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Corpo de água, porto seguro, coroa vermelha.

Para Ubiranan Pataxó

Escrevo, no corpo de águas do lugar onde habito, palavras que não disse porque não sabia. Desnecessário falar quando sentir é o idioma que une meu ser a outros. Havia encontro por caminhos não sabidos. Sentidos. A minha íris, talhada no sem tempo, sabia da sua e das outras. Sabia de tudo, mesmo eu não sabendo.

Teu olhar negro navegou o meu, na Coroa Vermelha de corais e penas e cocares dentro da taba de teus artesanatos. Meu olhar velejou céus e estradas em busca de mim mesmo, desde Salvador, Abrolhos e Porto Seguro. Segura é a rota que conduz ao que sou. No barco, à procura, segui rumos de índios e brancos. Ameríndios e portugueses. Eu, negra, mas não apenas.

Minha íris relembra minha tataravó índia cativa. Meu avô filho de português. Meu avô filho de negro escravizado. Meus pais negros de mistura anterior. Indo ao fundo de quem sou ou fui me encontrarei? Incerta, a resposta. Seguro é seguir. Vou.

O mar de abrir os olhos depois de Caravelas é abraço de paz. Tudo o que preciso e me dou. Jubartes saúdam pessoas. Irmanados estamos pelo ato de mamar, mas não apenas. A mãe e a cria, afeto seguro, simples. Puro estar, ser. Ensinanças para meu saber humano, pretensioso de livros e diplomas.

Mar. Ir, voltar. Rota imprecisa no preciso rumo onde a chegada é começo de um novo partir. Ciclicidade, o mar sempre me diz, e não só ele. Abro os ouvidos para aprender o canto inaudível sem a câmara do coração. Fragatas, gravínias, atobás, o mar, as pedras. Meu desejo é ser canção na sinfonia natural da vida.

O mar é um mistério que desconheço, mas amo. Meus companheiros vão mais longe, perscrutam o que ali ficou naufragado. Abrolhos. A vida que se edifica como se pedra fosse é o segredo da existência: firmeza e fragilidade: coral. Para ser grande, sê inteiro.

O coral vermelho me leva de volta à Coroa e ao desejo de inteireza que carrego por dentro. Coroa vermelha de corais. Canal de acesso ao ventre da mãe: terra. Procuro teus olhos no passado tão presente no meu corpo de águas. Banho-me sem molhar nas mesmas e diferentes águas onde eles aportaram no dia em que abril fez-se abertura: vinte e dois.

Tua presença me chama e eu já nem sei onde é, onde vou. Aguardo o fluxo, a corrente de vento ou mar que me conduza. Canção pataxó me abraça enquanto espero. É o começo do que já era. A maraca ressoa seus guizos, varrendo em sons o que não convém. Tu vens vestido de índio porque índios és e saúda-me em idioma teu. Agradeço e já não sou apenas eu. Algum dia fui?

Gentil mão de garoto convida e conduz a minha ao clã, onde não pertenço, mas sinto-me parte. A mãe, o pai, os filhos. Índios. Saberes ofertados no alimento, nas ervas, no artesanato. Artesanias tecidas de vida, atavicamente escritas nas linhas das mãos, dos rostos. A oca é o terreiro por onde meu olhar passeia revendo o passado e suas dores. Meus olhos choram. Cada cocar me conta uma história de vida e morte. Guerreiros se apresentam e exibem vitórias em dentes de javalis ou afins. Há um sem número de índios à minha volta e eu choro. Por que cravejaram-lhe a inocência?

Eu sinto. Muito. Sinto muito, grito surdamente para que o Sol me compreenda e a Lua se compadeça de mim, dos meus. Perguntas o que há com os meus olhos e não posso negar ou mentir. Tirei as capas em que me protegi um dia, agora estou só o que sou. Choro e não há cisco, senão uma dor cravada no peito e um sinto muito gritado na garganta. Olho-te nos olhos para dizer o que não pronunciarei porque no silêncio tudo é mais potente. Sem falas não há equívocos, ficamos cada um com a essência do que sentimos e é tudo o que é necessário.

Me falas de Deus e eu escuto como quem ouve uma oração rezada por todos nós. Escreves, também tu, no corpo de águas do teu povo, também meu, uma esperança e uma salvação. Uma águia nos abraça com o vento das suas asas porque sabe que tu e eu somos ambos filhos dela. Oferta-nos seus olhos de ver além da distância para enxergamos onde falha a visão. Aceito. Assim seja, pois assim é.

Reencontro a tua face pintada em vermelho e negro. Encontro novamente o teu olhar e nele o olhar dos nossos. Consagras a mim com o cocar porque agora estamos irmanados pelo olho da águia. Me sinto inteira por dentro. Tomas a minha mão na tua e os nossos olhares sabem o que as palavras não conseguirão dizer. O meu afeto transpassa teu corpo e o dos teus irmãos pataxós, kariris, fulni-ôs, tabajaras, … Lá fora, uma cruz testemunha Deus em nós e uma história retecida com águas no corpo da terra chamada Brasil.

