Arquivo de Tag | Literatura baiana

Chegando pelos dias uma dança entre palavras e fotografias

Está se fazendo por sobre os futuros a chegada de Profundanças 2: antologia literária e fotográfica, organizada pela escritora Daniela Galdino. Trata-se  da segunda edição de um projeto que reúne duas artes: a literatura e a fotografia.

Segundo breve texto sobre o projeto no site que o acolhe e à publicação, a ser lançada virtualmente no dia 07/07/2017, “Profundanças 2: antologia literária e fotográfica” reúne, em sua maioria, autoras inéditas, há também aquelas que já publicaram livro autoral. Essa antologia integra um amplo projeto de difusão literária e se soma ao primeiro volume, lançado em 2014. A intencionalidade do projeto é conferir visibilidade às produções que encenam formas sensíveis e dissidentes de autorrepresentação. O livro é resultado de uma ação colaborativa e sem fins lucrativos, portanto, ficará disponível para download gratuito por tempo indeterminado” na página da Voo Audiovisual.

Para fomentar a divulgação e dar uma pequena amostra da pujança e beleza trançadas nas páginas de Profundanças 2, foram publicados pequenos vídeos nos quais as autoras integrantes da antologia respondem à pergunta: por que você escreve literatura? A resposta delas você confere na página de Profundanças no Facebook.

Transcrevo abaixo a minha resposta. Você pode vê-la no formato vídeo também no Facebook de Profundanças.

IMG_20170513_224437

Foto: Pricilla Andrade

Desenho letras no papel
como quem esboça alvoreceres de manhãs
                                       possíveis.
Escrevo dores, amores e amarguras.
Invento vidas!
               E esperanço auroras violetas.

Acredito no humano e na força que as palavras têm
de descobrir
             no fundo de quem
a porção de humanidade melhor que há.

Desimportante ofício de casamentar
versos e tramas.
Desigual impressão sobre a marca
                                  indelével
da mão de mulher que preenche a folha.
Clareza.

Invento amanhãs.
Há soluços, lágrimas e riso
na cara feia do agora.
Os meus esquadros estão partidos.

Papel e lápis.
Astuciar palavras, ideias, enredos.
Enquanto viver é difícil
invento existires.
                   Por isso escrevo.

Lílian Almeida

Rotina

Primeiro alarme. Levantar. O black amassado no espelho. Os olhos resistiam a acordar. Eliminou da bexiga o acúmulo da noite. Sentada no trono cochilava uma despedida de Morfeu. O relógio marcava, inconteste, as horas no sem tempo. A água fria no rosto ajudava a começar o dia.

A moringa de água fresca esperando para tocar o vidro do copo em cima da pia da cozinha. O gesto igual todos os dias. Um copo. Dois. Acordar por dentro pra ver se por fora também acontece. A água desce lavando o dentro, ela se encaminha para lavar por fora.

O banho quente, a pasta cuspida no chão. No chão, a água encaminha tudo para onde. Dejeto, descarte, depósito. Toalha, desodorante, calcinha, soutien. Aproveita a umidade do cabelo e acrescenta um pouco de creme. Dá forma e arruma. A melhor coisa que fiz foi deixar você ser o que é, não foi? Amassa a cabeleira e arremessa um beijo ao espelho.

Limpeza parte dois. Higiene da cabeça. Ora pra Buda. Canta uma ladainha pros ancestrais. Medita para o vento. Manter a mente quieta e o coração tranquilo. Desistiu da coluna ereta, a escoliose impossibilitava. A turma do invisível sabia que só tinha quinze minutos para tudo isso.

Inspiro, expiro. Não seguro os pensamentos. Auto conduzir-se no exercício de aquietar. As tarefas do dia levitando na mente. Deixar passar. Soltar. Sentir o ar entrar e sair. O ar que entra a barriga aumenta. O ar que sai a barriga retrai.

