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Èruz: o erotismo de Artur Áriston

Sumo

É essa minha língua
Sedenta
Por tua fruta
macia
tons rosa, pitanga
Acaricia
e enche de mais água
A boca que clama
Lambendo tuas partes rasas
Chupando o sumo
E o suprassumo
Lambuzo os dedos
Do miolo de tua fruta

O pecado é não comer


Nudes

Ela se despiu toda envergonhada
Mas me mandou o nudes
E era tão bela

Seus traços me lembravam
Drummond, Neruda, entre outros.
E aos poucos me via nela

Ela nua, assim pra mim
Ofegava o sorriso, brilhava os olhos
E acelerava os batimentos cardíacos

De dos pés à cabeça tava ali pra mim,
Inteira.
De alma, nas letra tava quase tudo que ela sentia.
Sobre nosso beijo de despedida
De boa noite

Toda envergonhada ela me mandou um nudes de poesia.

E eu a amei


Ontem

Faça minha voz calar
Não
Melhor
Faça minha voz gemer
Meus olhos revirar
Como se agora fosse nunca mais
Como se nunca fosse

Ontem

Artur Áriston (Caburé, 2018)

 

Corpo de água, porto seguro, coroa vermelha.

Para Ubiranan Pataxó

Escrevo, no corpo de águas do lugar onde habito, palavras que não disse porque não sabia. Desnecessário falar quando sentir é o idioma que une meu ser a outros. Havia encontro por caminhos não sabidos. Sentidos. A minha íris, talhada no sem tempo, sabia da sua e das outras. Sabia de tudo, mesmo eu não sabendo.

Teu olhar negro navegou o meu, na Coroa Vermelha de corais e penas e cocares dentro da taba de teus artesanatos. Meu olhar velejou céus e estradas em busca de mim mesmo, desde Salvador, Abrolhos e Porto Seguro. Segura é a rota que conduz ao que sou. No barco, à procura, segui rumos de índios e brancos. Ameríndios e portugueses. Eu, negra, mas não apenas.

Minha íris relembra minha tataravó índia cativa. Meu avô filho de português. Meu avô filho de negro escravizado. Meus pais negros de mistura anterior. Indo ao fundo de quem sou ou fui me encontrarei? Incerta, a resposta. Seguro é seguir. Vou.

O mar de abrir os olhos depois de Caravelas é abraço de paz. Tudo o que preciso e me dou. Jubartes saúdam pessoas. Irmanados estamos pelo ato de mamar, mas não apenas. A mãe e a cria, afeto seguro, simples. Puro estar, ser. Ensinanças para meu saber humano, pretensioso de livros e diplomas.

Mar. Ir, voltar. Rota imprecisa no preciso rumo onde a chegada é começo de um novo partir. Ciclicidade, o mar sempre me diz, e não só ele. Abro os ouvidos para aprender o canto inaudível sem a câmara do coração. Fragatas, gravínias, atobás, o mar, as pedras. Meu desejo é ser canção na sinfonia natural da vida.

O mar é um mistério que desconheço, mas amo. Meus companheiros vão mais longe, perscrutam o que ali ficou naufragado. Abrolhos. A vida que se edifica como se pedra fosse é o segredo da existência: firmeza e fragilidade: coral. Para ser grande, sê inteiro.

O coral vermelho me leva de volta à Coroa e ao desejo de inteireza que carrego por dentro. Coroa vermelha de corais. Canal de acesso ao ventre da mãe: terra. Procuro teus olhos no passado tão presente no meu corpo de águas. Banho-me sem molhar nas mesmas e diferentes águas onde eles aportaram no dia em que abril fez-se abertura: vinte e dois.

Tua presença me chama e eu já nem sei onde é, onde vou. Aguardo o fluxo, a corrente de vento ou mar que me conduza. Canção pataxó me abraça enquanto espero. É o começo do que já era. A maraca ressoa seus guizos, varrendo em sons o que não convém. Tu vens vestido de índio porque índios és e saúda-me em idioma teu. Agradeço e já não sou apenas eu. Algum dia fui?

Gentil mão de garoto convida e conduz a minha ao clã, onde não pertenço, mas sinto-me parte. A mãe, o pai, os filhos. Índios. Saberes ofertados no alimento, nas ervas, no artesanato. Artesanias tecidas de vida, atavicamente escritas nas linhas das mãos, dos rostos. A oca é o terreiro por onde meu olhar passeia revendo o passado e suas dores. Meus olhos choram. Cada cocar me conta uma história de vida e morte. Guerreiros se apresentam e exibem vitórias em dentes de javalis ou afins. Há um sem número de índios à minha volta e eu choro. Por que cravejaram-lhe a inocência?

Eu sinto. Muito. Sinto muito, grito surdamente para que o Sol me compreenda e a Lua se compadeça de mim, dos meus. Perguntas o que há com os meus olhos e não posso negar ou mentir. Tirei as capas em que me protegi um dia, agora estou só o que sou. Choro e não há cisco, senão uma dor cravada no peito e um sinto muito gritado na garganta. Olho-te nos olhos para dizer o que não pronunciarei porque no silêncio tudo é mais potente. Sem falas não há equívocos, ficamos cada um com a essência do que sentimos e é tudo o que é necessário.

