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Profundanças 2: antologia literária e fotográfica

Capa Profundanças2_Arte de Icaro Gibran

Arte: Ícaro Gibran (Imagem disponível na internet)

Acabou de nascer o segundo volume da antologia literária e fotográfica Profundanças. Organizada pela professora universitária, poeta, performer, Daniela Galdino, Profundanças 2 reúne dezesseis mulheres e seus poemas, contos, crônicas, além de ensaios fotográficos que dizem do universo dessas autoras, produzidos por 19 fotógrafes.

Em 2014, o primeiro volume de Profundanças veio a lume evidenciando escritos de autoras em sua maioria inéditas ou com apenas um livro publicado. Abria-se ali um espaço para o diálogo entre expressões artísticas e vozes diversas, para tirar da gaveta o texto e assumir a escrita para leitores do ciberespaço. Uma proposta de difusão e democratização da leitura e da experiência literária, haja vista o livro estar disponível para download na internet através da produtora baiana Voo Audiovisual.

No dia em que Frida Khalo completaria 110 anos, 06 de julho de 2017, o Profundanças 2: antologia literária e fotográfica foi lançado virtualmente e disponibilizado para o público. Em sintonia com o caráter insurgente da pintora mexicana, a obra é fruto de ações colaborativas e representa as resistências e lutas de mulheres para sustentar a voz literária num mercado editorial (e não só) altamente excludente. Estão “irmanades pelo grito” artistas negras, não negras, trans não-binárias da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo. A partir do lugar da desobediência é que as escritas e fotografias dançam um bailado insurgente às formas e fôrmas, como assinala Daniela Galdino na apresentação do livro: “cá estamos na continuidade da desobediência. Por refutarmos as dinâmicas literárias que, a cada dia, fabricam a nossa invisibilidade. Por sabermos que somos muitas em profundas relações com a palavra. Por sentirmos uma necessidade avassaladora de falar com outres, ouvir as palavras suas. Por sabermos que alguns nos querem mortas. (…) Estamos na mira constante: nós, mulheres – ainda mais se negras, indígenas, trans, lésbicas, pobres. Ou sucumbimos à mira, ou inventamos formas de re-existir”. Sem sombra de dúvidas, Profundanças é uma forma de re-existir!

Confira abaixo mais um pouco da Apresentação do livro, um aperitivo para o banquete literário e fotográfico guardado nas páginas de Profundanças 2: antologia literária e fotográfica. Faça o download gratuito em:

  http://vooaudiovisual.com.br/projects/profundancas2/

 

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Carta de outono

Amigo,

Recebi com alegria renovada as suas notícias. Existir é tarefa para loucos. A gente vai fazendo de conta. Percebi que te afliges com o acelerado dos dias e a letargia cara a quem vai cozendo por dentro o fazer da vida. Também me aflijo. Brigo com os ponteiros dos relógios e os número no calendário. Botei todos para fora de casa. Ando só, com os meus tempos outros. Na hora do chá você chegou e preparei-te um café para nosso diálogo. Ficamos na cozinha mesmo, onde acolho os do coração. Esteja certo, foi uma tarde de contentamento revivido.

O interfone toca. Pronto. Boa tarde, Dona T. Tem uma correspondência aqui pra senhora. É  de D. Ótimo! Eu estava mesmo aguardando por ela. Certo. O R. vai levar até aí. Ok, obrigada. Mais cedo tinha interfonado para a portaria perguntando pela encomenda. Há dias esperava. Não, não chegou. Agora sim! O interfone e a notícia de que chegara: missivas.

Na adolescência escrevia cartas para os amigos durante as férias. Tentativa de superar a distância. Eles chegavam entre envelopes e linhas, dizendo saudades e amizades eternas. Era sempre novo o mesmo sentimento de tomar a carta, investigar-lhe com as mãos, abrir e ouvir nas letras a voz ausente. Alegria sem palavras, felicidade de riso aberto nos olhos.

