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Três poemas de Trans formas são, de Alex Simões

mil&tânatos
quero poder cantar impunemente
sem ter de agradecer por estar vivo
ou problematizar por que se sente
medo de ter tesão, tédio, convívio
onde estão meus amigos, minha gente,
mortos por mil & tânatos motivos
ou quase vivos quando assim de frente
qual das verdades que nos traz alívio?
não ter resposta pode ser apenas
o início de uma certa indignação
mal disfarçada e em doses pequenas
na militante estética do não
se apresentar nem para salvar o mundo
nem pra trazer à tona o que, no fundo

 

respeitar o tempo
respeitar o tempo
o tempo do tempo
o tempo
o meu tempo
o seu tempo
o tempo de todo mundo
o tempo de cada um.

lograr respeito
por saber que o tempo há tempos
no plural é bem mais tempo
e por isso
Tempo uno
e às vezes
Tempo o.
autorchisteplagia
o poeta e o escritor
brincam, mas mui serenamente, e
postam no computador
os trocadilhos que mentem.

e os que leem e os que escrevem,
no que brincam, sentem bem,
não apenas pelo gozo,
mas pelo jogo também.

e assim se reinventa a roda
e se entretém a nação.
e pra amarrar esta coda
andorinhas passarão.
Alex Simões (Trans formas são. In: Organismo, 2018)

 

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Choro de mulher

Joaquim Pedro ouve choro de mulher. Por que não dizer simplesmente choro? Porque o de mulher é longo, mina de nascentes insuspeitadas, por ela própria desconhecidas. Brota de dentro, de camadas que ela sem saber encobriu durante a vida. É lancinante e calmo, freme e escorre, estanca e se precipita, ora sincopado, ora suave. O choro de Marbela era um rio a correr. Quando, afinal, chegaria ao estuário, em fundo abraço de lágrimas, até que se completasse a mistura, até o apaziguamento? De onde estava, a avivar para a noite a brasa do charuto, Joaquim Pedro seguia sem querer o curso daquele  choro, era como se o visse escorrer em filetes por ente pedras, ou engrossar nos declives; quando parado, em súbita represa de água escurecida, Joaquim Pedro pensava: “Acabou”. No entanto, do fundo subia uma indistinta corrente que o fazia transbordar e prosseguir; Marbela retomava o choro, a princípio enfraquecido, gemidos de um ferido animal agonizante, em seguida entrecortado.

Há homens que choram. Em geral os demais homens os desprezam. Admite-se no macho o grito, jamais a súplica. Homem chora por dentro nos seus veios subterrâneos. Nas mulheres o trânsito da dor é mais fácil, elas desabafam e esquecem.  Esquecem? Por ventura alguém esquece? Há feridas abertas, para sempre abertas, e delas pinga sangue.

Com o charuto a queimar além da metade, Joaquim Pedro ouve o pranto de Marbela rumorejar, debilitado qual água em beira de riacho. Pronto. Agora, o rosto ainda a queimar, mas sob o efeito balsâmico de pomadas, Marbela ficará deitada uma ou duas horas, de olhos abertos na escuridão, de alma engessada, de peito sem ressonâncias, vazia, esvaziada. Adormecerá de madrugada, e não será por culpa do canto rouco dos galos e das asas que eles tatalam nos poleiros.

Hélio Pólvora (Don Solidon,  Casarão do verbo, 2011)

A Criança Nova que habita onde vivo

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

Alberto Caeiro

 

Èruz: o erotismo de Artur Áriston

Sumo

É essa minha língua
Sedenta
Por tua fruta
macia
tons rosa, pitanga
Acaricia
e enche de mais água
A boca que clama
Lambendo tuas partes rasas
Chupando o sumo
E o suprassumo
Lambuzo os dedos
Do miolo de tua fruta

O pecado é não comer


Nudes

Ela se despiu toda envergonhada
Mas me mandou o nudes
E era tão bela

Seus traços me lembravam
Drummond, Neruda, entre outros.
E aos poucos me via nela

Ela nua, assim pra mim
Ofegava o sorriso, brilhava os olhos
E acelerava os batimentos cardíacos

De dos pés à cabeça tava ali pra mim,
Inteira.
De alma, nas letra tava quase tudo que ela sentia.
Sobre nosso beijo de despedida
De boa noite

Toda envergonhada ela me mandou um nudes de poesia.

