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Solo un destino poseo

Solo un destino poseo.
(Y la sospecha
de que resbala de mis manos
sin poderlo reclamar)

Solo una contracción espiritual
ante un espejo que nada dice.
(Y la certidumbre
de que la araña existe
a pesar de su belleza inútil)

Unas manos precursoras,
unos ojos temerosos de la noche
y unas cuantas vidas aplazadas
tan sólo poseo.

 

Só um destino possuo

Só um destino possuo
(E a suspeita
de que escorre de minhas mãos
sem poder reclamá-lo)

Só uma contração espiritual
frente a um espelho que nada diz.
(E a certeza
de que a aranha existe
apesar de sua beleza inútil)

Umas mãos precursoras,
uns olhos temerosos com a noite
e algumas vidas suspensas
tão somente possuo.

 

Irina Henríquez (A riesgo de caer, 2012, Ediciones Carazón de mango)
Tradução livre: Lílian Almeida

 

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Natal na barca

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.

— Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.

— Quente?

— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:

— Mas a senhora mora aqui perto?

— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

— Seu filho?

— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.

— É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

— E esse? Que idade tem?

— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

— Seu marido está à sua espera?

— Meu marido me abandonou.

Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

— Há muito tempo? Que seu marido…

— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

— A senhora é conformada.

— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

— Deus — repeti vagamente.

— A senhora não acredita em Deus?

— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…

Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:

— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim

— Estamos chegando — anunciou.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

– Chegamos!… Ei! chegamos!

Aproximei-me evitando encará-la.

— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

— Acordou?!

Ela sorriu:

— Veja…

Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E  pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.

 

Lygia Fagundes Telles

 

O cercado

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe

feito pelas tuas mãos

e fios do teu cabelo

cortado na lua cheia

guardado do cacimbo

no cesto trançado das coisas da avó

 

Onde está a panela do provérbio, mãe

a das três pernas

e asa partida

que me destes antes das chuvas grandes

no dia do noivado

 

De que cor era a minha voz, mãe

quando anunciava a manhã junto à cascata

e descia devagarinho pelos dias

 

Onde está o tempo prometido p’ra viver, mãe

se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera

p’ra lá do cercado

 

Ana Paula Tavares (Do livro Amargo como os frutos)

 

XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas – 4

Finalizando a partilha da poesia que encontrei no XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas, em Cereté, Colômbia, compartilhando um pouco da arte da poeta colombiana Yirama Castaño Güiza.

El silencio de los bosques

A lo lejos,
un pájaro canta
en honor del Dios de los árboles.
Nadie, entre aquellos que conversan,
se ha dado cuenta de la mudez
que mueve sus alas.


O silêncio dos bosques

Ao longe,
canta um pássaro
em honra ao Deus das árvores.
Ninguém, entre aqueles que falam,
se deu conta da mudez
que move suas asas.


Un parque natural

En ese extraño lugar
cada día tiene una única palabra,
cada sombra busca su destino
cada boca pronuncia una oración
cada animal entierra bajo la luna su propia piel
cada hombre prolonga la mano a su manera
    y dibuja líneas blancas en la selva. 
En ese maravilloso lugar
cada flor es primavera
cada sonido es un pájaro
y los pequeños aprendices
dan vuelta a la memoria
raspan olvidos,
anudan el hilo
y cortan el tiempo
     con sus dientes.


Um parque natural

Nesse estranho lugar
cada dia tem uma palavra única,
cada sombra procura seu destino
cada boca pronuncia uma prece
cada animal enterra sob a lua a própria pele
cada homem estende a mão a sua maneira
    e desenha brancas linhas na selva.
Nesse maravilhoso lugar
cada flor é primavera
cada sonoridade é um pássaro
E os pequenos aprendizes
enovelam a memória
alisam esquecimentos,
amarram o fio
e cortam o tempo
     com seus dentes.


Poemas: Yirama Castaño Güiza
Tradução de Marcia Pfleger

 

Al aire libro_2017

Imagem cedida pela poeta

Yirama Castaño Güiza nasceu em Socorro, Santander – Colômbia. É jornalista e editora. Participou da criação e fundação da Revista e da Fundación Común Presencia. Faz parte da assessoria do Encuentro Internacional de Mujeres Poetas de Cereté, Córdoba. Seus poemas são traduzidos e publicados na Colômbia e no exterior. Participou de importantes festivais de poesia na Colômbia e em encontros internacionais de escritores. Livros publicados: Naufragio de luna, 1990; Jardín de sombras, 1994; El sueño de la  otra, 1997; Memoria de aprendiz, 2011; Malabar en el Abismo (antología), 2012; Poemas de Amor (Yirama Castaño, Josefa Parra), 2016; Corps avant l´oubli, Cuerpos Antes del Olvido (Yirama Castaño, Stéphane Chaumet e Aleyda Quevedo), 2016; Antología Poética Ventre de Lumiére, Vientres de Luz, 2017, Queda la Palabra Yo, Antología de poetas colombianas actuales, seleção Verónica Aranda, Ana Martín Puigpelat.

