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Ricardo Nonato e o seu Cântico de Quitéria

Maria Quitéria

Foi ontem.

Naquela farda
Mora uma mulher
De cabelos tosados
E palpita um corpo
De divisas batalhas.

Atrás da mira,
Olhos agudos
Dizem fogo

E nenhuma mão
Tateia seu corpo
Só pólvoras,
Estilhaços
E sangue.

Na linha de resistência
Quitéria enxuga suas
Dúvidas.

 

A espera

Meu silêncio é sólido.
Pedra que se assenta
Neste barulho de mundo.

Pedra acariciada
Até o corte
Sangue sabor
E meu grito surdo.

 

Escolhos

Essa não é a minha guerra,
Meus emblemas não são estes.
Todo ideal de liberdade que defendo
Monta-se distante.

Sou aqui, corpo
No desvendar de mim mesma
Em cada abraço de fogo.

Nos escombros sou o resto
E procuro
Amontoada sobrevivente de mim.

 

Criação III

Antes do mundo
Não havia o medo
Não havia a morte
Não havia nada.

Deus, então, fez o caos.

 

Ricardo Nonato

(Cântico de Quitéria: ainda em guerra, edição cartonera Pé de Letra)

 

 

 

 

Os labirintos de Érica Azevedo

Labirintos/ Fado ou fato

No centro do labirinto
a vida pulsa.

Perdemos tempo
procurando uma saída.

 

O poeta e o labirinto

O poeta não está morto.
Apenas agoniza no labirinto
                  da linguagem
buscando decifrar
sua própria face.

A cada verso encontrado
um enigma se refaz.

 

Alucinação

Vejo tua voz como mar.
Sinto teu cheiro como chuva.
Imagino teu corpo lua.

Penso teu rosto
em meu sorriso
e me vejo inundada,
louca,
leve,
chuva.
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Foto: Lílian Almeida

Érica Azevedo (A chuva e o labirinto: Mondrongo, 2017)

Chegando pelos dias uma dança entre palavras e fotografias

Está se fazendo por sobre os futuros a chegada de Profundanças 2: antologia literária e fotográfica, organizada pela escritora Daniela Galdino. Trata-se  da segunda edição de um projeto que reúne duas artes: a literatura e a fotografia.

Segundo breve texto sobre o projeto no site que o acolhe e à publicação, a ser lançada virtualmente no dia 06/07/2017, “Profundanças 2: antologia literária e fotográfica” reúne, em sua maioria, autoras inéditas, há também aquelas que já publicaram livro autoral. Essa antologia integra um amplo projeto de difusão literária e se soma ao primeiro volume, lançado em 2014. A intencionalidade do projeto é conferir visibilidade às produções que encenam formas sensíveis e dissidentes de autorrepresentação. O livro é resultado de uma ação colaborativa e sem fins lucrativos, portanto, ficará disponível para download gratuito por tempo indeterminado” na página da Voo Audiovisual.

Para fomentar a divulgação e dar uma pequena amostra da pujança e beleza trançadas nas páginas de Profundanças 2, foram publicados pequenos vídeos nos quais as autoras integrantes da antologia respondem à pergunta: por que você escreve literatura? A resposta delas você confere na página de Profundanças no Facebook.

Transcrevo abaixo a minha resposta. Você pode vê-la no formato vídeo também no Facebook de Profundanças.

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Foto: Pricilla Andrade

Desenho letras no papel
como quem esboça alvoreceres de manhãs
                                       possíveis.
Escrevo dores, amores e amarguras.
Invento vidas!
               E esperanço auroras violetas.

Acredito no humano e na força que as palavras têm
de descobrir
             no fundo de quem
a porção de humanidade melhor que há.

Desimportante ofício de casamentar
versos e tramas.
Desigual impressão sobre a marca
                                  indelével
da mão de mulher que preenche a folha.
Clareza.

Invento amanhãs.
Há soluços, lágrimas e riso
na cara feia do agora.
Os meus esquadros estão partidos.

Papel e lápis.
Astuciar palavras, ideias, enredos.
Enquanto viver é difícil
invento existires.
                   Por isso escrevo.

Lílian Almeida

Rotina

Primeiro alarme. Levantar. O black amassado no espelho. Os olhos resistiam a acordar. Eliminou da bexiga o acúmulo da noite. Sentada no trono cochilava uma despedida de Morfeu. O relógio marcava, inconteste, as horas no sem tempo. A água fria no rosto ajudava a começar o dia.

A moringa de água fresca esperando para tocar o vidro do copo em cima da pia da cozinha. O gesto igual todos os dias. Um copo. Dois. Acordar por dentro pra ver se por fora também acontece. A água desce lavando o dentro, ela se encaminha para lavar por fora.

