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A reza

Quem tem fé vai a pé. O homem lá de casa começou com espalha pé, sua voz trovejou, dizendo para eu me recolher da intenção de ir à reza. Eu disse: É… Pois vamos ver. Peguei as contas a pagar, todas, estavam caladas na gaveta procurando ocasião de ser avistada por ele. O homem silenciou a voz, calou os pés, amansou o pensamento. Ficou num canto deslembrado da vida. Fui andando, duas léguas de distância a casa de Dona Jesuína, rezei com fé, depois o samba. Meu corpo ganhou molejo desassombrando os tormentos. Minha fé nunca falhou, a porca pariu, vendi por dois trocados, paguei as contas. Depois disso a voz do homem voltou um pedaço, era só chuvisco, a voz de trovão sumiu no meio das dívidas.

 

Aidil Araújo Lima (Mulheres sagradas, Portuário Atelier Editorial, 2017)

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Por do sol

Outra vez eu estava fazendo aquele mesmo caminho, trocando passos devagar. As pernas estavam tão pesadas, não é fácil tentar carregar o peso da alma. É muito estranho estar cercada de pessoas e sentir-se imersa na solidão, mas dessa vez, de alguma forma, eu fui conversando com aquela dor. É que não foi a primeira vez que nos encontrávamos. Aquela manhã despertou nublada, mesmo sendo um dia de sol. Acordei com um silêncio reverencioso como se o amanhecer soubesse o que estava por vir. A triste surpresa da notícia: Tua vó Deja morreu!

Parecia estar se repetindo a história de quando minha vó Martinha, meu sol, se pôs. Era manhã do dia vinte e quatro de novembro de dois mil e cinco. Eu estranhei a tranquilidade, na minha casa os cafés da manhã significavam barulhos, conversas e risos, mas naquele dia a intrigante calma foi interrompida pela voz de minha mãe dizendo: Levanta para ver sua vó antes dela morrer. Meu corpo estremeceu inteiro, minha vó era muito mais que uma vó, era minha mamãe, meu porto seguro, meu exemplo de ser humano e de mulher.

Me senti arrastada por um turbilhão de emoções inexplicáveis, diante do desalento que sobreveio a mim. Levantei estonteada, a todo momento minha mente era invadida pelas lembranças de momentos que tínhamos vivido. Eram tantos abraços, estórias, risos, canções, cheiros, sabores e memórias; eu nem sabia que podia guardar todas essas recordações. E assim, oscilando momentos de lucidez e de divagações, fui até a casa de minha vó, entrei no quarto, e a vi indo embora, respirando cada vez mais lentamente. Saí de lá correndo, chorando, me recusando a acreditar que estava perdendo minha mãe.

Eu olhava para ela inerte no caixão, sem aquele costumeiro sorriso, custava a acreditar; ela parecia estar dormindo como sempre fazia na sesta que tirava depois do almoço. Não suportava aquele murmurinho e os risinhos das pessoas tomando chá e cafezinho com biscoitos como se nada tivesse acontecendo. Bando de abutres! Tem pessoas que vão para velórios sem nenhuma preocupação ou respeito pela luto dos outros, vão para rever os velhos amigos e conversar. Notei que costumam visitar mais os mortos do que os vivos. Apareceu gente que eu nunca tinha visto visitá-la enquanto estava viva. Monte de urubus!

Não me levem a mal, eu só queria ficar quieta com minha dor. Não suportava quando vinham me dizer: Não chora, a vida é assim mesmo. Ela descansou! Eu sabia que a vida era assim! Mas, eu queria chorar, desejava desesperadamente, de alguma maneira, aliviar o peito, não apenas o peito, cada átomo do meu ser doía. Lembro-me de que alguém perguntou se eu estava bem. Tirei forças não sei de onde, engoli as lágrimas e para ser educada respondi: Sim, eu estou bem! Ele respondeu: Você não parece estar muito sentida com a perda. Olha, vou dar um conselho para você quando for a um velório. Se tu não tens nada de útil a dizer, cala a tua boca e mostre-se consternado com quem está de luto.

Olhei pela última vez o rosto da minha vô e um rio quente e salgado desceu pelos meus olhos. Eu não tive coragem de abraçá-la pela última vez quando a vi deitada na cama respirando pausadamente. Agora ela estava morta! Meu Deus, só então me dei conta, ela não estava dormindo, estava morta! Saí da casa. Estava tão cheia de gente, reparei ao sair me batendo nas pessoas. Nem prestava atenção em quem eram, meus olhos estavam marejados demais; meu coração doía demais; minha mente vagueava demais para me apegar a certos detalhes. Veio então o pior momento. Era a hora do enterro, fecharam o caixão.

Em meio a essa turbulência toda uma amiga especial fez algo inesperado e me ajudou muito nesse momento tão obscuro. A Lívia tinha muito medo de funeral, nunca passava em frente a uma casa onde se tinha uma coroa de flores pendurada na porta. Nem esperava que ela fosse aparecer. Fiquei embaixo de uma árvore na frente da casa quando senti uns braços pequenos me apertarem forte, muito forte por trás, nem olhei para ver quem era, eu já conhecia aqueles pequeninos braços. Era a Lívia! Ela não falou nada, nem mesmo quando precisou me segurar, algumas vezes minhas pernas cambalearam. O silêncio dela me disse tantas coisas.

