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A árvore envenenada

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Fotografia de imagem de Márcio Vasconcelos presente no livro-poema A árvore envenenada, de Celso Borges.

essa árvore foi envenenada

alonso ramirez não gostava
das folhas que caíam na piscina
e dos morcegos felizes
desabando velozes na noite sobre
alcântara

lá do alto a lua cheia
ilumina a lenha oca
declarando guerra à morte

árvore, árvore do tempo envenenado
daqui de baixo minha alegria te contempla


alcântara, 25 de agosto de 2018

(Celso Borges)
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Entre a estrada e a estrela: três poemas de José Inácio Vieira de Melo

O que me move a continuar essa história sem roteiro
é a possibilidade de mergulhar no abismo.
Cada passo é um se jogar no vazio de cada segundo.

Em cada gota de sangue, o milagre da matemática
estabelece ritmos e formas – transformações
da paisagem que me compõe e que vou compondo.

Nas cores do arco-íris banho meu olhar e saio pronto
para colorir os sofrimentos que vou encontrando.

No meu movimento, gentes, geografias,
diamantes, espinhos, auroras, crepúsculos.
Viver é assim, mas amanhece e já aponta a noite.

Escolhi, então, apenas andar por aí,
cobrir-me com a poeira dos caminhos
e descobrir a verônica das estrelas.

O mundo foi feito pra gente andar, isso eu já disse,
é que este verso tem marcado meu ritmo,
e que tem me salvado das amarras do cotidiano.

O meu tempo é pouco, mas é certo também
que tenho todo tempo do mundo
e só quero sentir minha respiração.

 

Em todo lugar
explode a primavera.

e dois olhos brilham
como duas pérolas.

Sou eu a mostrar
minha solidão

às estrelas.

 

O que posso dizer de mim,
essa coisa neutra que quer ser vista,
e se ver, sem carecer de espelhos,
até chegar na essência?

Um neutrino,
um simples menino,
mínimo, mínimo, mínimo.

Só me resta sentir a luz do Sol,
que corre milhões de anos
para chegar até aqui,
fazendo carícias.

 

José Inácio Vieira de Melo 
(Entre a estrada e a estrela, Mórula Editorial, 2017)

 

O mistério das coisas, onde está ele?

O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.

 

“O Guardador de Rebanhos”. In: Poemas de Alberto Caeiro.

Na oração que desaterra a terra

Na oração que desaterra a terra
Quer Deus que a quem está o cuidado dado
Pregue que a vida é emprestado estado
Mistérios mil que desenterra enterra.

Quem não cuida de si, que é terra erra
Que o alto Rei, por afamado amado
É quem lhe assiste ao desvelado lado
Da morte ao ar não desaferra, aferra.

Quem do mundo a mortal loucura cura
A vontade de Deus sagrada agrada
Firmar-lhe a vida em atadura dura.

Ó, voz zelosa, que dobrada brada
Já sei que a flor da formosura usura
Será no fim dessa jornada nada.

 

Gregório de Matos (Poema de Gregório de Matos musicado por José Miguel Wisnik)

 

Desonra

Achou que ia acabar se acostumando. Mas não é isso que acontece. Quanto mais mortes ajuda, mas nervoso fica. Numa noite de domingo, ao voltar para casa dirigindo a Kombi de Lucy, chega a ter de parar no acostamento para se recuperar. As lágrimas lhe correm pelo rosto sem que possa controlar, as mãos tremem.

Não entende o que está lhe acontecendo. Até agora havia sido mais ou menos indiferente a animais. Embora reprove abstratamente a crueldade, é incapaz de dizer se é cruel ou bondoso por natureza. Simplesmente não é nada. Sempre achou que as pessoas cujo trabalho exige a crueldade, pessoas que trabalham em matadouro, por exemplo, desenvolvem uma carapaça em volta da alma. O hábito endurece: deve ser assim na maioria dos casos, mas não parece ser assim no seu caso. Parece não ter o dom do endurecimento.

Todo o seu ser fica tomado pelo que acontece naquela arena. Está convencido de que os cachorros sabem que chegou a sua hora. Apesar do silêncio e do procedimento indolor, apesar dos bons pensamentos que Bev Shaw fica pensando e que ele tenta pensar, apesar dos sacos hermeticamente fechados em que colocam os corpos, os cachorros do quintal farejam o que acontece lá dentro. Baixam os olhos, enfiam o rabo entre as pernas, como se também eles sentissem a desgraça que é morrer; travam as pernas e têm de ser empurrados, puxados ou carregados para a porta. Na mesa, alguns se debatem furiosamente de um lado para o outro, outros soltam ganidos melancólicos; nenhum olha para a agulha na mão de Bev, que de alguma forma sabem que vai lhes fazer um mal terrível.

