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Plástica

Ela tem uma mania. Me dê os documentos para colocar num saquinho plástico. Sempre tem algum por perto para preservar os documentos, os alimentos. Faz coleção de vasilhames plásticos para a cozinha, variadas cores e formatos. Ponho as saladas nos verdes com tampas transparentes, conserva por mais tempo e identifico rápido o conteúdo. Vermelho para as carnes vermelhas. Azul para os peixes. Considera os polímeros e polietilenos os grandes compostos da química. O plástico? Uma invenção humana espetacular! Não imagino a vida sem eles. Como eu ia guardar, conservar, organizar a minha vida? Impossível.

Envelopes plásticos incolor para os documentos. Classificadores polietilênicos coloridos com etiquetas para os planos de aula, as atividades e avaliações de cada turma. Os livros guardados em plásticas caixas arquivos identificadas pela série a que se destina. Os sapatos? Transparentes plásticos envolvem-nos dentro do armário. Para qualquer lado que se olhe um objeto plasticamente posicionado. Além do mais, eles têm vida longa. Conservam os outros e a si próprios. Ela preservava tudo à sua volta. A durabilidade dos anos de vida não lhe deixou escolha: fez plástica no corpo todo.

 

Lílian Almeida (publicado inicialmente no OXE: portal da literatura baiana contemporânea)

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Cinza de monturo

A urna. Abriu-a junto ao lago do parque. Lágrimas suspenderam um pó fino dentro da caixa. Olhava e não via aquele instante, o passado frio na memória acesa. Os restos dele desfaziam-se no vento antes de tocar a água. Quarenta e oito horas, meses, anos. O velório do marido enfartado. O coração saturou de sebosas emoções, explodiu, ela dizia. Por baixo das cinzas, brasa.

Menina, dezesseis anos, o quarto cor de rosa, a foto do noivo na penteadeira. Recato e castidade. Filha minha é moça direita, namorado tem que respeitar. Ele respeitava, se encolhia no desejo espaçoso de rapaz homem feito. Se espalhava nos flertes e namoros sem obrigação de casar. Ela, doce, delicadeza em voz de pêssego, no chamar de meu amor. Ele, troante voz em carinhos e presentes declarados como amor. Ela preparando o enxoval, era moça pra casar. Ele reconhecia e se esmerava em preparar o lar. Casamento é coisa séria, se Deus uniu o homem não tem que desmanchar. Marcha nupcial, vestido branco, aliança, beijo, arroz.

Um teto, duas cabeças. Similitudes, dessemelhanças, convergências para o mesmo morar. Delicadezas e carinhos e afagos. Meu amor. Meu amor. Onde está o meu pijama? Você esqueceu a toalha molhada na cama. Você sabe que eu não gosto de cebola. Não deixe os sapatos na sala. O cor de rosa escorria pela toalha. Ela exímia no perfume e no corpo fresco do banho. Ele chegava, beijava, não comentava. Não repare, meu amor, eu sou mesmo assim. Ela reparava. O cotidiano imprimia novos tons, para longe o rosa  adolescente.

O choro exigia colo e o peito na manhã antes da aurora. Resoluta, dividida entre a cama e o berço, entre o sonho, o sono e a vigília. O sonho. O primeiro filho, encanto na maternidade desejada. O primeiro peito rachado, sangrando rosa na boca do menino. Ele trazia as fraldas, as mamadeiras. Ela amamentava, ninava, balançava o berço, cantava e deitava na cama na hora de levantar. Cólicas, choro. Dentes, choro. Quedas, choro. Mamãe. O peito caído, a barriga caída. Ela afundada no corpo que não era mais. Corpo de desejos. Ele e o urro de trovão no desejo convergindo para o desejo dela. Ela e o arfar de pétala no gozo sobre o gozo dele. O corpo não mais o corpo. O corpo ainda um corpo.