O dia anterior. Procurava a casa da tia da amiga. Próximo do motel. As duas dentro do carro, perdidas no bairro que não sabiam. Sem nome de rua, só o do motel e o residencial ao lado do motel. Como faço para chegar no motel? A cara desconfiada da mulher da banca de revista. Entra ali, dobra à esquerda, segue, vira. A amiga fazia o tipo menos feminino com aquele cabelo joãozinho. Entra, sai, vai, vira, não acha. Como faço para chegar no motel? Agora o vendedor de caldo de cana. O motel? Perguntou com ar de riso. Sonoro e sério sim. A segunda rua à direita. Os vidros subindo, eu séria e ela rindo. A gente devia ir ao motel. Todo esse tempo procurando por ele e nem gozar? Começo de noite, sexta feira, happy hour no motel, sexo. Gargalhei. Meu tesão é por protuberâncias fálicas e linhas retas. Suas curvas não me abalam. Ela gargalhou. Ah, o Tuca aqui. Verdade. Admiti que ele tinha tudo o que um dia a gente quis para uma transa. Depois do motel, primeira à esquerda. O residencial. Um beijo na sua tia e uma esticada até o motel.

Divagação da porra. Voltar, respirar. O ar entra, o ar sai. O alarme toca. Vinte minutos para o ônibus da empresa passar. Adeus ficar zen o dia inteiro. E o pessoal da intuição que me traria para o agora depois de quinze minutos estava atrasado ou com sono. A mesma correria. Calça, blusa, perfume, batom. Calçou os sapatos, pegou a bolsa sempre pronta. Tirou uma pera da fruteira, enrolou no guardanapo e colocou na bolsa. Café agora só na lanchonete do prédio da empresa. Fez um sinal da cruz e atravessou a porta de casa.

Lílian Almeida

Oceano

O mar se deslembra homérico do que passou.
No seu infinito de profundezas
tudo o que do mundo guarda,
é apenas rastro do perdido.

O mar se recaminha todo o tempo,
compulsivo, se busca na senda das ondas.

A areia,
que guarda as lembranças todas
na minúscula caixa de cada grânulo,
tem pena do mar.
Apenas por isto ela dança com suas Águas.
Lívia Natália (Correnteza e outros estudos marinhos, Ogums Toques Negros, 2015)
20150204_114049

Foto: Lílian Almeida

Lisboa, 15 de abril de 1918.

Lisboa, 15 de abril de 1918.

O vento varre as folhas das árvores no calçamento, Lídia. Eu aqui com a tua lembrança mais doce e o espaço curto deste quarto. Nossa última tarde. O teu sorriso depois do amor. O meu olhar esticado até a quina do banheiro, seguindo teu cheiro.

Há folhas e folhas de papel sobre a mesa. As ideias retiraram-se do recinto. Recusam qualquer tentativa minha. Datilografo palavras sem substância. Estou desnutrido de dizeres. Nada há que eu deseje dizer, senão para ti. Diretrizes. Quando estou contigo dou-me todo. Tudo. E fico cheio de algo que não se explica. Cheio a ponto de faltar o que se diga.

Ponho letras a esmo no papel. O som seco das teclas tentam despertar-me da embriaguez. Por que me fazes tão bem, Lídia? Fico assim, entorpecido de você. A fumaça sobe ocupando o volátil espaço do quarto. As pontas do cigarro sobram no cinzeiro. Deixastes o lenço que trazias no pescoço entre os travesseiros. Guardo nele o aroma do teu corpo. Completo novamente a taça de vinho. Entorpeço as folhas na máquina com um olhar duro. A rigidez de um mundo à revelia do sentir. O projeto para os papéis. Inútil. Só vislumbro o seu rosto. As paredes do quarto perderam as arestas, o branco é quase solar. Onde a impessoalidade alva das paredes retas? Para fora da janela, o céu de primavera azul numa Lisboa de construções duras.

Impossível atravessar a bruma de olhos abertos. Largo-me da máquina, dos versos e dos papéis. Cerro a tua lembrança no meu corpo preenchido sobre os lençóis. Amanhã, quiça mais tarde, Lídia, eu terei retinas de não sentir tua presença e dedos de escrever a dureza humana de estar aqui. Hoje não.

Depois, amanhã, hoje, teu Fernando.

Lílian Almeida

Confraria Poética Feminina IV

Estamos chegando ao fim do ciclo de postagens sobre a antologia Confraria Poética Feminina, organizada por Rita Queiroz. Hoje, a organizadora e também autora nesta ciranda de mulheres e versos nos brinda com seus versos e dois dedos de prosa, na companhia da também confreira Ana Carolina Cruz de Souza. Boa leitura!

