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Solo un destino poseo

Solo un destino poseo.
(Y la sospecha
de que resbala de mis manos
sin poderlo reclamar)

Solo una contracción espiritual
ante un espejo que nada dice.
(Y la certidumbre
de que la araña existe
a pesar de su belleza inútil)

Unas manos precursoras,
unos ojos temerosos de la noche
y unas cuantas vidas aplazadas
tan sólo poseo.

 

Só um destino possuo

Só um destino possuo
(E a suspeita
de que escorre de minhas mãos
sem poder reclamá-lo)

Só uma contração espiritual
frente a um espelho que nada diz.
(E a certeza
de que a aranha existe
apesar de sua beleza inútil)

Umas mãos precursoras,
uns olhos temerosos com a noite
e algumas vidas suspensas
tão somente possuo.

 

Irina Henríquez (A riesgo de caer, 2012, Ediciones Carazón de mango)
Tradução livre: Lílian Almeida

 

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Traduzir-se

Uma parte de mim é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim é multidão:
outra parte estranheza e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Ferreira Gullar In Na vertigem do dia, 1980.

O cercado

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe

feito pelas tuas mãos

e fios do teu cabelo

cortado na lua cheia

guardado do cacimbo

no cesto trançado das coisas da avó

 

Onde está a panela do provérbio, mãe

a das três pernas

e asa partida

que me destes antes das chuvas grandes

no dia do noivado

 

De que cor era a minha voz, mãe

quando anunciava a manhã junto à cascata

e descia devagarinho pelos dias

 

Onde está o tempo prometido p’ra viver, mãe

se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera

p’ra lá do cercado

 

Ana Paula Tavares (Do livro Amargo como os frutos)

 

Como la cigarra

Tantas veces me mataron
tantas veces me morí
sin embargo estoy aquí
resucitando.
Gracias doy a la desgracia
y a la mano con puñal
porque me mató tan mal
y seguí cantando.

Tantas veces me borraron
tantas desaparecí
a mi propio entierro fui
sola y llorando.
Hice un nudo en el pañuelo
pero me olvidé después
que no era la última vez
y volví cantando.

Tantas veces te mataron
tantas resucitarás
tantas noches pasarás
desesperando.
A la hora del naufragio
y la de la oscuridad
alguien te rescatará
para ir cantando.

Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.

 

María Elena Walsh

 

XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas – 4

Finalizando a partilha da poesia que encontrei no XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas, em Cereté, Colômbia, compartilhando um pouco da arte da poeta colombiana Yirama Castaño Güiza.

El silencio de los bosques

A lo lejos,
un pájaro canta
en honor del Dios de los árboles.
Nadie, entre aquellos que conversan,
se ha dado cuenta de la mudez
que mueve sus alas.


O silêncio dos bosques

Ao longe,
canta um pássaro
em honra ao Deus das árvores.
Ninguém, entre aqueles que falam,
se deu conta da mudez
que move suas asas.


Un parque natural

En ese extraño lugar
cada día tiene una única palabra,
cada sombra busca su destino
cada boca pronuncia una oración
cada animal entierra bajo la luna su propia piel
cada hombre prolonga la mano a su manera
    y dibuja líneas blancas en la selva. 
En ese maravilloso lugar
cada flor es primavera
cada sonido es un pájaro
y los pequeños aprendices
dan vuelta a la memoria
raspan olvidos,
anudan el hilo
y cortan el tiempo
     con sus dientes.


Um parque natural

Nesse estranho lugar
cada dia tem uma palavra única,
cada sombra procura seu destino
cada boca pronuncia uma prece
cada animal enterra sob a lua a própria pele
cada homem estende a mão a sua maneira
    e desenha brancas linhas na selva.
Nesse maravilhoso lugar
cada flor é primavera
cada sonoridade é um pássaro
E os pequenos aprendizes
enovelam a memória
alisam esquecimentos,
amarram o fio
e cortam o tempo
     com seus dentes.


Poemas: Yirama Castaño Güiza
Tradução de Marcia Pfleger

 

Al aire libro_2017

Imagem cedida pela poeta

Yirama Castaño Güiza nasceu em Socorro, Santander – Colômbia. É jornalista e editora. Participou da criação e fundação da Revista e da Fundación Común Presencia. Faz parte da assessoria do Encuentro Internacional de Mujeres Poetas de Cereté, Córdoba. Seus poemas são traduzidos e publicados na Colômbia e no exterior. Participou de importantes festivais de poesia na Colômbia e em encontros internacionais de escritores. Livros publicados: Naufragio de luna, 1990; Jardín de sombras, 1994; El sueño de la  otra, 1997; Memoria de aprendiz, 2011; Malabar en el Abismo (antología), 2012; Poemas de Amor (Yirama Castaño, Josefa Parra), 2016; Corps avant l´oubli, Cuerpos Antes del Olvido (Yirama Castaño, Stéphane Chaumet e Aleyda Quevedo), 2016; Antología Poética Ventre de Lumiére, Vientres de Luz, 2017, Queda la Palabra Yo, Antología de poetas colombianas actuales, seleção Verónica Aranda, Ana Martín Puigpelat.

