Almas

Almas

Fotografia: Lílian Almeida

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O mistério das coisas, onde está ele?

O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.

 

“O Guardador de Rebanhos”. In: Poemas de Alberto Caeiro.

Na oração que desaterra a terra

Na oração que desaterra a terra
Quer Deus que a quem está o cuidado dado
Pregue que a vida é emprestado estado
Mistérios mil que desenterra enterra.

Quem não cuida de si, que é terra erra
Que o alto Rei, por afamado amado
É quem lhe assiste ao desvelado lado
Da morte ao ar não desaferra, aferra.

Quem do mundo a mortal loucura cura
A vontade de Deus sagrada agrada
Firmar-lhe a vida em atadura dura.

Ó, voz zelosa, que dobrada brada
Já sei que a flor da formosura usura
Será no fim dessa jornada nada.

 

Gregório de Matos (Poema de Gregório de Matos musicado por José Miguel Wisnik)

 

O mosaico poético de Ana Valéria Fink

A ÁGUA DA PIA

a água da pia,
em círculo
vai pelo ralo.
e eu não tenho a tampa...
assim, a vida.
passando, correndo,
voando, escoando
depressa, sem que
nada a detenha.
a vida, líquida,
escoando pelo ralo.
e eu não tenho a tampa...

 

FRAGMENTOS

meu coração bate em peitos outros
e o líquido das veias,
já extremamente fluido,
é água destilada.
vou me diluindo pelo mundo.
não sei me guardar,
o turbilhão de afeições me arrasta,
e vou inteira.
não tenho nada,
me dividi,
e meus pedaços se perderam
por entre as dobras da vida.
sou um mosaico,
formado de estilhaços
dos que também se despedaçam
no caminho.

 

DESERTA

sou um torrão
gretado
seco
sozinho.
não quero vento
pra me repartir em poeira
nem água
pra me distribuir em lama.
quero estar como sou
mesmo árida
deserta.

 

EM CLARO

queria fazer nessa insônia
poesia
mas ela dorme
e sonha pesadamente.

Ana Valéria Fink (Mosaico, Marianas Edições, 2018)

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Estudar pra ser alguém na vida

A linha do tempo na rede social de um amigo me chamou a atenção para o ato de rebeldia contra o sistema de quem nasce pobre: estudar. Concordei de pronto. Conhecia bem o assunto, alisando cadeiras e cadeiras de escolas e universidades. Rebelde!

Estudar pra ser alguém na vida. Era esse um dos lemas dos meus pais. Eles estudaram o quanto foi possível em suas trajetórias cheias de engasgos e tropeços, pretos e pobres como os nossos mais velhos e como eu e meus irmãos, que viemos depois. Chegaram longe diante da falta de expectativa e da dignidade duvidada quando eles ainda eram jovens. Esperavam que lhes abraçasse o sem rumo. Reverteram o leme, singraram mares revoltos e dignificantes, como muitos dos seus, dos meus, dos nossos. “A vida só é dura pra quem é mole”, dizia meu avô. Eles foram mais duros que ela. Na força, definiram que o caminho melhor era feito com estudo. Então, já viu, né? Estudar virou lema. O legado para mim e meus irmãos? Educação. Nada mais. Era tudo, o melhor que eles poderiam dar pra nós.

No começo, obedeci por respeito. Depois, peguei gosto e continuei por falta de outra opção que enchesse os meus olhos. Estudei, estudei e ainda o faço. Eis um dos meus fazeres cotidianos na profissão que exerço. Uma amiga agradece sempre aos pais por ter sido alfabetizada. Eu também! Muito da riqueza que sou é porque sei ler. Não fosse isso, seria mais pobre do que a realidade que os meus recursos de professora me permitem prover.

Estudava porque era meu dever levar boas notas para casa. Meus pais abriram mão não sei de quantas coisas para garantir escola para os filhos e sustentar a máxima que eles não cansavam de lembrar. “Estudar pra ser alguém na vida.” Àquele tempo eu não fazia ideia do que podia significar ser alguém na vida. Inocência. Achava apenas que precisava estudar para dar-lhes gosto. Às vezes, eles relacionavam estudar com ter um futuro melhor. Futuro. Era tudo muito vago. Só quando a gente passou a estudar fora do bairro no subúrbio ferroviário, em Itapagipe, onde a minha avó morava, é que eu comecei a entender que a vida é muito hostil fora da saia da minha mãe ou da barra da calça do meu pai.