Rita Queiroz
15171039_10210964414523296_6904487856382622980_n

Imagem disponível no perfil de Facebook da autora.

Infinitude

O mundo…
pequeno.
A existência…
insuficiente.
O amor..
não cabe no poema.

L. A. – Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora?

Rita Queiroz – O livro Confraria Poética Feminina é minha primeira publicação como poeta. Comecei publicando no Facebook e me senti encorajada a publicar no livro. Além da realização pessoal, representa também uma realização coletiva, já que para muitas autoras é a primeira publicação. Como tudo o que acontece pela primeira vez, este livro já é inesquecível!

Viagem

Na solidão de mim mesma
Vejo todos à minha volta
Sorridentes, à espera…
Da fotografia revelada
Viva, colorida…
A transbordar venturas
A trazer os sonhos de outrora
Infinitos…
Como a vida!


L. A. – Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook?

Rita Queiroz – Minha escrita só tem crescido após a criação do grupo no Facebook. Publicava em minha página pessoal, havia comentários, mas na página do grupo é diferente. Há um incentivo coletivo para que todas publiquem e quando isso ocorre, as sugestões de títulos, as dicas de como melhorar os textos, as análises, só enriquecem a escrita. Além disso, a leitura dos textos das outras confreiras também influencia a minha escrita. Posso dizer que a Confraria foi um divisor de águas para a minha produção.

Lamento poético

Há uma luta inglória
Entre mim e ti
Palavra insana
Que rasga meu peito
Em vão sofrimento
Dilacerando-me a alma
Sem floração no firmamento.

Não há nada.

Só lamento
Dessa labuta
Não haver nem joio nem trigo
Apenas folhas ao vento.
Ana Carolina Cruz de Souza
15823593_1353776964696974_8132577471745403999_n

Imagem disponível no perfil de Facebook da autora.

Confissão

Guardo a
efemeridade
e a infinitude
da vida.

Sou (i)mortal
Sou humano
Sou poeta.

L. A. – Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora?

Ana Carolina Souza – O livro Confraria Feminina foi um presente especial na minha vida e na minha trajetória como escritora, pois permitiu-me inserção no meio literário, sem contar o aprendizado adquirido acerca do fazer literário e da poesia contemporânea.

Licor da vida

Beber o licor da vida
Provar o sabor.
Experimentar doses
modestas,
timidamente,
ou tragar grandes goles,
embriagar-se.

L. A. – Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook?

Ana Carolina Souza – Antes da página da Confraria, tinha uma escrita contida, muitas vezes engavetada por timidez ou vergonha de divulgá-la. O espaço concedido por Rita Queiroz através da minha integração ao grupo do Face permitiu-me libertar-me dos meus fantasmas, dos meus medos e inseguranças em relação à escrita poética no contato com outras escritoras que, por vezes, apresentavam os mesmos receios que eu e outras que já possuiam uma trajetória maior de escrita, mas que, generosamente, compartilhavam suas experiências no âmbito do fazer literário. Depois da Confraria, o meu estilo de escrita comunga e embaralha-se com o fazer poético de Rita Queiroz, Érica Azevedo, Jacquinha Nogueira, Josy Santos, Marilene Oliveira, Eva Dantas e tantas outras que integram esse espaço de congraçamento poético

Desejos

Que o tempo pare
Que o tempo não dispare
Que o tempo me ampare.

Que o tempo semeie
Que o tempo não vadeie
Que o tempo me norteie.

Que o tempo floresça
Que o tempo não recrudesça
Que o tempo me fortaleça.

Que o tempo frutifique
Que o tempo não gaseifique
Que o tempo me dignifique.

Tempo de produção
Tempo de colheita
Que os dois desaguem
em solo ribeirinho,
irrigado e fértil.

 

Confraria Poética Feminina III

Continuando a conversa com as autoras do livro Confraria Poética Feminina, organizado por Rita Queiroz, hoje apreciamos os poemas de Eva Dantas e Marcela Soares, ficamos sabendo um pouco mais sobre a efervescência criativa promovida a partir do perfil da Confraria no Facebook e como a interação entre as confreiras estimulou as autoras acima a escrever mais e mais. Vamos a elas!