O banho quente, a pasta cuspida no chão. No chão, a água encaminha tudo para onde. Dejeto, descarte, depósito. Toalha, desodorante, calcinha, soutien. Aproveita a umidade do cabelo e acrescenta um pouco de creme. Dá forma e arruma. A melhor coisa que fiz foi deixar você ser o que é, não foi? Amassa a cabeleira e arremessa um beijo ao espelho.

Limpeza parte dois. Higiene da cabeça. Ora pra Buda. Canta uma ladainha pros ancestrais. Medita para o vento. Manter a mente quieta e o coração tranquilo. Desistiu da coluna ereta, a escoliose impossibilitava. A turma do invisível sabia que só tinha quinze minutos para tudo isso.

Inspiro, expiro. Não seguro os pensamentos. Auto conduzir-se no exercício de aquietar. As tarefas do dia levitando na mente. Deixar passar. Soltar. Sentir o ar entrar e sair. O ar que entra a barriga aumenta. O ar que sai a barriga retrai.

O dia anterior. Procurava a casa da tia da amiga. Próximo do motel. As duas dentro do carro, perdidas no bairro que não sabiam. Sem nome de rua, só o do motel e o residencial ao lado do motel. Como faço para chegar no motel? A cara desconfiada da mulher da banca de revista. Entra ali, dobra à esquerda, segue, vira. A amiga fazia o tipo menos feminino com aquele cabelo joãozinho. Entra, sai, vai, vira, não acha. Como faço para chegar no motel? Agora o vendedor de caldo de cana. O motel? Perguntou com ar de riso. Sonoro e sério sim. A segunda rua à direita. Os vidros subindo, eu séria e ela rindo. A gente devia ir ao motel. Todo esse tempo procurando por ele e nem gozar? Começo de noite, sexta feira, happy hour no motel, sexo. Gargalhei. Meu tesão é por protuberâncias fálicas e linhas retas. Suas curvas não me abalam. Ela gargalhou. Ah, o Tuca aqui. Verdade. Admiti que ele tinha tudo o que um dia a gente quis para uma transa. Depois do motel, primeira à esquerda. O residencial. Um beijo na sua tia e uma esticada até o motel.

Divagação da porra. Voltar, respirar. O ar entra, o ar sai. O alarme toca. Vinte minutos para o ônibus da empresa passar. Adeus ficar zen o dia inteiro. E o pessoal da intuição que me traria para o agora depois de quinze minutos estava atrasado ou com sono. A mesma correria. Calça, blusa, perfume, batom. Calçou os sapatos, pegou a bolsa sempre pronta. Tirou uma pera da fruteira, enrolou no guardanapo e colocou na bolsa. Café agora só na lanchonete do prédio da empresa. Fez um sinal da cruz e atravessou a porta de casa.

Lílian Almeida

Oceano

O mar se deslembra homérico do que passou.
No seu infinito de profundezas
tudo o que do mundo guarda,
é apenas rastro do perdido.

O mar se recaminha todo o tempo,
compulsivo, se busca na senda das ondas.

A areia,
que guarda as lembranças todas
na minúscula caixa de cada grânulo,
tem pena do mar.
Apenas por isto ela dança com suas Águas.
Lívia Natália (Correnteza e outros estudos marinhos, Ogums Toques Negros, 2015)
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Foto: Lílian Almeida

Lisboa, 15 de abril de 1918.

Lisboa, 15 de abril de 1918.

O vento varre as folhas das árvores no calçamento, Lídia. Eu aqui com a tua lembrança mais doce e o espaço curto deste quarto. Nossa última tarde. O teu sorriso depois do amor. O meu olhar esticado até a quina do banheiro, seguindo teu cheiro.

Há folhas e folhas de papel sobre a mesa. As ideias retiraram-se do recinto. Recusam qualquer tentativa minha. Datilografo palavras sem substância. Estou desnutrido de dizeres. Nada há que eu deseje dizer, senão para ti. Diretrizes. Quando estou contigo dou-me todo. Tudo. E fico cheio de algo que não se explica. Cheio a ponto de faltar o que se diga.

Ponho letras a esmo no papel. O som seco das teclas tentam despertar-me da embriaguez. Por que me fazes tão bem, Lídia? Fico assim, entorpecido de você. A fumaça sobe ocupando o volátil espaço do quarto. As pontas do cigarro sobram no cinzeiro. Deixastes o lenço que trazias no pescoço entre os travesseiros. Guardo nele o aroma do teu corpo. Completo novamente a taça de vinho. Entorpeço as folhas na máquina com um olhar duro. A rigidez de um mundo à revelia do sentir. O projeto para os papéis. Inútil. Só vislumbro o seu rosto. As paredes do quarto perderam as arestas, o branco é quase solar. Onde a impessoalidade alva das paredes retas? Para fora da janela, o céu de primavera azul numa Lisboa de construções duras.