O pior são aqueles que farejam e tentam lamber sua mão. Não gostou nunca de ser lambido, e seu primeiro impulso é tirar a mão. Por que fingir ser camarada, quando na verdade se é assassino? Mas ele acaba cedendo. Por que a criatura que está sob a sombra da morte teria de sentir que ele recua como se o seu contato fosse repulsivo? Então deixa que o lambam, se quiserem, assim como Bev Shaw os acaricia e beija se eles deixam.

Espera não se descobrir um sentimental. Tenta não sentimentalizar os animais que mata, ou sentimentalizar Bev Shaw. Evita dizer para ela “Não sei como consegue fazer isso”, para não ter de ouvir a resposta, “Alguém tem de fazer”. Não descarta inteiramente a possibilidade de, em um nível mais profundo, Bev Shaw não ser um anjo libertador, mas um diabo, de por baixo das mostras de compaixão ela esconder um coração mais duro que o de um açougueiro. Ele tenta manter a cabeça aberta.

Como é Bev Shaw quem se encarrega de enfiar a agulha, ele é o que se encarrega de desfazer os restos. Nas manhãs seguintes à sessão de sacrifícios, dirige a Kombi carregada até o incinerador do Hospital Settlers, e ali entrega às chamas os corpos dentro dos sacos pretos.

Seria mais simples colocar os sacos no carrinho do incinerador logo depois da sessão e deixa-los ali para o pessoal da incineração cuidar deles. Mas isso significaria deixa-los no depósito junto com o lixo do fim de semana: restos das alas do hospital, carniça coletada na beira da estrada, refugos malcheirosos do curtume – uma mistura ao mesmo tempo fortuita e terrível. Ele não tem coragem de impor essa desonra aos cachorros.

Por isso, nas noites de domingo leva os sacos para a fazenda na parte de trás da kombi de Lucy, passam a noite ali e na segunda feira de manhã vão para o hospital. Lá, ele próprio os descarrega, um de cada vez, para o carrinho de transporte, liga o mecanismo que leva o carrinho através da porta de aço para as chamas, puxa a alavanca para esvaziar o conteúdo e desliga de volta, enquanto os funcionários cuja função é fazer exatamente isso ficam olhando.

Na primeira segunda feira deixou que eles fizessem a incineração. O rigor mortis havia endurecido os corpos durante a noite. As pernas mortas ficavam presas nas barras do carrinho e, quando o carrinho voltava da fornalha quase sempre um cachorro voltava também, enegrecido e com dentes à mostra, cheirando a pelo queimado, a cobertura de plástico incinerada. Depois de algum tempo, os funcionários começaram a bater nos sacos com o cabo das pás antes de carregá-los, para quebrar os membros rígidos. Foi quando ele interveio e passou a fazer ele mesmo o trabalho.

O incinerados é alimentado a antracito, com um ventilador elétrico que suga ar pelos tubos; ele acha que deve ser dos aos anos 1950, quando o hospital foi construído. Opera seis dias por semana, de segunda a sábado. No sétimo dia, descansa. Quando o pessoal chega para trabalhar, a primeira coisa que faz é remover as cinzas do dia anterior, antes de carregar a fornalha. Por volta das nove da manhã a temperatura da câmara interna é de mil graus centígrados, quente o bastante para calcificar ossos. O fogo é alimentado até o meio dia da manhã; leva toda a tarde para esfriar.

Ele não sabe o nome do pessoal e tampouco sabem o dele. Para eles é simplesmente o sujeito que começou a vir às segundas feiras com os sacos da Bem-estar do Animais e que chega cada vez mais cedo. Chega, faz seu trabalho, vai embora; não faz parte da sociedade que, apesar da cerca de arame farpado, do portão com cadeado e do aviso em três línguas, tem como centro o incinerador.

Pois a cerca há muito foi cortada; o portão e a placa de aviso simplesmente são ignorados. Quando os funcionários chegam de manhã com os primeiros sacos de lixo dos hospital, um grupo de mulheres e crianças já está esperando para catar seringas, alfinetes, bandagens laváveis, qualquer coisa que dê para fazer dinheiro, mas principalmente comprimidos, que vendem nas lojas muti, de negros, ou nas ruas. Há também os vagabundos que passam o dia nos arredores do hospital e de noite dormem encostado na parede do incinerador, ou até mesmo dentro do túnel, por causa do calor.