Eva Dantas
1376394_235445443280793_1038975732_n

Imagem obtida através do perfil da autora no Facebook

Definição

Poetizar é deixar-nos ir à outra margem
Que age como uma corrente de dentro para fora
Forçando-nos a riscar o branco do papel
Com palavras de ouro – não letras –
Que voltam ao íntimo para nos marcar.

L. A. – Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora?

Eva Dantas – O livro Confraria Poética Feminina trouxe-me a certeza da realização de um sonho no campo literário. Desde criança que visualizo um livro em minha história. Tive o meu, que considero primeiro, mas não publicado, que foi a dissertação. O Confraria me deu essa oportunidade de ir um pouco mais além e mostrar meus “rabiscos” a um público maior e que ama a poesia como eu.

O tempo

Caminha pelo teu tempo
E verás a vida alongando-se à frente
Abrindo-se toda como o mar
Que vai e vem todos os dias
E não cansa, apenas dança
Bem diante do teu olhar.

L. A. – Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook?

Eva Dantas – Antes da Confraria, eu estava meio lenta em relação à escrita literária, escrevia para minha página no Facebook, algumas vezes, mas passei uma temporada, depois da conclusão do Mestrado, que meus objetivos voltaram-se para outras coisas. Ao ser colocada no grupo, por Rita Queiroz, a brasa da inspiração voltou a aquecer meu íntimo e há momentos que se não escrevo, parece que estou sendo sufocada. Depois do Confraria no Facebook, ganhei alma nova, renasci para a criação literária, uma das grandes paixões da minha vida.

Essência

O espelho reflete não o que sou
Apenas o que pareço.
Na minha alma, porém, está o espelho
Da vida diante dos olhos
Que veem os trilhos imaginários
Do rumo que quero tomar.
E não eu…
Mas o outro
Caminha involuntariamente.

Marcela Soares

1274474_657661184258603_739320330_o

Imagem obtida através do perfil da autora no Facebook.

Estes versos cortam meus pulsos.
E a rubra dor que me escorre
em seus olhos se aviva.
Aqui, em ti, ao vento…
meu canto é pulsado
hipertenso
com arritmia.
Precisa de marcapasso.
Meu canto é doente porque vem do coração.

L. A. – Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora?

Marcela Soares – O livro da Confraria Poética Feminina simboliza um marco oficial na minha assunção enquanto escritora. Sempre escrevi poemas, mas minha autocrítica impiedosa me impedia de publicar os textos. Afora um poema ou outro publicado em blogs de escritores amigos que sempre acreditaram mais que eu mesma nos meus textos, e a quem agradeço sempre (Contramão, antigo blog de Mayrant Gallo; Deslocamentos, de Lidi Nunes; e Entre Aspas, antigo blog de Georgio Rios, Thiago Lins e Paulo André Correia), e um poema selecionado para a antologia Bahia de todas as letras, edição da Via Litterarum e Editus em 2006, quando tive algum surto inesperado de coragem e enviei o poema para concorrer, sempre escrevi e guardei meus textos. Mostrava alguns a amigos, mas nunca ousei publicá-los. Até surgir o convite para a Confraria e o desafio de publicar o livro, que soprou ânimo e coragem para que eu os desengavetasse. E isso significou a libertação de muitas correntes, a oficialização de novos ciclos e a assunção da responsabilidade de me assumir escritora.

Mastigo com insistência
esse sentimento
que o estômago digere.
Nutro o corpo
em prazeres logo excretados.
A alma, etíope errante,
aguarda ajuda humanitária.

L. A. – Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook?

Marcela Soares – Comecei a ler muito cedo, dos quatro para cinco anos, por mera curiosidade de entender o que minha avó paterna me escrevia em cartas. E essa prematuridade na leitura me ajudou a desbravar mundos e aprender, também, a escrever cedo. Desde pequena escrevia historinhas que logo viravam papel de rascunho para qualquer outra brincadeira. Lembro-me que na adolescência, minhas amigas adoravam os textos que eu escrevia, e eu sempre as ajudava com as “ridículas” cartas de amor, porque eu conseguia rimar e trazer imagens líricas para situações que nem eu vivenciava. Certa feita, comecei a escrever um livro sobre uma garota, muito inspirada pelos livros “paradidáticos” da escola, que eu lia mesmo antes do ano letivo começar; anos depois, arrumando gavetas, encontrei a história e a achei tão infantil, que joguei fora.

