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Três poemas de “Um girassol nos teus cabelos” – poemas para Marielle Franco

Março desaba sobre nós – golpe de chuva
que encerra outro verão de sonho e fúria.

Carregaremos março em nossa voz,
com seu peso de luto e armadilha,
com seu signo de fogo e súcia.

Diapasão que desregula toda música,
essa dor que nos lega teu silêncio sentencia
que abril não chegue nunca.

Provisoriamente, Carlos, não cantaremos o amor.

Entregues ao pasmo desse mês suspenso,
cantaremos março – e esse calendário
que arde em sangue.


Entregues à revolta desse mês suspenso,
cantaremos março – e os oito tiros
que atravessaram a noite.

E no estribilho da canção presente, o teu nome.

Kátia Borges

 

era noite, dia
da poesia. morri
também. bem sei,
tudo vai mal, estamos
morrendo mais
rapidamente, desde os 17
de abril de 16, desde
06 de fevereiro de 15, desde
28 de junho de 69, desde
01 de abril de 64, morremos sim, não
há alma que aguente 4
tiros na cabeça, quase 40
dias de intervenção militar, 400
humilhações diárias, 4000
beliscadas na veia
do coração, a velha
morte bem instalada no meio
dos caminhos blues. o choque. tudo
em volta está deserto. era noite, dia
da poesia. morri
também, marielle, mais
uma vez, mas, na manhã
seguinte, abri os olhos e você,
não. tudo certo, 2 e 2
são 5 e seguimos assim, cheios
de morte dentro. nesses eternos dias
de lutoA

Karina Rabinovitz

 

|ella|

queda a tarde no horizonte
franca
mente

memória sangra
sempre
viva

ao ponte
nunca velho
escrevo

é hoje:
do luto troco apenas uma letr’;
      a

Andréa Mascarenhas

 

Poemas do livro Um girassol nos seus cabelos: poemas para Marielle Franco (Quintal Edições, 2018. Mulherio das letras)

 

 

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O mosaico poético de Ana Valéria Fink

A ÁGUA DA PIA

a água da pia,
em círculo
vai pelo ralo.
e eu não tenho a tampa...
assim, a vida.
passando, correndo,
voando, escoando
depressa, sem que
nada a detenha.
a vida, líquida,
escoando pelo ralo.
e eu não tenho a tampa...

 

FRAGMENTOS

meu coração bate em peitos outros
e o líquido das veias,
já extremamente fluido,
é água destilada.
vou me diluindo pelo mundo.
não sei me guardar,
o turbilhão de afeições me arrasta,
e vou inteira.
não tenho nada,
me dividi,
e meus pedaços se perderam
por entre as dobras da vida.
sou um mosaico,
formado de estilhaços
dos que também se despedaçam
no caminho.

 

DESERTA

sou um torrão
gretado
seco
sozinho.
não quero vento
pra me repartir em poeira
nem água
pra me distribuir em lama.
quero estar como sou
mesmo árida
deserta.

 

EM CLARO

queria fazer nessa insônia
poesia
mas ela dorme
e sonha pesadamente.

Ana Valéria Fink (Mosaico, Marianas Edições, 2018)

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A reza

Quem tem fé vai a pé. O homem lá de casa começou com espalha pé, sua voz trovejou, dizendo para eu me recolher da intenção de ir à reza. Eu disse: É… Pois vamos ver. Peguei as contas a pagar, todas, estavam caladas na gaveta procurando ocasião de ser avistada por ele. O homem silenciou a voz, calou os pés, amansou o pensamento. Ficou num canto deslembrado da vida. Fui andando, duas léguas de distância a casa de Dona Jesuína, rezei com fé, depois o samba. Meu corpo ganhou molejo desassombrando os tormentos. Minha fé nunca falhou, a porca pariu, vendi por dois trocados, paguei as contas. Depois disso a voz do homem voltou um pedaço, era só chuvisco, a voz de trovão sumiu no meio das dívidas.