Lílian Almeida

 

Reversus

Olhei-me, hoje, no espelho e não me vi. Era outro o rosto. Desfigurado.
Fitei para ver se enxergava o que via.
Tinha cara de escárnio, rindo dor e dizimação de negros lançados em camburões, valas, navios, mar.
Insisti para ver, e vi.
Arrogância subjugando mulheres transpassadas pela estupidez de um membro hirto, humanamente flácido. Dedo em riste, braço empunhado. Nenhum indício de gente escorrendo seminalmente.

Estapafúrdia visão.

Procurei minhas pupilas pretas no vidro. Escorreguei no sem tempo.
Mazelas acordaram meus olhos. Eu e meus remendos de gente. Visitei as pequenas mortes que cometi.
As prepotências mínimas de não saber quem sou. Você sabe quem eu sou?
As violências miúdas que empunhei por autoritária autoridade. Aqui sou eu que mando.
Vi a ideia maquinar a mente construindo proveito próprio sobre a falta do outro.
Vi somente o meu rosto e não vi a cara de mais ninguém em cada face que cruzei.

Estapafúrdia visão. Espelho meu.

Minhas desumanidades coladas no espelho onde (não) me vi. Perplexa, esfrego os olhos. Dilatado o meu olhar, enxergo fora do espelho o espelho meu.

Lílian Almeida

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Imagem disponível em: https://cdn.pixabay.com/photo/2015/10/24/11/09/drop-of-water-1004250_960_720.jpg

Estudar pra ser alguém na vida

A linha do tempo na rede social de um amigo me chamou a atenção para o ato de rebeldia contra o sistema de quem nasce pobre: estudar. Concordei de pronto. Conhecia bem o assunto, alisando cadeiras e cadeiras de escolas e universidades. Rebelde!

Estudar pra ser alguém na vida. Era esse um dos lemas dos meus pais. Eles estudaram o quanto foi possível em suas trajetórias cheias de engasgos e tropeços, pretos e pobres como os nossos mais velhos e como eu e meus irmãos, que viemos depois. Chegaram longe diante da falta de expectativa e da dignidade duvidada quando eles ainda eram jovens. Esperavam que lhes abraçasse o sem rumo. Reverteram o leme, singraram mares revoltos e dignificantes, como muitos dos seus, dos meus, dos nossos. “A vida só é dura pra quem é mole”, dizia meu avô. Eles foram mais duros que ela. Na força, definiram que o caminho melhor era feito com estudo. Então, já viu, né? Estudar virou lema. O legado para mim e meus irmãos? Educação. Nada mais. Era tudo, o melhor que eles poderiam dar pra nós.

No começo, obedeci por respeito. Depois, peguei gosto e continuei por falta de outra opção que enchesse os meus olhos. Estudei, estudei e ainda o faço. Eis um dos meus fazeres cotidianos na profissão que exerço. Uma amiga agradece sempre aos pais por ter sido alfabetizada. Eu também! Muito da riqueza que sou é porque sei ler. Não fosse isso, seria mais pobre do que a realidade que os meus recursos de professora me permitem prover.

Estudava porque era meu dever levar boas notas para casa. Meus pais abriram mão não sei de quantas coisas para garantir escola para os filhos e sustentar a máxima que eles não cansavam de lembrar. “Estudar pra ser alguém na vida.” Àquele tempo eu não fazia ideia do que podia significar ser alguém na vida. Inocência. Achava apenas que precisava estudar para dar-lhes gosto. Às vezes, eles relacionavam estudar com ter um futuro melhor. Futuro. Era tudo muito vago. Só quando a gente passou a estudar fora do bairro no subúrbio ferroviário, em Itapagipe, onde a minha avó morava, é que eu comecei a entender que a vida é muito hostil fora da saia da minha mãe ou da barra da calça do meu pai.

O subúrbio ferroviário ainda dói a minha infância no outro lado do mar. Foi no outro lado do mar que eu descobri que era pobre e preta. Descobri também que a inocência não é atributo de toda a infância. Ilusão. Eu e minha vizinha tínhamos tratamento diferenciado lá. Desconfio que por conta das distintas aparências. Eu, uma menina pequena, magricela, negra e suburbana. Ela? Também uma menina pequena, magricela e suburbana. Para um bom leitor, poucas palavras são suficientes para decodificar o mundo. Compreendi o que era a tal da “boa aparência” que eu lia nos classificados do jornal que o meu pai comprava aos domingos. A escola fora do bairro onde eu morava me trouxe mais do que as lições dos livros.