Durante o curso de Letras, voltei a escrever, principalmente poesia, com o valioso incentivo de Mayrant Gallo, professor e escritor. No entanto, guardava muitos desses textos por medo de exibi-los. De uns anos para cá, permiti que o trabalho e a vida cotidiana sufocassem minha veia poética. Mesmo quando tinha uma inspiração, ou deixava passar, ou anotava em pequenos pedaços de papel, e guardava em um classificador que mantenho, com textos inacabados. Quando Juliana Nogueira ‒ a quem muito agradeço também ‒ me convidou para entrar na Confraria, senti-me desafiada a abrir as gavetas físicas e as da imaginação para postar os poemas no grupo. E a experiência de ler cotidianamente os textos das confreiras, além de poder ter o olhar crítico delas sobre seus textos, é extremamente motivador. Passei a escrever com mais calma, e a parar o tempo quando a inspiração vem, para escrever, mesmo que seja em um pedaço de papel. Estou aprendendo a revisar meus pedaços de papel, a reescrevê-los, melhorar os textos, muitas vezes pensando na opinião das confreiras, em futuras publicações, enfim, em expor meus textos. Como disse a confreira e excelente escritora Andréa Mascarenhas, no texto “Sou escritora”, postado no Facebook, dizer-se escritora implica em assumir uma responsabilidade com a escrita artística, e a Confraria me permite, hoje, assumir essa responsabilidade.

Florescer

Há um ar de outono
nessa primavera.
Meu chão não brota mais.

Houve plantio, musas,
quimeras…
Há, agora, sucessão de ais.

Confraria Poética Feminina II

 

Seguindo a conversa com algumas autoras da antologia Confraria Poética Feminina, organizada por Rita Queiroz. Dessa vez o papo é com Ilza Carla Reis e Jacquinha Nogueira. Perguntei às confreiras: Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora? Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook? Confira o que elas responderam.

Ilza Carla Reis
14732410_1482004921814986_5384531793297128462_n

Imagem cedida pela autora

Máscaras

Escolho tirar a máscara
Eu sei, não me é permitido

Devolvo-a à face
ainda que não me caiba muito bem

Quero mesmo é poder escolher
trocar a máscara em preto e branco
por uma repleta de brilho e cor

Libertar-me desse “sou” que querem
e experimentar o “sou” que quero

Livre da fôrma e da forma
do dever e do porvir
nem redondo nem quadrado
Presa somente ao aqui

Ainda que não seja preciso publicar num livro pra se considerar escritor, a publicação é, sim, um momento especial para quem escreve. A publicação na Antologia Confraria Poética Feminina é, para mim, um presente, um marco, capaz de me impulsionar a escrever cada vez mais. Muitas mulheres, assim também como muitos homens, escrevem solitariamente e guardam seus escritos. O gesto de publicar torna a experiência da escrita mais concreta e, particularmente, me fez perceber nesse lugar de escritora, inclusive para os mais próximos a mim, os quais nem sabiam que eu escrevia. Antes do livro, somente tinha participado do projeto  CumbePoiÉtiCo, coordenado pela professora Andréa Mascarenhas, com a impressão de poemas em cartões postais, expostos na Festa Literária de Euclides da Cunha, em 2014.

Instabilidades

Lá fora faz sol
mas aqui dentro a previsão é outra
tempo instável
ventos fortes

Preciso mesmo ser sol todo tempo?
O tempo todo não dá pra ser sol!
A constância do meu ser-tempo
é monótona, maçante, oca

Agora, vejo as nuvens
vem vindo a tempestade
com ela, medo, insegurança
depois, calmaria, mudança…