Impossível atravessar a bruma de olhos abertos. Largo-me da máquina, dos versos e dos papéis. Cerro a tua lembrança no meu corpo preenchido sobre os lençóis. Amanhã, quiça mais tarde, Lídia, eu terei retinas de não sentir tua presença e dedos de escrever a dureza humana de estar aqui. Hoje não.

Depois, amanhã, hoje, teu Fernando.

Lílian Almeida

Confraria Poética Feminina IV

Estamos chegando ao fim do ciclo de postagens sobre a antologia Confraria Poética Feminina, organizada por Rita Queiroz. Hoje, a organizadora e também autora nesta ciranda de mulheres e versos nos brinda com seus versos e dois dedos de prosa, na companhia da também confreira Ana Carolina Cruz de Souza. Boa leitura!

Rita Queiroz
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Imagem disponível no perfil de Facebook da autora.

Infinitude

O mundo…
pequeno.
A existência…
insuficiente.
O amor..
não cabe no poema.

L. A. – Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora?

Rita Queiroz – O livro Confraria Poética Feminina é minha primeira publicação como poeta. Comecei publicando no Facebook e me senti encorajada a publicar no livro. Além da realização pessoal, representa também uma realização coletiva, já que para muitas autoras é a primeira publicação. Como tudo o que acontece pela primeira vez, este livro já é inesquecível!

Viagem

Na solidão de mim mesma
Vejo todos à minha volta
Sorridentes, à espera…
Da fotografia revelada
Viva, colorida…
A transbordar venturas
A trazer os sonhos de outrora
Infinitos…
Como a vida!


L. A. – Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook?

Rita Queiroz – Minha escrita só tem crescido após a criação do grupo no Facebook. Publicava em minha página pessoal, havia comentários, mas na página do grupo é diferente. Há um incentivo coletivo para que todas publiquem e quando isso ocorre, as sugestões de títulos, as dicas de como melhorar os textos, as análises, só enriquecem a escrita. Além disso, a leitura dos textos das outras confreiras também influencia a minha escrita. Posso dizer que a Confraria foi um divisor de águas para a minha produção.

Lamento poético

Há uma luta inglória
Entre mim e ti
Palavra insana
Que rasga meu peito
Em vão sofrimento
Dilacerando-me a alma
Sem floração no firmamento.

Não há nada.

Só lamento
Dessa labuta
Não haver nem joio nem trigo
Apenas folhas ao vento.
Ana Carolina Cruz de Souza
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Imagem disponível no perfil de Facebook da autora.

Confissão

Guardo a
efemeridade
e a infinitude
da vida.

Sou (i)mortal
Sou humano
Sou poeta.

L. A. – Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora?

Ana Carolina Souza – O livro Confraria Feminina foi um presente especial na minha vida e na minha trajetória como escritora, pois permitiu-me inserção no meio literário, sem contar o aprendizado adquirido acerca do fazer literário e da poesia contemporânea.

Licor da vida

Beber o licor da vida
Provar o sabor.
Experimentar doses
modestas,
timidamente,
ou tragar grandes goles,
embriagar-se.

L. A. – Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook?

Ana Carolina Souza – Antes da página da Confraria, tinha uma escrita contida, muitas vezes engavetada por timidez ou vergonha de divulgá-la. O espaço concedido por Rita Queiroz através da minha integração ao grupo do Face permitiu-me libertar-me dos meus fantasmas, dos meus medos e inseguranças em relação à escrita poética no contato com outras escritoras que, por vezes, apresentavam os mesmos receios que eu e outras que já possuiam uma trajetória maior de escrita, mas que, generosamente, compartilhavam suas experiências no âmbito do fazer literário. Depois da Confraria, o meu estilo de escrita comunga e embaralha-se com o fazer poético de Rita Queiroz, Érica Azevedo, Jacquinha Nogueira, Josy Santos, Marilene Oliveira, Eva Dantas e tantas outras que integram esse espaço de congraçamento poético

Desejos

Que o tempo pare
Que o tempo não dispare
Que o tempo me ampare.

Que o tempo semeie
Que o tempo não vadeie
Que o tempo me norteie.

Que o tempo floresça
Que o tempo não recrudesça
Que o tempo me fortaleça.

Que o tempo frutifique
Que o tempo não gaseifique
Que o tempo me dignifique.

Tempo de produção
Tempo de colheita
Que os dois desaguem
em solo ribeirinho,
irrigado e fértil.