Era um amigo. O porteiro anunciava que subiria. Expectante, aguardei para abrir a porta e tomar-te nas mãos. Fazia dias que esperava. Previa o prazer do contato. Pegar, sentir, cheirar. Sensações, ações. Verbos para satisfazer não só os olhos e o decifrar de cada letra, palavra. Pegar, apalpar, sentir, abrir, cheirar, ver, folhear.  Ler. Talvez o último dos verbos. Porque há  o enamoramento. Prêambulo. Preliminar para que o ato se faça.

O não esperado no encontro  desejado. Na cozinha, tomando um café da tarde. O interfone. Em minutos tudo seria novo e revivido. A mesma felicidade de carta em cima da cama. O curto tempo do elevador alcançar o 15º andar. O mesmo ritual sempre único a cada amigo que chegava. Ela aguardando que a campainha tocasse. Abriu a porta e finalmente encontrou, um maço de cartas, as Cartas a Tereza.

Mas me fale, amigo, e Tereza, que te diz de todas as tuas inquietações? Sabe, o preço da vida é alto e viver tem sido tão menos! Amanhã vai ser maior.

Outono de mar  na capital das páginas de afeto.

Lílian Almeida

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Foto: Lílian Almeida

Saber português

Nova Imagem1 Ele era português. Mas não era desses portugas que há por aí, que, descendentes longínquos da Terrinha, por serem bons tomadores de vinho e apreciadores do melhor bacalhau, se dizem portugueses. Ele era legítimo, viera de Portugal, de navio, bem jovem. O bigodão era, pois, genuíno. Trouxera consigo a preciosa esposa, Preciosa inclusive de nome. Depois de morarem por muitos anos em São Paulo, abriram uma pousada no litoral catarinense. Foi lá que os conheci. E na convivência com o casal, ganhei algumas lições valiosas, de cada um, e do par. A lição óbvia, já adivinharam, por certo, foram as receitas preciosas de quitutes portugueses. Afinal, será que existe portuguesa que não cozinhe bem? Ainda bem que ainda não conheci nenhuma… Apesar dos dois (que quando privei com eles já tinham idade) terem, por conta das crônicas – infelizmente não as da forma narrativa, mas as moléstias – de fazer muita dieta, ela não se fez de rogada, e ensinou-me especialmente macetes do preparo de vários pratos. Mas o convívio com ambos enriquecia-me de muitas maneiras. Certa vez, ela apareceu na consulta (era minha paciente de consultório) muito taciturna, o que não era de seu comportamento usual. Demonstrou até vontade de adiar o procedimento, e acabou contando que estava muito chateada com o esposo, que agora, ultimamente, tinha dado pra ser grosseiro, ríspido com ela. E que ela não conseguia nem chorar, e aquela mágoa estava lhe fazendo mal. Eu, lembrando-me que, quando criança, havia aprendido com uma tia a, sempre que algo estivesse me angustiando, procurar um lugar deserto e gritar até passar, dei a ela este conselho “precioso”… Na semana seguinte, está de volta, toda “catita”, e quando eu lhe perguntei se lhe deu alívio, se foi mesmo um desafogo gritar, sozinha, na praia, ela responde: “ – Mas eu mudei a prescrição! Não gritei sozinha, não, oras, gritei com ele!”! E, lá de fora, ouço a poderosa voz de Seu Alfredo: “ – Tu me pagas, doutorinha…”! Mas o que mais recordo, porque foi o ensinamento mais profundo, mais precioso, quem deu foi ele. Veio da forma como ele me cumprimentava. Ao invés do tradicional “Tenha um bom dia”, Seu Alfredo dizia “Faça um bom dia”! E isto sempre era uma chacoalhada que ele me dava, sem saber, talvez. Mas aquilo sempre calava em mim. E eu passava todo o resto do dia atenta a fazê-lo, meu dia, não a tê-lo. Bons dias, aqueles…

Ana Valéria Fink (formada em Odontologia. Poeta, cronista, contista. Acadêmica de Letras no Campus XXI da Uneb, Ipiaú, Bahia.)

Saber português faz parte do livro Regando os Jardins do Senhor e Outras Crônicas (Ana Valéria Fink, Via Litterarum, 2015).