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A massa

A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos igual a um gemido calado
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar

Moinho de homens que nem jerimuns amassados
Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais

Quando eu lembro da massa da mandioca mãe, da massa

Lelé meu amor lelé
Lelé meu amor lelé
No cabo da minha enxada não conheço “coroné”
No cabo da minha enxada não conheço “coroné”
Eu quero mas não quero (camarão). Mulher minha na função (camarão)
Que está livre de um abraço, mas não está de um beliscão (camarão)

Torna a repetir meu amor: ai, ai, ai!
Torna a repetir meu amor: ai, ai, ai!
É que o guarda civil não quer a roupa no quarador
É que o guarda civil não quer a roupa no quarador
Meu Deus onde vai parar, parar essa massa
Meu Deus onde vai rolar, rolar essa massa

 

Raimundo Sodré

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Solar

Venho do sol
A vida inteira no sol
Sou filha da terra do sol
Hoje escuro
O meu futuro é luz e calor

De um novo mundo eu sou
E o mundo novo será mais claro
Mas é no velho que eu procuro
O jeito mais sábio de usar
A força que o sol me dá
Canto o que eu quero viver

É o sol
Somos crianças ao sol
A aprender e viver e sonhar
E o sonho é belo
Pois tudo ainda faremos
Nada está no lugar
Tudo está por pensar
Tudo está por criar

Saí de casa para ver outro mundo, conheci
Fiz mil amigos na cidade de lá
Amigo é o melhor lugar
Mas me lembrei do nosso inverno azul

Eu quero é viver o sol
É triste ter pouco sol
É triste não ter o azul todo o dia
A nos alegrar
Nossa energia solar
Irá nos iluminar
O caminho

Milton Nascimento e Fernando Brant

Noite de estrelas

Arde na terra a solidão da lua
Iluminando meu olhar perdido
Entre campinas, abismos, chapadas.
Meus olhos queimam a última lembrança
Como fogueira em noite de estrelas.
Me deito só
Com vista para o mundo.
Calando fundo meus sonhos,
minhas queixas.
Mas alço voo em busca de teus passos
Piso descalço na terra do teu corpo.
Suave passo, suave gosto,
cheiro de mato.
Meu braço laço, eu lanço em segredo.

Vem ser meu canto, meu verso,
meu soneto.
Vem ser poema no árido deserto.
Serei oásis, silêncio, festejo.
Serei sertão nas horas de aconchego.

Roberto Mendes e Ana Basbaum

 

Se eu quiser falar com Deus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

 Se eu quiser falar com Deus
 Tenho que aceitar a dor
 Tenho que comer o pão
 Que o diabo amassou
 Tenho que virar um cão
 Tenho que lamber o chão
 Dos palácios, dos castelos
 Suntuosos do meu sonho
 Tenho que me ver tristonho
 Tenho que me achar medonho
 E apesar de um mal tamanho
 Alegrar meu coração

 Se eu quiser falar com Deus
 Tenho que me aventurar
 Tenho que subir aos céus
 Sem cordas pra segurar
 Tenho que dizer adeus
 Dar as costas, caminhar
 Decidido, pela estrada
 Que ao findar vai dar em nada
 Nada, nada, nada, nada
 Nada, nada, nada, nada
 Nada, nada, nada, nada
 Do que eu pensava encontrar

Gilberto Gil

Afasta de nós esse cale-se

Cálice

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça


Gilberto Gil e Chico Buarque

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Imagem disponível na internet

 

 

Silêncio

Silêncio, hoje eu preciso tanto ouvir o céu
Já não é mais urgente assim falar
Meu coração precisa repousar.

Eu venho lá dos sertões onde a saudade se perdeu
Daquela estrada em poeira que doeu
Feito uma flor que resistiu, assim sou eu.

Silêncio, eu quero ouvir o que me diz a imensidão
Quero saber se minha alma tem razão
Quando acredita que essas coisas vão mudar.

Silêncio, pra eu me lembrar de tanta coisa que eu sonhei
Encontrar todas as folhas que eu juntei
Por essa estrada que me traz até a mim.

Flávia Wenceslau

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Foto: Lílian Almeida

 

Guerreiro menino

Um homem também chora

Menina morena

Também deseja colo

Palavras amenas

 

Precisa de carinho

Precisa de ternura

Precisa de um abraço

Da própria candura

 

Guerreiros são pessoas

Tão fortes, tão frágeis

Guerreiros são meninos

No fundo do peito

 

Precisam de um descanso

Precisam de um remanso

Precisam de um sono

Que os tornem refeitos

 

É triste ver meu homem

Guerreiro menino

Com a barra do seu tempo

Por sobre seus ombros

 

Eu vejo que ele berra

Eu vejo que ele sangra

A dor que tem no peito

Pois ama e ama…

 

Um homem se humilha

Se castram seu sonho

Seu sonho é sua vida

E vida é trabalho

 

E sem o seu trabalho

O homem não tem honra

E sem a sua honra

Se morre, se mata

 

Não dá pra ser feliz

Não dá pra ser feliz

 

(Gonzaguinha)

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Disponível na internet