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Èruz: o erotimo de Artur Áriston

Sumo

É essa minha língua
Sedenta
Por tua fruta
macia
tons rosa, pitanga
Acaricia
e enche de mais água
A boca que clama
Lambendo tuas partes rasas
Chupando o sumo
E o suprassumo
Lambuzo os dedos
Do miolo de tua fruta

O pecado é não comer


Nudes

Ela se despiu toda envergonhada
Mas me mandou o nudes
E era tão bela

Seus traços me lembravam
Drummond, Neruda, entre outros.
E aos poucos me via nela

Ela nua, assim pra mim
Ofegava o sorriso, brilhava os olhos
E acelerava os batimentos cardíacos

De dos pés à cabeça tava ali pra mim,
Inteira.
De alma, nas letra tava quase tudo que ela sentia.
Sobre nosso beijo de despedida
De boa noite

Toda envergonhada ela me mandou um nudes de poesia.

E eu a amei


Ontem

Faça minha voz calar
Não
Melhor
Faça minha voz gemer
Meus olhos revirar
Como se agora fosse nunca mais
Como se nunca fosse

Ontem

Artur Áriston (Caburé, 2018)

 

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Sobre o silêncio

         O Surdo não precisava tapar os seus; já os tinha obstruídos. Desconfiava, no entanto, que as máximas da finada Idelfonsa, de tanto lhe martelarem os ouvidos, e de lhe provocar irritação, acentuaram-lhe a surdez. Ele resistia a ouvi-la, de maneira quase inconsciente, e habituou-se a fechar os ouvidos também para os outros. E assim tecia uma teia cada vez maior de silêncios, em que vigiava e laborava e atentava, disfarçado a um canto, fingindo-se de aranha morta. Quem quiser que lhe caísse na teia. Bastava-lhe engolir um inseto de cada vez e recolher-se sobre si mesmo. O Surdo amadurecia nos silêncios. De meditação em meditação sentia-se crescer por dentro. Os outros não reparavam, porque presos às exterioridades do seu próprio ser, cujo valor superfaturavam. Há silêncios que falam por uma assembleia inteira, como também há silêncios inertes. É preciso saber ouvi-los, mesmo quando se tem ouvidos moucos, e neles distinguir vozes, ecos, ressonâncias, sussurros – os interlocutores de maior valia, porque não tendo como falar, entendem-se à sua maneira altamente discreta com quem os sabe acolher. O Surdo os amava, os defendia, saindo dos seus silêncios quando estes, por demais densos, por demais audíveis, conseguiam ferir-lhe os tímpanos emudecidos, expondo-o, então, ao vozerio atordoante do mundo.

 

Hélio Pólvora (fragmento de Inúteis luas obscenas, Casarão do verbo, 2010)

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A árvore envenenada

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Fotografia de imagem de Márcio Vasconcelos presente no livro-poema A árvore envenenada, de Celso Borges.

essa árvore foi envenenada

alonso ramirez não gostava
das folhas que caíam na piscina
e dos morcegos felizes
desabando velozes na noite sobre
alcântara

lá do alto a lua cheia
ilumina a lenha oca
declarando guerra à morte

árvore, árvore do tempo envenenado
daqui de baixo minha alegria te contempla


alcântara, 25 de agosto de 2018

(Celso Borges)

Entre a estrada e a estrela: três poemas de José Inácio Vieira de Melo

O que me move a continuar essa história sem roteiro
é a possibilidade de mergulhar no abismo.
Cada passo é um se jogar no vazio de cada segundo.

Em cada gota de sangue, o milagre da matemática
estabelece ritmos e formas – transformações
da paisagem que me compõe e que vou compondo.

Nas cores do arco-íris banho meu olhar e saio pronto
para colorir os sofrimentos que vou encontrando.

No meu movimento, gentes, geografias,
diamantes, espinhos, auroras, crepúsculos.
Viver é assim, mas amanhece e já aponta a noite.

Escolhi, então, apenas andar por aí,
cobrir-me com a poeira dos caminhos
e descobrir a verônica das estrelas.

O mundo foi feito pra gente andar, isso eu já disse,
é que este verso tem marcado meu ritmo,
e que tem me salvado das amarras do cotidiano.