Não é uma sociedade a que pense juntar-se. Mas quando está ali, eles também estão; e se o que ele traz não lhes interessa é porque os pedaços de um cachorro morto não servem nem para vender, nem para comer.

Por que assumiu esse trabalho? Para aliviar a carga de Bev Shaw? Para isso bastava descarregar os sacos no depósito e ir embora. Por causa dos cachorros? Mas os cachorros estão mortos; e o que sabem os cachorros acerca de honra e desonra?

Por ele mesmo, então. Por sua visão de mundo, por um mundo em que homens não usam pás para reduzir corpos a uma forma mais conveniente de eliminar.

 

J.M. Coetzee (fragmento do romance Desonra, Companhia das letras, 2000)

 

O escravo moderno

A mãe de um amigo em Alagoas morava numa casa enorme e paradisíaca, numa praia afastada, na Linha Verde. Obesa, mal caminhava. Precisava de uma tropa para deixar tudo em ordem. Seus filhos já crescidos e casados viviam em outras cidades. Mas ela fazia questão de manter a casa pronta para a grande família, como se todos ainda morassem com ela. Talvez na esperança de que voltassem um dia.  Ou por inércia…

Vira e mexe tinha uma criança diferente morando lá. Às vezes, cinco crianças. Com as domésticas, formavam uma fauna de trabalhadores pequenininhos. Ela dava teto, comida, saúde, saneamento, banho e até educação àqueles sem lar, sem família, sem nada. Os chamava a todo instante. Fulano, pega uma água. Fulano, o gelo. Fulano, derrubei, limpa aqui. Fulano, limpa o cocô do cachorro. Desentope meu sanitário. Fulano, compra jornal, compra sorvete, compra sabão, vai na farmácia, vai na venda, vai na padaria, vai no banco, volta pra farmácia, varre o quintal, colhe as flores, pega um cinzeiro. Me abana.

Como muitos senhores de escravos, há mais de cem anos atrás, pensava que fazia um bem a eles: dava um teto, um lar, comida, uma chance. Que formavam todos uma família. Seria melhor ao fulano estar ali, levando água, gelo, limpando o chão, o cocô do cachorro, desentupindo a privada, indo e voltando da farmácia, padoca, venda e banco, comendo do bom e do melhor, com roupa limpa e até um caderno e lápis, do que vadiando pelas ruas de uma região violenta sem água potável e com esgoto a céu aberto, na periferia de Maceió. Ali ele tinha perspectiva. Ali ele era bem tratado. Ali ele era alguém. Só que fulano não ganhava salário. Aí também é demais…

Foram tantos séculos de escravidão. Índios e negros. Não só o europeu como algoz. Índios que escravizavam índios de outras nações indígenas. Negros que vendiam negros para traficantes em Angola. Brancos em bandos que não conheceram outro sistema senão o de subjugar a liberdade de outro com correntes, castigos, chicotes ensanguentados. E, mesmo quando era proibido importar negros, traficantes os traziam às escondidas, descarregavam em portos clandestinos, num comércio que gerava muita, mas muita grana. Foram tantos os séculos em que tinha  mais escravos do que libertos no Brasil.

Nas ladeiras de Minas, nas usinas de Recife, nas fazendas do Vale do Paraíba, arrancando cana, ouro, café, amamentando a filha da patroa, carregando a patroa, carregando o patrão, charqueando, na plantação, na casa-grande, servindo, levando liteiras nas ruas de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Ouro Preto, sendo surrado em pelourinhos se desobedecesse. Tanto sangue rolou, tanta saudade de casa, tanta dor… Para empurrar uma economia que era toda movimentada pela escravidão. Para movimentar uma vida social que não conhecia outra forma de se relacionar. Foram tantos séculos que não nos acostumamos sem eles.

O limite do absurdo eram os brancos que alugavam seus negros para outros brancos, ou os negros autônomos que se alugavam para brancos, ou negros de brancos que alugavam e meavam os lucros com seus negros a outros brancos, para fingirem-se de seus escravos, nas ruas da capital, em eventos sociais, festas, lugares públicos, o que daria status ao membro da elite que determinava que subia no conceito quem tinha mais escravos aos pés.