 

Aidil Araújo Lima (Mulheres sagradas, Portuário Atelier Editorial, 2017)

Por do sol

Outra vez eu estava fazendo aquele mesmo caminho, trocando passos devagar. As pernas estavam tão pesadas, não é fácil tentar carregar o peso da alma. É muito estranho estar cercada de pessoas e sentir-se imersa na solidão, mas dessa vez, de alguma forma, eu fui conversando com aquela dor. É que não foi a primeira vez que nos encontrávamos. Aquela manhã despertou nublada, mesmo sendo um dia de sol. Acordei com um silêncio reverencioso como se o amanhecer soubesse o que estava por vir. A triste surpresa da notícia: Tua vó Deja morreu!

Parecia estar se repetindo a história de quando minha vó Martinha, meu sol, se pôs. Era manhã do dia vinte e quatro de novembro de dois mil e cinco. Eu estranhei a tranquilidade, na minha casa os cafés da manhã significavam barulhos, conversas e risos, mas naquele dia a intrigante calma foi interrompida pela voz de minha mãe dizendo: Levanta para ver sua vó antes dela morrer. Meu corpo estremeceu inteiro, minha vó era muito mais que uma vó, era minha mamãe, meu porto seguro, meu exemplo de ser humano e de mulher.

Me senti arrastada por um turbilhão de emoções inexplicáveis, diante do desalento que sobreveio a mim. Levantei estonteada, a todo momento minha mente era invadida pelas lembranças de momentos que tínhamos vivido. Eram tantos abraços, estórias, risos, canções, cheiros, sabores e memórias; eu nem sabia que podia guardar todas essas recordações. E assim, oscilando momentos de lucidez e de divagações, fui até a casa de minha vó, entrei no quarto, e a vi indo embora, respirando cada vez mais lentamente. Saí de lá correndo, chorando, me recusando a acreditar que estava perdendo minha mãe.

Eu olhava para ela inerte no caixão, sem aquele costumeiro sorriso, custava a acreditar; ela parecia estar dormindo como sempre fazia na sesta que tirava depois do almoço. Não suportava aquele murmurinho e os risinhos das pessoas tomando chá e cafezinho com biscoitos como se nada tivesse acontecendo. Bando de abutres! Tem pessoas que vão para velórios sem nenhuma preocupação ou respeito pela luto dos outros, vão para rever os velhos amigos e conversar. Notei que costumam visitar mais os mortos do que os vivos. Apareceu gente que eu nunca tinha visto visitá-la enquanto estava viva. Monte de urubus!

Não me levem a mal, eu só queria ficar quieta com minha dor. Não suportava quando vinham me dizer: Não chora, a vida é assim mesmo. Ela descansou! Eu sabia que a vida era assim! Mas, eu queria chorar, desejava desesperadamente, de alguma maneira, aliviar o peito, não apenas o peito, cada átomo do meu ser doía. Lembro-me de que alguém perguntou se eu estava bem. Tirei forças não sei de onde, engoli as lágrimas e para ser educada respondi: Sim, eu estou bem! Ele respondeu: Você não parece estar muito sentida com a perda. Olha, vou dar um conselho para você quando for a um velório. Se tu não tens nada de útil a dizer, cala a tua boca e mostre-se consternado com quem está de luto.

Olhei pela última vez o rosto da minha vô e um rio quente e salgado desceu pelos meus olhos. Eu não tive coragem de abraçá-la pela última vez quando a vi deitada na cama respirando pausadamente. Agora ela estava morta! Meu Deus, só então me dei conta, ela não estava dormindo, estava morta! Saí da casa. Estava tão cheia de gente, reparei ao sair me batendo nas pessoas. Nem prestava atenção em quem eram, meus olhos estavam marejados demais; meu coração doía demais; minha mente vagueava demais para me apegar a certos detalhes. Veio então o pior momento. Era a hora do enterro, fecharam o caixão.