Pareceu levar uma eternidade para percorrermos o caminho que levava ao cemitério naquele fim de tarde. Os homens carregavam o caixão. No povoado de Almas é tradição os amigos fazerem isso. O carro da funerária acompanhava tocando uma marcha fúnebre. Maldita marcha fúnebre! Danem-se todas as marcas fúnebres! Eu queria que parassem de tocar a porcaria daquela música; eu queria que cessassem todas aquelas súplicas, eu queria o silêncio do lado de fora, porque por dentro o barulho estava ensurdecedor; eu só queria caminhar em paz com as minhas memórias. A tarde se findava com um tom de gris. O sol se pôs em tons mais alaranjados, vermelho escuro e cinza, senti como se o céu estivesse consternado, como se entendesse o que eu sentia.

 A manhã do dia quatro de setembro de dois mil e dezesseis, tinha tudo para ser mais um dia de trabalho normal mas, o estranho silêncio que tomava todo o lugar foi interrompido por meu celular tocando. Foi então que ouvi aquela frase: Tua vó Deja morreu! Eu me recusei a acreditar, tinha falado com ela antes de dormir e ela estava tão bem, tão contente. Fiquei um tempo sentada na cama tentando me convencer de que era verdade, e que ela havia mesmo sofrido um enfarto.

Eu olhei para ela naquele caixão, sem brincos, sem anéis nem batom, as unhas sem pintar, pensei comigo: Ela não ia gostar de se ver assim. Estava sempre tão arrumada. Quando íamos sair ela dizia:  Nada de sair feia, vamos colocar umas coisinhas, ninguém sai comigo desarrumada. Ela também não iria gostar daquele cheiro de flores mortas, preferia mesmo era um bom perfume. Estava tão dura, mas parecia sorrir, ou talvez eu só estivesse projetando a imagem de como gostava de vê-la.

Todo aquele ritual novamente, dessa vez sem marcha fúnebre. Eu disse sem arrodeio: Deixem minha dor em paz. Não deixei aquelas “rasga mortalha[1]” cantarem nada. E fui de novo fazendo o mesmo caminho, mas dessa vez, eu fui conversando com a minha dor: É estranho, mas estou aqui outra vez me arrastando, carregando você, é mais uma saudade que vou levando, nunca vou me acostumar com isso. Olhei para o céu e ele estava novamente se pondo alaranjado, vermelho escuro e cinza; consternado, tranquilo e triste. Até os dias de hoje, para mim, o pôr do sol traz um pouco de saudade, tem tons de despedida. O sol foi embora como elas, naqueles dias em meu coração ficaram apenas os crepúsculos.

[1] Ave de rapina noturna que tem seu canto considerado como agouro.

 

Mary Almeida

Quatro poemas de Rupi Kaur

tentar me convencer
de que tenho permissão
para ocupar espaço
é como escrever com
o punho esquerdo
quando nasci
para usar meu direito
 
- a ideia de encolher é hereditária

 

é a sua voz
que me despe

 

riachos correm da minha boca
lágrimas que meus olhos não carregam

 

nossas costas
contam histórias
que a lombada
de nenhum livro
pode carregar
 
- mulheres de cor

 

Rupi Kaur (Outros jeitos de usar a boca, Planeta, 2017)

 

Ai, palavras, ai palavras,

Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil como o vidro
e mais que o são poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…

Cecília Meireles

… tornar-se um ser humano

De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé – muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo – em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre.

A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.

Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, Rocco, 1998.

Solo un destino poseo

Solo un destino poseo.
(Y la sospecha
de que resbala de mis manos
sin poderlo reclamar)

Solo una contracción espiritual
ante un espejo que nada dice.
(Y la certidumbre
de que la araña existe
a pesar de su belleza inútil)

Unas manos precursoras,
unos ojos temerosos de la noche
y unas cuantas vidas aplazadas
tan sólo poseo.

 

Só um destino possuo

Só um destino possuo
(E a suspeita
de que escorre de minhas mãos
sem poder reclamá-lo)

Só uma contração espiritual
frente a um espelho que nada diz.
(E a certeza
de que a aranha existe
apesar de sua beleza inútil)

Umas mãos precursoras,
uns olhos temerosos com a noite
e algumas vidas suspensas
tão somente possuo.

 

Irina Henríquez (A riesgo de caer, 2012, Ediciones Carazón de mango)
Tradução livre: Lílian Almeida

 

Natal na barca

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.

— Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.

— Quente?

— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:

— Mas a senhora mora aqui perto?

— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

— Seu filho?

— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.

— É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

— E esse? Que idade tem?

— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

— Seu marido está à sua espera?

— Meu marido me abandonou.

Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

— Há muito tempo? Que seu marido…

— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

— A senhora é conformada.

— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

— Deus — repeti vagamente.

— A senhora não acredita em Deus?

— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…

Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:

— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim

— Estamos chegando — anunciou.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

– Chegamos!… Ei! chegamos!

Aproximei-me evitando encará-la.

— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

— Acordou?!

Ela sorriu:

— Veja…

Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E  pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.

 

Lygia Fagundes Telles