz parte da vida.
– Eu sei, pai. Mas quando estou triste, dói-me o peito.
O pai de Ombela sorriu.
Depois apagou o sorriso do seu rosto e disse:
– Que sorte, minha filha, que só te dói o peito.
– E tu, pai, quando estás triste o que acontece?
– Fico mais pequenino, filha.
– Os deuses podem ficar mais pequenos?
– Podem – respondeu o pai de Ombela. – Os deuses, com o passar
do tempo, ficam cada vez mais pequenos.
Ombela limpou sua primeira lágrima e quase se esquecia de chorar.
– Não te esqueças de chorar – lembrou-lhe o pai. Assim como a lua
tem muitas faces, no mundo, por vezes, faz Inverno e outras vezes
faz Verão. Mesmo nós, os deuses, não podemos sempre estar felizes.
– Se é hora de sorrir, deves sorrir. Se precisas de chorar, deves
chorar.

Ombela começou a chorar.
Tinha muitas lágrimas e parecia muito triste.
Chorou durante algum tempo e assim se encheram os oceanos dessa
água tão salgada.

– Penso que é hora de parar de chorar. Não sei se choro porque 
ainda estou triste ou porque gosto tanto de olhar o mar...

O pai de Ombela, ao saber da sua dúvida, veio falar com ela.
–  Minha filha, quero que saibas mais uma coisa: as lágrimas não
nascem dos olhos apenas quando estamos tristes. Existem também as
lágrimas de felicidade. Quero mostrar-te uma coisa.
O pai de Ombela pôs as suas mãos em concha e mostrou-lhe as 
flores, as árvores, os animais e tudo o que na Terra precisava de 
água doce.
Com o seu dedo desenhou alguns rios. Depois inventou os lagos e
lagoas.
– Estes riscos que vês na Terra, e estes lugares que parecem
buracos vazios, esperam agora novas lágrimas tuas
– Parecem caminhos e lugares de águas...
– Sim, são caminhos e lugares e águas.
– Vamos chamar-lhes rios, lagos, lagoas – sorriu Ombela. – Já não 
estou tão triste e ainda tenho lágrimas comigo.
– Agora vou fazer chover sobre a terra: a lágrima da tristeza vai
chamar-se “água salgada”. A nova lágrima será a “água doce”.
O pai de Ombela sorriu e retirou-se.

Dizem os mais velhos que a chuva é sinal de que Ombela está a
chorar.

Se essa chuva cai sobre o mar, Ombela está triste. Se cais sobre
a terra, sobre os rios, sobre os lagos, Ombela está feliz.
Dizem que Ombela teve muitas filhas... E que todas sabem fazer
chover.
Ondjaki (Ombela: a origem da chuva. Pallas Mini, 2014)

Vitória nossa de cada dia

– E então você não quis mais nada disso.  E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar pronta.

Clarice Lispector (fragmento de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Rocco, 1998)

Carta para o voo (ou queda)

Você diz que a partir de certo ponto não há mais retorno. Pergunto-me: onde? Onde o caminho até nós dois é sem volta? Revejo tua foto no smartphone. Não me olha. Teu olhar baixo, concentrado no que fazias quando a imagem foi retida. Retenho-me. Há mais cérebro do que coração no meu corpo. Do lado de cá eu pergunto onde. Me pergunto se terei coragem de avançar no sem retorno. Minha cabeça diz não. Meu corpo queria. Quer. Ainda não tracei as rotas desse encontro, meticulosa que sou. Ainda não fui ao ponto. Nenhum ponto. Sequer vírgula. Fiquei do lado vazio, onde ausência não é falta de presença. Você marca ponto no meu dia. Eu faço presença no seu?

O teu olhar, ao vivo, me diz siga. Eu duvido das indicações. Quero um mapa com todas as coordenadas, longitude e latitude do seu coração. Talvez ainda hesite. Porque medo é controle do sofrimento que já sei, já vivi e guardei. Onde é o ponto em que não retorno pra cabeça? Onde eu me perco dos medos?

Deixei minhas armas ao pé da cordilheira, com a Deusa, porque já lutei contra ti e me perdi. Hoje não luto mais. Só comigo, insistentemente, sem vitória ou derrota. Parada. Retida por minhas próprias forças, entre o desejo e o dever. Entre quem penso que sou e o que leio em ti. Milhões de conexões, sinapses nervosas no caminho certo, onde erro não tem lugar. Meus esquadros estão partidos. Onde as retas? As curvas me bailam e eu tenho medo de cair do giro. Como esse traço que escorreu da letra e virou risco. O lápis risca o risco sobre o papel e eu vejo. Não dissimulo pra mim mesma. O risco.