O meu tempo é pouco, mas é certo também
que tenho todo tempo do mundo
e só quero sentir minha respiração.

 

Em todo lugar
explode a primavera.

e dois olhos brilham
como duas pérolas.

Sou eu a mostrar
minha solidão

às estrelas.

 

O que posso dizer de mim,
essa coisa neutra que quer ser vista,
e se ver, sem carecer de espelhos,
até chegar na essência?

Um neutrino,
um simples menino,
mínimo, mínimo, mínimo.

Só me resta sentir a luz do Sol,
que corre milhões de anos
para chegar até aqui,
fazendo carícias.

 

José Inácio Vieira de Melo 
(Entre a estrada e a estrela, Mórula Editorial, 2017)

 

O mistério das coisas, onde está ele?

O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.

 

“O Guardador de Rebanhos”. In: Poemas de Alberto Caeiro.

Na oração que desaterra a terra

Na oração que desaterra a terra
Quer Deus que a quem está o cuidado dado
Pregue que a vida é emprestado estado
Mistérios mil que desenterra enterra.

Quem não cuida de si, que é terra erra
Que o alto Rei, por afamado amado
É quem lhe assiste ao desvelado lado
Da morte ao ar não desaferra, aferra.

Quem do mundo a mortal loucura cura
A vontade de Deus sagrada agrada
Firmar-lhe a vida em atadura dura.

Ó, voz zelosa, que dobrada brada
Já sei que a flor da formosura usura
Será no fim dessa jornada nada.

 

Gregório de Matos (Poema de Gregório de Matos musicado por José Miguel Wisnik)

 

Desonra

Achou que ia acabar se acostumando. Mas não é isso que acontece. Quanto mais mortes ajuda, mas nervoso fica. Numa noite de domingo, ao voltar para casa dirigindo a Kombi de Lucy, chega a ter de parar no acostamento para se recuperar. As lágrimas lhe correm pelo rosto sem que possa controlar, as mãos tremem.

Não entende o que está lhe acontecendo. Até agora havia sido mais ou menos indiferente a animais. Embora reprove abstratamente a crueldade, é incapaz de dizer se é cruel ou bondoso por natureza. Simplesmente não é nada. Sempre achou que as pessoas cujo trabalho exige a crueldade, pessoas que trabalham em matadouro, por exemplo, desenvolvem uma carapaça em volta da alma. O hábito endurece: deve ser assim na maioria dos casos, mas não parece ser assim no seu caso. Parece não ter o dom do endurecimento.

Todo o seu ser fica tomado pelo que acontece naquela arena. Está convencido de que os cachorros sabem que chegou a sua hora. Apesar do silêncio e do procedimento indolor, apesar dos bons pensamentos que Bev Shaw fica pensando e que ele tenta pensar, apesar dos sacos hermeticamente fechados em que colocam os corpos, os cachorros do quintal farejam o que acontece lá dentro. Baixam os olhos, enfiam o rabo entre as pernas, como se também eles sentissem a desgraça que é morrer; travam as pernas e têm de ser empurrados, puxados ou carregados para a porta. Na mesa, alguns se debatem furiosamente de um lado para o outro, outros soltam ganidos melancólicos; nenhum olha para a agulha na mão de Bev, que de alguma forma sabem que vai lhes fazer um mal terrível.

O pior são aqueles que farejam e tentam lamber sua mão. Não gostou nunca de ser lambido, e seu primeiro impulso é tirar a mão. Por que fingir ser camarada, quando na verdade se é assassino? Mas ele acaba cedendo. Por que a criatura que está sob a sombra da morte teria de sentir que ele recua como se o seu contato fosse repulsivo? Então deixa que o lambam, se quiserem, assim como Bev Shaw os acaricia e beija se eles deixam.

Espera não se descobrir um sentimental. Tenta não sentimentalizar os animais que mata, ou sentimentalizar Bev Shaw. Evita dizer para ela “Não sei como consegue fazer isso”, para não ter de ouvir a resposta, “Alguém tem de fazer”. Não descarta inteiramente a possibilidade de, em um nível mais profundo, Bev Shaw não ser um anjo libertador, mas um diabo, de por baixo das mostras de compaixão ela esconder um coração mais duro que o de um açougueiro. Ele tenta manter a cabeça aberta.