Tudo isso se encerrou em 1888? Não, não acabou. Nem em 1988. Ainda é uma estagnação visível na engrenagem da cadeia social, uma alavanca do mercado, o combustível da economia. É costume. É cultural. A alforria não se completou até hoje. A escravidão está nítida. Ela não se extingue. Ela não desaparece. Nós é que, de tão habituados, não conseguimos enxergar.

Ela está nas relações trabalhistas não formalizadas, em prédios com dois elevadores, o social e o de serviço, nos cubículos de empregadas. Até pela lei, as domésticas não têm os mesmos direitos de não domésticos. Está no aeroporto, no shopping, no supermercado, na pracinha: enquanto a patroa fala no celular, a sua doméstica vigia, acode e acalma o filhinho.

O avô de um conhecido tinha uma fazenda perto de Porto Feliz, Sorocaba. Plantava cana e café, cujas colheitas se revezavam, uma na primavera, outra no outono. Pelos pastos, criava gado. Era uma fazenda de mil alqueires, enorme. Dava dinheiro. Tinha agrônomos, especialistas, administradores. Era um negócio.

Tinha uma sede enorme, em que ficavam os filhos do avô do meu amigo, as noras, com os vinte netos e mais convidados. Muita gente da própria região trabalhava lá, especialmente como domésticos: a cozinheira negra que mandava mais do que a avó, o mordomo gay, que servia de jardineiro e motorista, as arrumadeiras. As empregadas domésticas da família, que morava entre São Paulo e Sorocaba, como a babá do  meu amigo, eram de Porto Feliz. Eles as “importavam”.

No entanto, o avô precisava de mais  trabalhadores braçais que aguentassem  o tranco. Porto Feliz era uma cidade pequena, não tinha mão de obra suficiente. Nos anos 1950, ele importava trabalhadores  de Alagoas, que vinham num pau-de-arara. Eram os “alagoanos”, e sua chegada era um acontecimento. Era como índios chegando na Corte Portuguesa. Ou negros desembarcando nos portos de Angra, Ubatuba,  Rio, Salvador.

Os solteiros ficavam numa grande pousada de madeira, chamada de Clube dos Solteiros. Para os casados, tinha muitas casinhas enfileiradas, com varanda, sala, dois quartos, cozinha e banheiro, tudo muito digno.

Muitos nunca tinham visto uma privada na vida. Nos primeiros dias, a avó e as tias do meu amigo os ensinavam a usar. Alguns se confundiam e colocavam lenha na privada e acendiam. Outros bebiam água dela. A família se sentia bem em dar conforto e um rastro de civilização para aqueles sertanejos que não sabiam acender a luz num interruptor, não entendiam o que era uma tomada, não sabiam trocar uma lâmpada.

Os trabalhadores não faziam contas, não estavam acostumados a relações comerciais, manejar moeda, troco, poupar. Para facilitar a vida de todos, o avô criou uma moeda, chamada cariri, o nome da fazenda, que imprimia numa gráfica de Sorocaba. Uma moeda paralela. Que só era aceita na venda da fazenda, uma lojinha da avó, que ficava no Clube dos Solteiros, e num supermercado na entrada de Eldorado, que era do  pai do meu amigo.

Para todos, era uma solução brilhante. Dinheiro não circulava à toa. Evitava-se que aquela pobre gente, que só conhecia o escambo, gastasse em produtos desnecessários, especialmente em pinga. No entanto, a moeda, como toda a moeda, passou a ter câmbio, a ser trocada na cidade pela verdadeira moeda, o cruzeiro.

Trabalhadores trocavam cariris por cruzeiros. Comerciantes começaram a aceitar cariris com deságio. O avô criara um país dentro de outro. Trocava-se cariri por cruzeiro na praça à luz do dia. Logo, logo, a população criou uma bolsa de negócios informal para especular com as moedas.  A confusão aumentou tanto, que a família teve que extinguir a moeda. Mas como fazer para pagar os empregados sem pagar? Inventou uma caderneta nominal. Que só era possível usar na lojinha do Clube dos Solteiros da avó ou no supermercado do pai do meu amigo. O dinheiro não saía dos cofres. Só um  de mentira.

Se o funcionário quisesse dinheiro de verdade, papel-moeda, cruzeiro mesmo, para gastar como bem entendesse, não tinha. Seu salário era uma caderneta, um livreto. Reclamar com quem, com o prefeito? O avô era o prefeito. E o pai do meu amigo, o juiz do Fórum mais próximo.

 

Marcelo Rubens Paiva

O navio negreiro

I
‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu …
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! …

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte!…
… Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! …

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 

Castro Alves