Só dá pra saber se acontecer, invade a canção no rádio. Risca meus ouvidos cegos. Tanto amor guardado tanto tempo. Eu queria as coordenadas do seu coração. O meu já sei perdido, amarelo de medo de arriscar-se. Ninguém joga as chaves ou as tranças de Rapunzel para eu escalar a torre e libertar-me. Por que fui tão alto, tão fundo no abismo medonho onde amar é sofrer? As chaves sou eu. Viver é um risco. Não há garantias. Repito, repito, repito. Um mantra. Abracadabra. Somente eu posso dar garantias à vida.

Rasuro as grades da minha prisão, sem esquadros, sem retas. O salto pode ser queda ou voo. Só se sabe depois. Depois de um minuto ou dez, talvez só amanhã, eu saberei. Entrego-me no salto para fora, dentro de mim, em direção a você. Minhas palavras tocarão a tela do teu smartphone no instante já. Eu ficarei quieta, tremendo de medo de não voar, sonhando com o céu.

Lílian Almeida

dandelion-2316387

Cortesanias de Rita Santana

Aquarela
Tudo é perecível!
As Estações cavalgam sobre os dias,
fazem dos sonhos seu pasto.
Exponho-me a cortes e mutilações,
pois envelheço de luas, marés e melancolias.

Devasto vimeiras, salgueiros e várzeas
a fim de te oferecer amplidões,
pois não amarguro ao mundo minhas tristezas,
pronuncio palavras de abundância e liquidez:
Nevoeiros, charcos, brumas e prados.

Sei de muros e fronteiras!
Guardo lenços e avencas em meu alforje.
A felicidade foge-me, escapa-me!
O mundo negligencia a minha verve
enquanto vermes me comem, conduzem-me
– molhada e íntegra –
ao Templo da Morte!

 

Marinha
Todos os dias,
afundo as mãos em Oceanos,
mergulho em enseadas e rios,
Em busca do Silêncio.
Entre juncos, musgos e algas
encontro-me com a Solidão.
Embarcações rubras dançam
valsinhas à beira do cais.

Engano-me com a pacatez das ostras
deitadas sobre o esquecimento.
Murmúrios sustam a letargia das Horas.

As Deusas prevaricam informações,
demoram-se sobre os corais que cobrem os barcos.
Busco, acintosamente, entre todos, a Ti!
Busco-te em meio aos operários de Tarsila.
Busco-te no arsenal de Rivera,
enquanto distribuo armas aos rebeldes,
enquanto, adrede, apaixono-me.

 

Cemitério de Mágoas
Apaziguas a sofreguidão da Mulher
apenas quando tua pequenez te toma.
Depois, retorna ao herói de multidões,
torna-te de asperezas e soberanias.
És todo força e prepotência.
Esquizóide servo em pântanos.

O Tempo coze as iguarias da brandura.
O desamor é um ermitão disposto
a fazer de mim um cemitério de mágoas.
Rita Santana (Cortesanias, Caramurê Publicações, 2019)

 

Me curar de mim

Sou a maldade em crise
Tendo que reconhecer
As fraquezas de um lado
Que nem todo mundo vê

Fiz em mim uma faxina e
Encontrei no meu umbigo
O meu próprio inimigo
Que adoece na rotina

Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim

O ser humano é esquisito
Armadilha de si mesmo
Fala de amor bonito
E aponta o erro alheio

Vim ao mundo em um só corpo
Esse de um metro e sessenta
Devo a ele estar atenta
Não posso mudar o outro

Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim

Vou pequena e pianinho
Fazer minhas orações
Eu me rendo da vaidade
Que destrói as relações

Pra me encher do que importa
Preciso me esvaziar
Minhas feras encarar
Me reconhecer hipócrita

Sou má, sou mentirosa
Vaidosa e invejosa
Sou mesquinha, grão de areia
Boba e preconceituosa

Sou carente, amostrada
Dou sorrisos, sou corrupta
Malandra, fofoqueira
Moralista, interesseira

E dói, dói, dói me expor assim
Dói, dói, dói, despir-se assim

Mas se eu não tiver coragem
Pra enfrentar os meus defeitos
De que forma, de que jeito
Eu vou me curar de mim?

Se é que essa cura há de existir
Não sei. Só sei que a busco em mim
Só sei que a busco

Flaira Ferro (Do álbum Cordões umbilicais)