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Ensaio para uma conversa

Ensaio para uma conversa é uma entrevista concedida à escritora Rita Santana, publicada originalmente em seu blog Barcaças.

– Em termos identitários, quem é Lílian  e como ela se definiria?

Diria que, em resumo, Lílian é mulher, negra, baiana. Esses lugares sociais marcam sobremaneira o meu estar no mundo, o meu identificar-me. A partir daí me posiciono nas distintas esferas de atuação, seja como filha, amiga, professora, pesquisadora e, agora, escritora.

–  Quais são as suas influências mais arrebatadoras nas artes? Quais são as grandes paixões de Lílian?

Minhas grandes paixões: a literatura e o mar. Preciso dos dois para viver bem. Certa ocasião precisei morar num módico aposento, bem pequeno mesmo. Meus livros estavam guardados em caixas. Sentia falta de alguma coisa naquele espaço restrito. Improvisei uma estante e coloquei alguns livros. Eu precisava vê-los diariamente. Não bastava saber que eles estavam ali, guardados. Isso deu-me o alento que precisava para me sentir bem naquele lugar. O mar, por sua vez, é uma paixão serena como água de baía. Vê-lo, ouvi-lo, senti-lo é uma experiência delicada e profunda, de muito amor, reverência e harmonia.

E as influências? Hum… uma rápida busca na minha memória traz-me os nomes de autores que leio com freqüência como Helena Parente Cunha, Adelia Prado, Ana Paula Tavares, Fernando Pessoa, Lygia Fagundes Telles, Aleilton Fonseca, Clarice Lispector, Myriam Fraga, além de outros, mais jovens, da minha geração ou próxima a ela.

– Você classificaria o seu livro em algum gênero específico ou ele é o amálgama de alguns? Missivas, contos, crônicas…..

Quando escrevi Todas as cartas de amor não estive preocupada com o gênero. Procurei o quanto pude me esquecer que sou estudiosa de literatura. Pensei apenas em dar vazão à personagem e à sua necessidade de narrar seu cotidiano e sua busca de uma forma altamente subjetiva. Para atender a esse propósito escolhi as cartas: um gênero desprestigiado pelo acelerado tempo do ciberespaço. Um gênero que promove o exercício de reflexão à medida que as linhas são preenchidas, e permite lembrar ou evocar imagens, situações, desejos. Porém, as cartas da personagem assumem matizes de poesia e de prosa, são um gênero híbrido.

Ilustração de Vaneide Luz para o livro Todas as cartas de amor

Ilustração de Vaneide Luz para o livro Todas as cartas de amor

– O que nós leitores encontraremos em Todas as Cartas de Amor?

Os leitores encontrarão em Todas as cartas de amor um percurso de autoconhecimento da personagem narradora. Se o desejo mais profundo do ser humano é ser amado e ser feliz, o que o livro apresenta é o caminho encontrado pela mulher das cartas para realizá-lo.

– Helena Parente Cunha prefacia o seu livro de estreia. Qual o impacto dessa escritora em sua vida acadêmica e literária? A Mulher no Espelho foi um grande encontro?

Encontrei-me, pela primeira vez, com Helena Parente Cunha em 2001, ainda na graduação, quando comecei a estudar sua obra narrativa. Seus livros me inquietavam e desconcertavam, e ainda o fazem. Eu era uma menina cheia de questionamentos e os livros dela colocavam mais interrogações em minha cabeça. Apaixonei-me ao primeiro livro, Vento, ventania, vendaval. Passadas algumas leituras, cheguei a Mulher no espelho, uma enxurrada de golpes no estômago. Era assim que eu me sentia e ainda me sinto ao reler o livro. As muitas mulheres que sou, fui e serei explodem em mim quando leio Helena. Ítalo Calvino estabelece várias definições para o que se poderia chamar de um livro “clássico”, entre elas a seguinte: “dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los”. Os livros de Helena fazem parte dos meus clássicos.

Passados alguns anos, a amizade que já existia com os livros levou-me à autora. Cultivamos uma amizade cheia de carinho e respeito. Aprendo muito com ela, seja nas nossas conversas, seja mediante a leitura de seus livros, seja através do silêncio dos tempos que ficamos sem nos encontrar.

– Sente a responsabilidade de existir como escritora de literatura?

Assumir a responsabilidade de ser mulher e escrever literatura é um compromisso que tenho com a pulsão de arte que brota dentro de mim. Inserida no meu tempo, vejo os misóginos olhos de esguelha sobre as escaladas femininas na sociedade e digo do que vejo e sinto. Como diz Drummond, “nãos serei o poeta de um mundo caduco./ (…) Estou preso à vida e olho meus companheiros”.

Sou leitora e professora e sei dos impactos que o texto literário pode promover no leitor. Não concebo a literatura como redentora de coisa alguma, mas acredito que impactar, inquietar, desacomodar pode ser uma boa e inútil função para a ela.

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