Ali, eu começava a deduzir que era ninguém e que poderia vir a ser alguém, se estudasse. Imaginava que ter um futuro melhor poderia incluir não comer miolo de boi, que eu detestava, comprado na mão da vizinha fateira. A ideia de ser alguém na vida e ter um futuro melhor se tornou sedutora pra mim. É claro que eu queria não me sentir excluída na escola, particularmente no recreio, mas não sabia se estudar resolveria isso. Também desejava poder ir ao cinema fora da premiação das férias, se tivesse boas notas. Ambicionava poder ganhar presente no dia das crianças e no aniversário, ambos no mesmo mês. Obediente, estudei e sonhei com o que eu compreendia sobre ter um futuro melhor.

Ficava engasgada aquela coisa de “ser alguém na vida”. Eu estava viva e era alguém, uma pessoa. Como assim, ser alguém se eu já era?… Ou achava que era. Essa parte foi muito complicada por muito tempo. Quando entrei na universidade pública, descobri que fazia parte do 1% de negros que estavam no ensino superior, no final do século XX. Exclusão. Felizmente de lá pra cá isso mudou, agora temos mais negros com oportunidade de fazer um curso superior e ter mais recursos para seguir a labuta pelo reconhecimento profissional em pé de igualdade com profissionais não negros. Eu sentia que todas as pessoas que eu conhecia, e mesmo as que eu não conhecia, (e eu pensava muito nas pessoas do meu bairro) contribuíam, com os impostos que elas pagavam, para que eu estivesse ali, entre aqueles 1%. Agora eu precisava mais do que tirar boas notas. Eu precisava ser alguém para que eles também fossem. Eu continuava não sabendo bem o que era isso, mas sentia que precisava fazer da universidade uma experiência extraordinária na minha vida e na daqueles a quem fosse possível transmitir aquela vivência.

De lá pra cá eu não deixei de me lembrar de quem provê o custo do funcionamento do bem e da instituição públicos: eu e todos os cidadãos brasileiros. Não esqueci que a oportunidade de cursar uma universidade pública foi degrau indispensável para me levar onde estou agora, em outro segmento dentro dela.  Continuo querendo ser alguém, uma versão melhorada em todos os aspectos do alguém que sou até o momento. Hoje, eu acredito que meus pais, eu e meus irmãos sempre fomos alguém, mesmo quando nos queriam ninguém, quando não nos enxergavam ou faziam de conta não nos ver. Imagino que a invisibilização que conheci cedo, na escola, era uma estratégia para a gente sumir mesmo, ficar no subúrbio, na periferia, na senzala. E várias vezes tudo o que eu quis foi sumir. Fazer parte daquele 1% é visibilidade, é afirmar ser alguém. Ser uma mulher negra e nordestina cursando um doutorado num estado do sul do país é visibilidade, é ser alguém. Ser a primeira pessoa com doutorado na minha família é visibilidade, é ser alguém para que os meus sejam. Ser professora numa universidade pública e dar aulas no sertão da Bahia é ser alguém para que os meus alunos e seus familiares também sejam. Ser alguém é assumir, conscientemente, um lugar onde quer que se esteja.

Parece que quando os meus pais diziam a sua máxima, para mim e para meus irmãos, queriam afirmar a importância de se ter uma postura consciente diante da vida, diante do lugar social em que se está; coisa que o estudo traz, mas não só o estudo. Só o estudo, formal ou informal, nos dará condições de desvendar as estruturas a que estamos submetidos e subvertê-las. Estudar pra ser alguém na vida é o mesmo que ser rebelde, rebelar-se contra uma engrenagem excludente e opressiva para pretos e pobres, é o mesmo que estava na linha do tempo do meu amigo. No começo, fiz por obediência, hoje, por escolha, por crença: à medida que eu sou, todos à minha volta são comigo. Todos os dias exercito jeitos de ser, cada vez mais, alguém na vida. Encontrei um jeito de honrar a sabedoria dos meus pais.

 

Lílian Almeida

Plástica

Ela tem uma mania. Me dê os documentos para colocar num saquinho plástico. Sempre tem algum por perto para preservar os documentos, os alimentos. Faz coleção de vasilhames plásticos para a cozinha, variadas cores e formatos. Ponho as saladas nos verdes com tampas transparentes, conserva por mais tempo e identifico rápido o conteúdo. Vermelho para as carnes vermelhas. Azul para os peixes. Considera os polímeros e polietilenos os grandes compostos da química. O plástico? Uma invenção humana espetacular! Não imagino a vida sem eles. Como eu ia guardar, conservar, organizar a minha vida? Impossível.

Envelopes plásticos incolor para os documentos. Classificadores polietilênicos coloridos com etiquetas para os planos de aula, as atividades e avaliações de cada turma. Os livros guardados em plásticas caixas arquivos identificadas pela série a que se destina. Os sapatos? Transparentes plásticos envolvem-nos dentro do armário. Para qualquer lado que se olhe um objeto plasticamente posicionado. Além do mais, eles têm vida longa. Conservam os outros e a si próprios. Ela preservava tudo à sua volta. A durabilidade dos anos de vida não lhe deixou escolha: fez plástica no corpo todo.

 

Lílian Almeida (publicado inicialmente no OXE: portal da literatura baiana contemporânea)

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