Como é Bev Shaw quem se encarrega de enfiar a agulha, ele é o que se encarrega de desfazer os restos. Nas manhãs seguintes à sessão de sacrifícios, dirige a Kombi carregada até o incinerador do Hospital Settlers, e ali entrega às chamas os corpos dentro dos sacos pretos.

Seria mais simples colocar os sacos no carrinho do incinerador logo depois da sessão e deixa-los ali para o pessoal da incineração cuidar deles. Mas isso significaria deixa-los no depósito junto com o lixo do fim de semana: restos das alas do hospital, carniça coletada na beira da estrada, refugos malcheirosos do curtume – uma mistura ao mesmo tempo fortuita e terrível. Ele não tem coragem de impor essa desonra aos cachorros.

Por isso, nas noites de domingo leva os sacos para a fazenda na parte de trás da kombi de Lucy, passam a noite ali e na segunda feira de manhã vão para o hospital. Lá, ele próprio os descarrega, um de cada vez, para o carrinho de transporte, liga o mecanismo que leva o carrinho através da porta de aço para as chamas, puxa a alavanca para esvaziar o conteúdo e desliga de volta, enquanto os funcionários cuja função é fazer exatamente isso ficam olhando.

Na primeira segunda feira deixou que eles fizessem a incineração. O rigor mortis havia endurecido os corpos durante a noite. As pernas mortas ficavam presas nas barras do carrinho e, quando o carrinho voltava da fornalha quase sempre um cachorro voltava também, enegrecido e com dentes à mostra, cheirando a pelo queimado, a cobertura de plástico incinerada. Depois de algum tempo, os funcionários começaram a bater nos sacos com o cabo das pás antes de carregá-los, para quebrar os membros rígidos. Foi quando ele interveio e passou a fazer ele mesmo o trabalho.

O incinerados é alimentado a antracito, com um ventilador elétrico que suga ar pelos tubos; ele acha que deve ser dos aos anos 1950, quando o hospital foi construído. Opera seis dias por semana, de segunda a sábado. No sétimo dia, descansa. Quando o pessoal chega para trabalhar, a primeira coisa que faz é remover as cinzas do dia anterior, antes de carregar a fornalha. Por volta das nove da manhã a temperatura da câmara interna é de mil graus centígrados, quente o bastante para calcificar ossos. O fogo é alimentado até o meio dia da manhã; leva toda a tarde para esfriar.

Ele não sabe o nome do pessoal e tampouco sabem o dele. Para eles é simplesmente o sujeito que começou a vir às segundas feiras com os sacos da Bem-estar do Animais e que chega cada vez mais cedo. Chega, faz seu trabalho, vai embora; não faz parte da sociedade que, apesar da cerca de arame farpado, do portão com cadeado e do aviso em três línguas, tem como centro o incinerador.

Pois a cerca há muito foi cortada; o portão e a placa de aviso simplesmente são ignorados. Quando os funcionários chegam de manhã com os primeiros sacos de lixo dos hospital, um grupo de mulheres e crianças já está esperando para catar seringas, alfinetes, bandagens laváveis, qualquer coisa que dê para fazer dinheiro, mas principalmente comprimidos, que vendem nas lojas muti, de negros, ou nas ruas. Há também os vagabundos que passam o dia nos arredores do hospital e de noite dormem encostado na parede do incinerador, ou até mesmo dentro do túnel, por causa do calor.

Não é uma sociedade a que pense juntar-se. Mas quando está ali, eles também estão; e se o que ele traz não lhes interessa é porque os pedaços de um cachorro morto não servem nem para vender, nem para comer.

Por que assumiu esse trabalho? Para aliviar a carga de Bev Shaw? Para isso bastava descarregar os sacos no depósito e ir embora. Por causa dos cachorros? Mas os cachorros estão mortos; e o que sabem os cachorros acerca de honra e desonra?

Por ele mesmo, então. Por sua visão de mundo, por um mundo em que homens não usam pás para reduzir corpos a uma forma mais conveniente de eliminar.

 

J.M. Coetzee (fragmento do romance Desonra, Companhia das letras, 2000)