Em meio a essa turbulência toda uma amiga especial fez algo inesperado e me ajudou muito nesse momento tão obscuro. A Lívia tinha muito medo de funeral, nunca passava em frente a uma casa onde se tinha uma coroa de flores pendurada na porta. Nem esperava que ela fosse aparecer. Fiquei embaixo de uma árvore na frente da casa quando senti uns braços pequenos me apertarem forte, muito forte por trás, nem olhei para ver quem era, eu já conhecia aqueles pequeninos braços. Era a Lívia! Ela não falou nada, nem mesmo quando precisou me segurar, algumas vezes minhas pernas cambalearam. O silêncio dela me disse tantas coisas.

Pareceu levar uma eternidade para percorrermos o caminho que levava ao cemitério naquele fim de tarde. Os homens carregavam o caixão. No povoado de Almas é tradição os amigos fazerem isso. O carro da funerária acompanhava tocando uma marcha fúnebre. Maldita marcha fúnebre! Danem-se todas as marcas fúnebres! Eu queria que parassem de tocar a porcaria daquela música; eu queria que cessassem todas aquelas súplicas, eu queria o silêncio do lado de fora, porque por dentro o barulho estava ensurdecedor; eu só queria caminhar em paz com as minhas memórias. A tarde se findava com um tom de gris. O sol se pôs em tons mais alaranjados, vermelho escuro e cinza, senti como se o céu estivesse consternado, como se entendesse o que eu sentia.

 A manhã do dia quatro de setembro de dois mil e dezesseis, tinha tudo para ser mais um dia de trabalho normal mas, o estranho silêncio que tomava todo o lugar foi interrompido por meu celular tocando. Foi então que ouvi aquela frase: Tua vó Deja morreu! Eu me recusei a acreditar, tinha falado com ela antes de dormir e ela estava tão bem, tão contente. Fiquei um tempo sentada na cama tentando me convencer de que era verdade, e que ela havia mesmo sofrido um enfarto.

Eu olhei para ela naquele caixão, sem brincos, sem anéis nem batom, as unhas sem pintar, pensei comigo: Ela não ia gostar de se ver assim. Estava sempre tão arrumada. Quando íamos sair ela dizia:  Nada de sair feia, vamos colocar umas coisinhas, ninguém sai comigo desarrumada. Ela também não iria gostar daquele cheiro de flores mortas, preferia mesmo era um bom perfume. Estava tão dura, mas parecia sorrir, ou talvez eu só estivesse projetando a imagem de como gostava de vê-la.

Todo aquele ritual novamente, dessa vez sem marcha fúnebre. Eu disse sem arrodeio: Deixem minha dor em paz. Não deixei aquelas “rasga mortalha[1]” cantarem nada. E fui de novo fazendo o mesmo caminho, mas dessa vez, eu fui conversando com a minha dor: É estranho, mas estou aqui outra vez me arrastando, carregando você, é mais uma saudade que vou levando, nunca vou me acostumar com isso. Olhei para o céu e ele estava novamente se pondo alaranjado, vermelho escuro e cinza; consternado, tranquilo e triste. Até os dias de hoje, para mim, o pôr do sol traz um pouco de saudade, tem tons de despedida. O sol foi embora como elas, naqueles dias em meu coração ficaram apenas os crepúsculos.

[1] Ave de rapina noturna que tem seu canto considerado como agouro.

 

Mary Almeida

Quatro poemas de Rupi Kaur

tentar me convencer
de que tenho permissão
para ocupar espaço
é como escrever com
o punho esquerdo
quando nasci
para usar meu direito
 
- a ideia de encolher é hereditária

 

é a sua voz
que me despe

 

riachos correm da minha boca
lágrimas que meus olhos não carregam

 

nossas costas
contam histórias
que a lombada
de nenhum livro
pode carregar
 
- mulheres de cor

 

Rupi Kaur (Outros jeitos de usar a boca, Planeta, 2017)

 

Ai, palavras, ai palavras,

Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil como o vidro
e mais que o são poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…

Cecília Meireles

… tornar-se um ser humano

De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé – muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo – em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre.

A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.

Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, Rocco, 1998.