Como já disse, antes da participação no grupo da Confraria, no Facebook, a escrita funcionava para mim como uma catarse. Colocava no papel aquilo que me movia, me tocava e que observava no cotidiano. Mas essa escrita, antes do grupo, era esporádica e engavetada. Por mais que digamos que não, sempre escrevemos para alguém. No meu caso, mesmo tendo a possibilidade de começar publicando o que escrevia nas redes sociais, não me sentia encorajada. Somente depois do grupo é que tive coragem, por contar também com a leitura atenciosa e estimulante das demais confreiras, além de ser constantemente inspirada também pelas muitas publicações feitas por elas. A partir daí, passei a escrever com maior frequência. Quando Rita Queiroz me fez o convite, não tinha a verdadeira dimensão do que se tratava e de quantos projetos seriam gestados e realizados, mas uma certeza tinha: a de que era um privilégio e uma oportunidade de aprender. Confesso que ainda é um enorme desafio dizer-me e sentir-me escritora. Sinceramente, a escrita é para mim, hoje, mais uma realização pessoal do que uma necessidade de reconhecimento. Até porque, como afirmou o poeta Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta!”.

A dança dos meus dias

Para minha mãe Zezé

Danço ao ritmo de sua alegria
risos que soam como música
aos meus ouvidos.

As mãos impulsionadas
para o aplauso
à vida que se nos apresenta
a espreitar nossos dias

O que se vê arrebata
encanta
embaraça
num ritmo que nos tira pra dançar!
Jacquinha Nogueira
14691945_1154966964595088_6607361193464318175_o

Imagem disponível no perfil de Facebook da autora

Queria, mas já não posso arrancar de mim essa saudade,
carregada de lembranças, expressão mais alta da alma
ainda que espetada de dor, corroída pela distância
faço do sonho, uma fuga, um consolo
hoje, o que eu queria mesmo,
mais do que receber o teu desejo de bom dia,
era me vê em teus olhos.

Fazer parte de uma antologia em potencial como a Confraria Poética Feminina é de um orgulho sem tamanho. Uma obra unicamente de mulheres. Com uma riqueza literária tão diversificada, simples e tocável. Mulheres que não se conheciam pessoalmente e fizeram um grito feminino poético ecoar. É uma obra de liberdade e reafirmação da escrita feminina contemporânea no campo literário. É um inspirar para várias outras na história de cada uma que compõe o livro e o grupo. É ousar sem temer. É ir de encontro às palavras e a elas se entregar. Foi isso que fizemos quando a oportunidade de mostrar e ter criticidade nos nossos textos proporcionou voos de coragem. Mulheres que engavetavam seus textos, algumas até temiam as leituras dos mesmos ou qualidade ainda que figurassem na área de letras, pois quando o assunto é a própria literatura a escrita vira um campo de tensão nada confortável para as letrólogas. É ter a consciência de que foi apenas um passo, bem largo, já que em menos de um ano de grupo um livro foi lançado e este não é apenas uma obra feminina, é a reunião de vozes de várias escritoras baianas que se resguardavam no papel por diversos motivos, e a antologia traz e demonstra a competência das mesmas na relação com a escrita, das palavras e do fazer literário. Tem literatura de sobra pra ecoar nesse mundo, sozinhas ou de mãos dadas, em antologias como essa.

Narranós

Se a poesia dos teus olhos
declama os meus
nada mais é preciso dizer
O grito já foi dado
naquela noite eu declarei
o outro dia feriado
Bem vindo amor
as calçadas da minha alma
a rua do meu sorriso
ao abrigo da minhas mãos
faz viaduto a liberdade do nosso coração

O grupo da Confraria Poética Feminina trouxe o desafio de expor o que estava engavetado para muitas. No meu caso, foi mais uma possibilidade de partilha, pois faço o mesmo na minha página pessoal no Facebook. O que muda é que são mulheres que fazem parte do nosso grupo, a maioria formada e com altas qualificações na área de letras, debruçando-se sobre os poemas e prosas de cada uma das autoras. Cada leitura, curtida, comentário, análise ou ausência das mesmas, era um sim ou um não, para continuar escrevendo ou repensando a escrita; é uma primeira avaliação e retorno do público leitor e crítico também. O que mudou foi o incentivo para voltar pra prosa e arriscar em outros gêneros literários e suas hibridizações como os layouts poéticos, além do olhar de mim mesma para a escritora em constante construção e formação dentro e fora do grupo.

Não sirvo pra ser meia dose de amor
ou me toma em taça inteira
ou nem ouse degustar.