 

 

XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas – 3

Dando continuidade à partilha de um fragmento da poesia que colhi no XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas, em Cereté, Colômbia, apresento a poeta francesa Ada Mondès e seu poema Errâncias.

Errances

 

Là où les Hommes oublient d'aller
les montagnes sont criblées de fleurs et de trous de serrures
orbites creuses de géants
bouche de la fée pétrifiée dans le sel
des enfants d'argile
des galeries pour l'âme

Si je marche là-bas
ma clé imaginaire m'ouvre toutes les portes
les sanctuaires dans la roche

La poésie toujours a sa demeure dans le ventre des montagnes
là où toutes les pierres ont un visage

 

Errancias

 

Donde los Hombres olviden ir
las montañas están acribilladas de flores y de ojos de cerraduras
órbitas huecas de gigantes
boca del hada petrificada en la sal
niños de arcilla
galerías para el alma

Si camino allí
mi llave imaginaria me abre todas las puertas
los santuarios en la roca

La poesía siempre tiene su hogar en el vientre de las montañas
dónde todas las piedras tienen un rostro

 

Errâncias

 

Onde os Homens se esquecem de ir
as montanhas estão cravadas de flores e buracos de fechadura
órbitas ocas de gigantes
boca de fada petrificada de sal
crianças de argila
subterrêneos para a alma

Se caminho por aí
minha chave imaginária abre todas as portas
os santuários na rocha

A poesia sempre tem seu lugar no ventre das montanhas
onde todas as pedras têm rosto


Poemas: Ada Mondès
Tradução: Lílian Almeida
Revisão: Ada Mondès e Lílian Almeida

 

Ada

Imagem disponibilizada pela poeta.

 

Ada Mondès nasceu em  Hyères (França) em 1990. Seguiu diferentes caminhos para explorar varios campos artísticos: cinema e teatro, dança, canto, música e escrita. Estudou idiomas e literaturas estrangeiras e suas experiências a tem levado a uma vida nômade, acompanhada de poesia. Publicado pelas Ediciones Villa-Cisneros (2017), Les Témoins – Los Testigos é o seu primeiro livro de poemas, em edição bilíngue (francês- español) cuja tradução é dela mesma. Participou do Festival internacional de poesia de Camps-la-Source (Francia) em abril 2017, do Festival internacional de poesía de Guayaquil Ileana Espinel Cedeño (julho/ 2017) no Equador, do Encontro internacional de mulheres poetas de Cereté (novembro/ 2017) na Colômbia e é convidada da Feira do livro de Havana em Cuba (fevereiro/ 2018). Ada Mondès está instalada agora em Quito (Equador), onde escreve em espanhol e traduz-se para o francês.

XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas – 2

Dando seguimento à partilha de um fragmento da produção de mulheres que conheci no XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas, em Cereté, Colômbia, trago a espanhola Jèssica Pujol Duran com uma parte do poema longo que constitui o livro Entrar es tan difícil salir.

 

Jèssica Pujol Duran

 

divisiones abstractas
consecuencias reales
       sangre
animales que cazan
índices que escogen
       las imágenes
       que silencian
       la catástrofe
       se pa rán do nos
de lo primero           
       que nunca fue
de tu cuerpo 
que nunca

divisões abstratas
consequências reais
       sangue
animais que caçam
índices que escolhem
       as imagens
       que silenciam
       a catástrofe
       nos se pa ran do
do primeiro  
       que nunca foi
do teu corpo
que nunca



       puertas giratorias
dentrodelcentro
       ventanasenventa
       todo es posible
en temporada equivocada
comprar es pretérito
       el futuro un probador
       la fe un andamio de espejos


       portas giratórias
dentrodocentro
       janelasemvenda
       tudo é possível
na temporada equivocada
comprar é pretérito
      o futuro um provador
      a fé um andaime de espelhos


Poema: Jèssica Pujol Duran (Do livro Entrar es tan difícil salir)
Tradução: Virna Teixeira

Jèssica Pujol Duran é poeta, investigadora e tradutora. Escreve e traduz em catalão, inglês e espanhol. Publicou três livros: Now worry (Department, 2012), em inglês, El país pintat (El pont del petroli, 2015), em catalão e Entrar es tan difícil salir (Veer Books, 2016) em espanhol com tradução para o inglês de William Rowe. Foi poeta residente na Universidade de Surrey (2013-2014). Dirige a revista de poesia latinoamericana traduzida Alba Londres e atualmente desenvolve um projeto de pós-doutorado na Universidade de Santiago do Chile.

XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas

Aconteceu entre os dias 1 e 5 de novembro de 2017 o XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas, em Cereté, Colômbia. Fui convidada a participar do evento enquanto representante do Brasil.

Os cinco dias em Cereté, município de Córdoba, foram de grandiosos contatos estéticos, culturais, humanos, proporcionados pelo Encuentro, sob  a organização de Lena Reza García, e pelo acolhimento dos Ángeles Clandestinos (equipe de apoio do evento) e demais colombianos/as.

Uma experiência singular de contato com dezenas de escritoras de diferentes partes do mundo (Colômbia, Cuba, Espanha, França, Honduras, Noruega e Uruguai) e de vivência poética em cada recital, visita a escolas, bibliotecas, espaços culturais. De interação real e intensa, especialmente com as crianças e seu olhar para o mundo cheio de desejos de futuros poéticos.

Viver o XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas em Cereté foi experienciar um universo paralelo na ordem dos meus dias, entre sentir e viver a poesia através de cada atividade programada e trabalhar, à distância, nos meus fazeres de docente do ensino superior. Cinco dias em suspensão, imersa na potência de vida que a poesia é capaz criar.

É importante, todavia, assinalar que, a ponte cruzada por mim até a Colômbia, foi tecida por palavras e fazeres de pessoas que me antecederam e que são estimadas por mim e pelos que encontrei na Colômbia: Damário Dacruz, João Vanderlei de Moraes Filho, Clarissa Macedo. O meu muito obrigada por terem ido na frente, abrindo os caminhos.

Partilho, a partir de então, um fragmento da literatura de algumas mulheres que encontrei por lá.

Ketty Blanco

 

Cosmos

El gorrión había muerto.
Encontró la nostalgia.
Yo no pude.


Cosmos

O pardal estava morto.
Encontrou a nostalgia.
Eu não pude.



Nunca podré crear

                                   Excepto quizás una vida más larga/ para
                                                 encontrar nuevas excusas.
                                                          Charles Bukowski

Escribiré solo cuando tenga la habitación propicia.
O propia. Ahora es impossible. Duermo en la sala.
Dos viejas senhoras llegan todos los días
a coserse con mi madre,
y yo debo apurarme para desayunar, pues la mesa
se ocupará con telas y carretes. Pero me digo que
si no escribo ahora, si no soy capaz de encerrarme
debajo del sofá, gruñendo como un perro
mientras las voces de las senhoras golpean
con saña mis oídos,
perderé definitivamente el apetito.


Nunca poderei criar

Escreverei somente quando tiver o espaço ideal.
Ou próprio. Agora é impossível. Durmo na sala.
Duas velhas senhoras chegam todos os dias
a costurar-se com minha mãe,
e eu devo apressar-me no café da manhã, pois a mesa
será ocupada com tecidos e tubos de linha. Mas digo para mim que
se não escrevo agora, se não sou capaz de esconder-me
debaixo do sofá, grunhindo como um cão
enquanto as vozes das senhoras golpeiam
com furor meus ouvidos,
perderei definitivamente o apetite.


Poemas: Ketty Blanco (Do livro Quién anda ahí)
Tradução: Lílian Almeida
Revisão: Lílian Almeida/ Ketty Blanco

Ketty Blanco é poetisa e narradora. Licenciada em Ciências da religião pelo ISECRE (Havana, 2012). Obteve, entre outros prêmios,  prêmio de poesia no concurso nacional “El Camello Rojo” – Havana, 2006; prêmio no concurso nacional de poesia “Regino Pedroso” – Havana, 2009; prêmio no concurso nacional de conto “Ernest Hemingway” – Havana, 2010; prêmio de poesia “Portus Patris” – Puerto Padre, 2016; prêmio no concurso internacional de poesia “Abriendo Puertas” – Guantánamo, 2016. Seus textos têm sido publicados em revistas e antologias dentro e fora de Cuba.