O subúrbio ferroviário ainda dói a minha infância no outro lado do mar. Foi no outro lado do mar que eu descobri que era pobre e preta. Descobri também que a inocência não é atributo de toda a infância. Ilusão. Eu e minha vizinha tínhamos tratamento diferenciado lá. Desconfio que por conta das distintas aparências. Eu, uma menina pequena, magricela, negra e suburbana. Ela? Também uma menina pequena, magricela e suburbana. Para um bom leitor, poucas palavras são suficientes para decodificar o mundo. Compreendi o que era a tal da “boa aparência” que eu lia nos classificados do jornal que o meu pai comprava aos domingos. A escola fora do bairro onde eu morava me trouxe mais do que as lições dos livros.

Ali, eu começava a deduzir que era ninguém e que poderia vir a ser alguém, se estudasse. Imaginava que ter um futuro melhor poderia incluir não comer miolo de boi, que eu detestava, comprado na mão da vizinha fateira. A ideia de ser alguém na vida e ter um futuro melhor se tornou sedutora pra mim. É claro que eu queria não me sentir excluída na escola, particularmente no recreio, mas não sabia se estudar resolveria isso. Também desejava poder ir ao cinema fora da premiação das férias, se tivesse boas notas. Ambicionava poder ganhar presente no dia das crianças e no aniversário, ambos no mesmo mês. Obediente, estudei e sonhei com o que eu compreendia sobre ter um futuro melhor.

Ficava engasgada aquela coisa de “ser alguém na vida”. Eu estava viva e era alguém, uma pessoa. Como assim, ser alguém se eu já era?… Ou achava que era. Essa parte foi muito complicada por muito tempo. Quando entrei na universidade pública, descobri que fazia parte do 1% de negros que estavam no ensino superior, no final do século XX. Exclusão. Felizmente de lá pra cá isso mudou, agora temos mais negros com oportunidade de fazer um curso superior e ter mais recursos para seguir a labuta pelo reconhecimento profissional em pé de igualdade com profissionais não negros. Eu sentia que todas as pessoas que eu conhecia, e mesmo as que eu não conhecia, (e eu pensava muito nas pessoas do meu bairro) contribuíam, com os impostos que elas pagavam, para que eu estivesse ali, entre aqueles 1%. Agora eu precisava mais do que tirar boas notas. Eu precisava ser alguém para que eles também fossem. Eu continuava não sabendo bem o que era isso, mas sentia que precisava fazer da universidade uma experiência extraordinária na minha vida e na daqueles a quem fosse possível transmitir aquela vivência.

De lá pra cá eu não deixei de me lembrar de quem provê o custo do funcionamento do bem e da instituição públicos: eu e todos os cidadãos brasileiros. Não esqueci que a oportunidade de cursar uma universidade pública foi degrau indispensável para me levar onde estou agora, em outro segmento dentro dela.  Continuo querendo ser alguém, uma versão melhorada em todos os aspectos do alguém que sou até o momento. Hoje, eu acredito que meus pais, eu e meus irmãos sempre fomos alguém, mesmo quando nos queriam ninguém, quando não nos enxergavam ou faziam de conta não nos ver. Imagino que a invisibilização que conheci cedo, na escola, era uma estratégia para a gente sumir mesmo, ficar no subúrbio, na periferia, na senzala. E várias vezes tudo o que eu quis foi sumir. Fazer parte daquele 1% é visibilidade, é afirmar ser alguém. Ser uma mulher negra e nordestina cursando um doutorado num estado do sul do país é visibilidade, é ser alguém. Ser a primeira pessoa com doutorado na minha família é visibilidade, é ser alguém para que os meus sejam. Ser professora numa universidade pública e dar aulas no sertão da Bahia é ser alguém para que os meus alunos e seus familiares também sejam. Ser alguém é assumir, conscientemente, um lugar onde quer que se esteja.

Parece que quando os meus pais diziam a sua máxima, para mim e para meus irmãos, queriam afirmar a importância de se ter uma postura consciente diante da vida, diante do lugar social em que se está; coisa que o estudo traz, mas não só o estudo. Só o estudo, formal ou informal, nos dará condições de desvendar as estruturas a que estamos submetidos e subvertê-las. Estudar pra ser alguém na vida é o mesmo que ser rebelde, rebelar-se contra uma engrenagem excludente e opressiva para pretos e pobres, é o mesmo que estava na linha do tempo do meu amigo. No começo, fiz por obediência, hoje, por escolha, por crença: à medida que eu sou, todos à minha volta são comigo. Todos os dias exercito jeitos de ser, cada vez mais, alguém na vida. Encontrei um jeito de honrar a sabedoria dos meus pais.