 

 

XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas – 3

Dando continuidade à partilha de um fragmento da poesia que colhi no XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas, em Cereté, Colômbia, apresento a poeta francesa Ada Mondès e seu poema Errâncias.

Errances

 

Là où les Hommes oublient d'aller
les montagnes sont criblées de fleurs et de trous de serrures
orbites creuses de géants
bouche de la fée pétrifiée dans le sel
des enfants d'argile
des galeries pour l'âme

Si je marche là-bas
ma clé imaginaire m'ouvre toutes les portes
les sanctuaires dans la roche

La poésie toujours a sa demeure dans le ventre des montagnes
là où toutes les pierres ont un visage

 

Errancias

 

Donde los Hombres olviden ir
las montañas están acribilladas de flores y de ojos de cerraduras
órbitas huecas de gigantes
boca del hada petrificada en la sal
niños de arcilla
galerías para el alma

Si camino allí
mi llave imaginaria me abre todas las puertas
los santuarios en la roca

La poesía siempre tiene su hogar en el vientre de las montañas
dónde todas las piedras tienen un rostro

 

Errâncias

 

Onde os Homens se esquecem de ir
as montanhas estão cravadas de flores e buracos de fechadura
órbitas ocas de gigantes
boca de fada petrificada de sal
crianças de argila
subterrêneos para a alma

Se caminho por aí
minha chave imaginária abre todas as portas
os santuários na rocha

A poesia sempre tem seu lugar no ventre das montanhas
onde todas as pedras têm rosto


Poemas: Ada Mondès
Tradução: Lílian Almeida
Revisão: Ada Mondès e Lílian Almeida

 

Ada

Imagem disponibilizada pela poeta.

 

Ada Mondès nasceu em  Hyères (França) em 1990. Seguiu diferentes caminhos para explorar varios campos artísticos: cinema e teatro, dança, canto, música e escrita. Estudou idiomas e literaturas estrangeiras e suas experiências a tem levado a uma vida nômade, acompanhada de poesia. Publicado pelas Ediciones Villa-Cisneros (2017), Les Témoins – Los Testigos é o seu primeiro livro de poemas, em edição bilíngue (francês- español) cuja tradução é dela mesma. Participou do Festival internacional de poesia de Camps-la-Source (Francia) em abril 2017, do Festival internacional de poesía de Guayaquil Ileana Espinel Cedeño (julho/ 2017) no Equador, do Encontro internacional de mulheres poetas de Cereté (novembro/ 2017) na Colômbia e é convidada da Feira do livro de Havana em Cuba (fevereiro/ 2018). Ada Mondès está instalada agora em Quito (Equador), onde escreve em espanhol e traduz-se para o francês.

XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas – 2

Dando seguimento à partilha de um fragmento da produção de mulheres que conheci no XXIV Encuentro Nacional e Internacional de Mujeres Poetas, em Cereté, Colômbia, trago a espanhola Jèssica Pujol Duran com uma parte do poema longo que constitui o livro Entrar es tan difícil salir.

 

Jèssica Pujol Duran

 

divisiones abstractas
consecuencias reales
       sangre
animales que cazan
índices que escogen
       las imágenes
       que silencian
       la catástrofe
       se pa rán do nos
de lo primero           
       que nunca fue
de tu cuerpo 
que nunca

divisões abstratas
consequências reais
       sangue
animais que caçam
índices que escolhem
       as imagens
       que silenciam
       a catástrofe
       nos se pa ran do
do primeiro  
       que nunca foi
do teu corpo
que nunca



       puertas giratorias
dentrodelcentro
       ventanasenventa
       todo es posible
en temporada equivocada
comprar es pretérito
       el futuro un probador
       la fe un andamio de espejos


       portas giratórias
dentrodocentro
       janelasemvenda
       tudo é possível
na temporada equivocada
comprar é pretérito
      o futuro um provador
      a fé um andaime de espelhos


Poema: Jèssica Pujol Duran (Do livro Entrar es tan difícil salir)
Tradução: Virna Teixeira

Jèssica Pujol Duran é poeta, investigadora e tradutora. Escreve e traduz em catalão, inglês e espanhol. Publicou três livros: Now worry (Department, 2012), em inglês, El país pintat (El pont del petroli, 2015), em catalão e Entrar es tan difícil salir (Veer Books, 2016) em espanhol com tradução para o inglês de William Rowe. Foi poeta residente na Universidade de Surrey (2013-2014). Dirige a revista de poesia latinoamericana traduzida Alba Londres e atualmente desenvolve um projeto de pós-doutorado na Universidade de Santiago do Chile.