Me falas de Deus e eu escuto como quem ouve uma oração rezada por todos nós. Escreves, também tu, no corpo de águas do teu povo, também meu, uma esperança e uma salvação. Uma águia nos abraça com o vento das suas asas porque sabe que tu e eu somos ambos filhos dela. Oferta-nos seus olhos de ver além da distância para enxergamos onde falha a visão. Aceito. Assim seja, pois assim é.

Reencontro a tua face pintada em vermelho e negro. Encontro novamente o teu olhar e nele o olhar dos nossos. Consagras a mim com o cocar porque agora estamos irmanados pelo olho da águia. Me sinto inteira por dentro. Tomas a minha mão na tua e os nossos olhares sabem o que as palavras não conseguirão dizer. O meu afeto transpassa teu corpo e o dos teus irmãos pataxós, kariris, fulni-ôs, tabajaras, … Lá fora, uma cruz testemunha Deus em nós e uma história retecida com águas no corpo da terra chamada Brasil.

Lílian Almeida

 

O gosto simples da vida

No banheiro social há toalhas limpas. Azuis como os azulejos da parede. E há sabonetes de glicerina, como antigamente. Tudo perfeitamente igual. A água morna do chuveiro me reconforta. Banho-me demoradamente. Pudera lavar-me dos anos todos da minha existência e me enxugar purificada. Fênix. Recém-parida de uma origem outra, da qual despontasse ungida, identificada, semelhante e comungante com todos, para a plenitude do gozo simples da vida. O gozo simples da vida, esse só é concedido aos iguais. Toda a complexidade da existência não vem senão das diversidades que os diferentes entre si procuram impor-se, reciprocamente. Viver é simples. Os viventes complicam esse viver na invasão iconoclasta, tentando desmoronar, com as suas verdades, as sagradas verdades de outrem. E se esboroa o gosto simples pela vida. E é bastante olhar os rostos. Há sempre uma denúncia de amargura no mais disfarçado dos sorrisos. Mas sempre se prosseguirá sacrificando o gosto simples da vida, na arrogância pretensiosa de colocar verdades próprias em posição de definição acima das demais.

Não quero descer para o jantar, mas temo ser mal interpretada. Não há capricho ou rancor. O tempo é semelhante a um tornado, acaba arrebatando tudo. Há só o desejo de fugir ao convívio deles. Talvez receiem ser contaminados pelo vírus da minha liberdade.

Gláucia Lemos (fragmento de Marce, Solisluna Editora, 2013)

Reversus

Olhei-me, hoje, no espelho e não me vi. Era outro o rosto. Desfigurado.
Fitei para ver se enxergava o que via.
Tinha cara de escárnio, rindo dor e dizimação de negros lançados em camburões, valas, navios, mar.
Insisti para ver, e vi.
Arrogância subjugando mulheres transpassadas pela estupidez de um membro hirto, humanamente flácido. Dedo em riste, braço empunhado. Nenhum indício de gente escorrendo seminalmente.

Estapafúrdia visão.

Procurei minhas pupilas pretas no vidro. Escorreguei no sem tempo.
Mazelas acordaram meus olhos. Eu e meus remendos de gente. Visitei as pequenas mortes que cometi.
As prepotências mínimas de não saber quem sou. Você sabe quem eu sou?
As violências miúdas que empunhei por autoritária autoridade. Aqui sou eu que mando.
Vi a ideia maquinar a mente construindo proveito próprio sobre a falta do outro.
Vi somente o meu rosto e não vi a cara de mais ninguém em cada face que cruzei.

Estapafúrdia visão. Espelho meu.

Minhas desumanidades coladas no espelho onde (não) me vi. Perplexa, esfrego os olhos. Dilatado o meu olhar, enxergo fora do espelho o espelho meu.

Lílian Almeida

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Imagem disponível em: https://cdn.pixabay.com/photo/2015/10/24/11/09/drop-of-water-1004250_960_720.jpg

Sobre o silêncio

         O Surdo não precisava tapar os seus; já os tinha obstruídos. Desconfiava, no entanto, que as máximas da finada Idelfonsa, de tanto lhe martelarem os ouvidos, e de lhe provocar irritação, acentuaram-lhe a surdez. Ele resistia a ouvi-la, de maneira quase inconsciente, e habituou-se a fechar os ouvidos também para os outros. E assim tecia uma teia cada vez maior de silêncios, em que vigiava e laborava e atentava, disfarçado a um canto, fingindo-se de aranha morta. Quem quiser que lhe caísse na teia. Bastava-lhe engolir um inseto de cada vez e recolher-se sobre si mesmo. O Surdo amadurecia nos silêncios. De meditação em meditação sentia-se crescer por dentro. Os outros não reparavam, porque presos às exterioridades do seu próprio ser, cujo valor superfaturavam. Há silêncios que falam por uma assembleia inteira, como também há silêncios inertes. É preciso saber ouvi-los, mesmo quando se tem ouvidos moucos, e neles distinguir vozes, ecos, ressonâncias, sussurros – os interlocutores de maior valia, porque não tendo como falar, entendem-se à sua maneira altamente discreta com quem os sabe acolher. O Surdo os amava, os defendia, saindo dos seus silêncios quando estes, por demais densos, por demais audíveis, conseguiam ferir-lhe os tímpanos emudecidos, expondo-o, então, ao vozerio atordoante do mundo.

 

Hélio Pólvora (fragmento de Inúteis luas obscenas, Casarão do verbo, 2010)

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