 

Lílian Almeida

Um corpo no mundo

Atravessei o mar
Um sol da América do Sul me guia
Trago uma mala de mão
Dentro uma oração
Um adeus

Eu sou um corpo
Um ser
Um corpo só
Tem cor, tem corte
E a história do meu lugar
Eu sou a minha própria embarcação
Sou minha própria sorte

E Je suis ici, ainda que não queiram não
Je suis ici, ainda que eu não queria mais
Je suis ici agora

Cada rua dessa cidade cinza sou eu
Olhares brancos me fitam
Há perigo nas esquinas
E eu falo mais de três línguas

E palavra amor, cadê?
Je suis ici, ainda que não queiram não
Je suis ici ,ainda que eu não queira mais
Je suis ici, agora
Je suis ici
E a palavra amor cadê?

Luedji Luna

 

Missivas incomuns de nosso tempo

capaA primeira aproximação que tive com a literatura da poeta e prosadora Lílian Almeida foi a partir da leitura de seu conto “A bênção”, que foi publicado numa edição cartonera fruto de uma oficina que participamos, ministrada pelo Coletivo Tear em 2016. Como acontece quando nos deparamos com um texto literário incrível, de lá para cá, a breve narrativa de Lílian me acompanhou. Agora, termino de ler seu livro de prosa “Todas as cartas de amor” (Quarteto editora) e penso no quanto é bom celebrar, na intimidade própria da leitura, a existência de sua arte com as palavras.

É prazeroso ler uma escritora contemporânea e conterrânea que lida com a geometria da vida: “A curva do encontro é aqui?”, seus paradoxos, o direito à recusa: “O grave da voz contrasta com a ginga das palavras na conversa sem rumo apontada para as rendas da minha blusa. Tece e enreda seus fios de desejo na minha roupa, nos colares, nos cabelos. Revejo os arcos da linha que empurrei. Sorrio em ampla curvatura. O sol despede-se e eu também.” As possibilidades do desejo: ‘Há calor demais no meu sangue para um blues. O bar do samba convida-me para o encontro.” […] “A mão dele brinca com a minha. Após o drink permito o beijo com sabor de groselha e pêssego.”

As narrativas da autora, não lineares e em primeira pessoa, intercaladas com trechos de poemas de Fernando Pessoas e seu heterônimo Álvaro de Campos e as ilustrações de Vaneide Luz, reformulam os mitos  presentes  em  seu imaginário. A própria ambivalência humana com a consciência de que, apesar de tudo: “Eu sempre estou indo”.

Diante dos muitos caminhos que Lílian Almeida nos oferece, capto, aqui e ali, ecos de “O fim da história”, de Lydia Davis, mas numa ótica em que a narradora aprende coisas novas a seu próprio respeito. A voz narrativa marcada pela fragmentação e pela busca projeta um diálogo com “A chave de casa”, de Tatiana Salem Levy, num jogo estilístico que condensa a  trajetória  de  uma  mulher à  procura  de  algo. Também paira sobre sua narrativa o filme “O abismo prateado”, de Karim Aïnouz, ambos atravessados pela canção “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque.

Em “Todas as cartas de amor”*, Lílian Almeida, apreendendo o mundo com seus deslocamentos, nos lembra que “A malemolência marítima dissolve todos os enquadramentos.” Ao construir missivas incomuns de nosso tempo, a autora mostra, com sutileza e sensibilidade, como tenta alcançar o encantamento possível. Entre “refletir e refratar”, entre as “paralelas e as perpendiculares”, Lílian Almeida escreve uma história bem articulada, cujo poder nos assalta: o que todos nós almejamos é a felicidade.

Evanilton Gonçalves

é editor, revisor e colunista do blog Diários Incendiários, crítico literário e autor do livro de prosa Pensamentos supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo (Paralelo13S, 2017).

Esta resenha foi publicada originalmente no blog Diários Incendiários.

*Interessados em adquirir Todas as cartas de amor entrar em contato com a autora através deste blog ou https://www.facebook.com/lilian.almeida.904