E eu a amei


Ontem

Faça minha voz calar
Não
Melhor
Faça minha voz gemer
Meus olhos revirar
Como se agora fosse nunca mais
Como se nunca fosse

Ontem

Artur Áriston (Caburé, 2018)

 

Sobre o silêncio

         O Surdo não precisava tapar os seus; já os tinha obstruídos. Desconfiava, no entanto, que as máximas da finada Idelfonsa, de tanto lhe martelarem os ouvidos, e de lhe provocar irritação, acentuaram-lhe a surdez. Ele resistia a ouvi-la, de maneira quase inconsciente, e habituou-se a fechar os ouvidos também para os outros. E assim tecia uma teia cada vez maior de silêncios, em que vigiava e laborava e atentava, disfarçado a um canto, fingindo-se de aranha morta. Quem quiser que lhe caísse na teia. Bastava-lhe engolir um inseto de cada vez e recolher-se sobre si mesmo. O Surdo amadurecia nos silêncios. De meditação em meditação sentia-se crescer por dentro. Os outros não reparavam, porque presos às exterioridades do seu próprio ser, cujo valor superfaturavam. Há silêncios que falam por uma assembleia inteira, como também há silêncios inertes. É preciso saber ouvi-los, mesmo quando se tem ouvidos moucos, e neles distinguir vozes, ecos, ressonâncias, sussurros – os interlocutores de maior valia, porque não tendo como falar, entendem-se à sua maneira altamente discreta com quem os sabe acolher. O Surdo os amava, os defendia, saindo dos seus silêncios quando estes, por demais densos, por demais audíveis, conseguiam ferir-lhe os tímpanos emudecidos, expondo-o, então, ao vozerio atordoante do mundo.

 

Hélio Pólvora (fragmento de Inúteis luas obscenas, Casarão do verbo, 2010)

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A árvore envenenada

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Fotografia de imagem de Márcio Vasconcelos presente no livro-poema A árvore envenenada, de Celso Borges.

essa árvore foi envenenada

alonso ramirez não gostava
das folhas que caíam na piscina
e dos morcegos felizes
desabando velozes na noite sobre
alcântara

lá do alto a lua cheia
ilumina a lenha oca
declarando guerra à morte

árvore, árvore do tempo envenenado
daqui de baixo minha alegria te contempla


alcântara, 25 de agosto de 2018

(Celso Borges)

Entre a estrada e a estrela: três poemas de José Inácio Vieira de Melo

O que me move a continuar essa história sem roteiro
é a possibilidade de mergulhar no abismo.
Cada passo é um se jogar no vazio de cada segundo.

Em cada gota de sangue, o milagre da matemática
estabelece ritmos e formas – transformações
da paisagem que me compõe e que vou compondo.

Nas cores do arco-íris banho meu olhar e saio pronto
para colorir os sofrimentos que vou encontrando.

No meu movimento, gentes, geografias,
diamantes, espinhos, auroras, crepúsculos.
Viver é assim, mas amanhece e já aponta a noite.

Escolhi, então, apenas andar por aí,
cobrir-me com a poeira dos caminhos
e descobrir a verônica das estrelas.

O mundo foi feito pra gente andar, isso eu já disse,
é que este verso tem marcado meu ritmo,
e que tem me salvado das amarras do cotidiano.

O meu tempo é pouco, mas é certo também
que tenho todo tempo do mundo
e só quero sentir minha respiração.

 

Em todo lugar
explode a primavera.

e dois olhos brilham
como duas pérolas.

Sou eu a mostrar
minha solidão

às estrelas.

 

O que posso dizer de mim,
essa coisa neutra que quer ser vista,
e se ver, sem carecer de espelhos,
até chegar na essência?

Um neutrino,
um simples menino,
mínimo, mínimo, mínimo.

Só me resta sentir a luz do Sol,
que corre milhões de anos
para chegar até aqui,
fazendo carícias.

 

José Inácio Vieira de Melo 
(Entre a estrada e a estrela, Mórula Editorial, 2017)