O choro acendia a madrugada. Fraldas, mamadeiras, berço, cantigas. O segundo filho. O mesmo ficar acordada. Diferente acalentar, amamentar. O bico do peito resistente. Uma flor láctea molhada no peito cheio. As madrugadas acesas no quarto do bebê. Ele dormia sonhos de salários altos e o carro novo e o futebol no fim de semana. Ela cochilava desejos de filhos saudáveis, casa arrumada e uma noite inteira para dormir. O choro, o sobressalto no refluxo cheio de medo. Medo de engasgar. Medo de não respirar. Medo de perder o filho. Cólicas, dentes, quedas. Consistência e segurança em cuidar. Outra vez o peito mais que caído. A barriga murcha. Estrias, flacidez. O corpo já era. Ele ampliando as rugas dela. Ele exaltando o atlético dele. Ela se desfalecendo na pele sobressalente, se diminuindo no aumentado peso. Ele se exercendo na voz de trovão sobre a voz de pêssego. Ele e ela no rosa derretido que manchava as paredes da família. Cinzas espalhavam-se sobre os bibelôs.

O velório do marido enfartado. O coração saturou de sebosas emoções, explodiu, ela dizia. Por baixo das cinzas, brasa. Os filhos doíam em faces molhadas ao lado da mãe. O coração dela descontraía de pesados anos.

A casa era uma casa para quatro. O pai, a mãe, o filho, outro filho. Os quartos eram pra dois: dois pequenos, dois maiores. Carros, bolas, bonecos, heróis. Infância no quarto dos meninos. Cama, almofadas, toalha molhada, cortina embolorada. Enfado no quarto dos pais. Fado? Se Deus uniu o homem não tem que desmanchar. Ele chegando tarde. Os meninos dormindo cedo.  Ela acordada no esperar. Ele cheirando a bebida, a perfume de mulher. Ela dizia, ele reagia. O que você queria, sua gorda? Ela se encolhia nas dobras do corpo. Emagrecimento. Casamento. Dietas. Recompôs as refeições em light. Refez os lanches em diet. Elevador? Escadas. Esmerava-se por deixar os quilos longe. Ela diminuía. Busto, cintura, quadril. Ela falava das roupas folgadas. Ele não ouvia, não via, não comentava. Ele não reparava, ele era mesmo assim. Ela notava, aceitava. Mais se exigia no emagrecer. Um dia ele notaria? Aguardava.

Os filhos. Ela se alegrava com a saúde dos meninos, com a alegria deles, as brincadeiras. Felicidade única, era mãe de seus filhos. Preparava festinhas de aniversário, ía ao pediatra, levava para a escola, ensinava a lição. Educação, crenças, valores. Respeito, meu filho, pelas pessoas. Que brinquedo é esse? Onde você pegou? Devolva! Não se pega no alheio. Por que você agrediu a coleguinha? Em mulher não se bate nem com flor. O pai, voz de trovão e medo. Medo de o pai brigar. Medo de apanhar. Medo de ficar de castigo. O pai trazendo brinquedos. O pai trazendo livros. O pai trazendo camisinha. Filho meu é macho desde cedo. Cadê as meninas da sua escola? E as do prédio? Amizade da infância? Homem não tem amizade com mulher. Ela se retorcia. Ele dizia como era e como seria. Os filhos, as garotas, a virilidade rija. Ela semidizia. Respeito, meu filho, tudo com respeito.

Ele chegando tarde com rosto de riso. Ela esperando com rosto de raiva. A comida fria na mesa. O corpo frio na cama. Ele para um lado, ela para outro. A vizinha inquietava. Como podia? Ele é bonito,  você também. Ele não quer? Dê pra outro. Como fazia? Impelia-se em aprender os truques da amiga. Tome banho, perfume-se e deite nua. Só o lençol. Nua? Não conseguia. Ela na cama, calcinha e lençol.  A pele e a pele no virar-se dele. O frescor de banho e o calor de brasa. Ele lembrando do corpo dela, do cheiro dela. Ele retornando para ela? Ela indo para ele. Ela espanava as cinzas grudadas na pele, na vida. Um dia, dois, alguns. Manhãs em riso e café quente. Ela penteava-se, perfumava-se e vestia-se para o marido recém chegado. Beijos e jantas e apalpadelas na bunda sob o vestido. O sucesso da receita impulsionava combinações. Camisola, perfume, velas e aromas para o quarto de prazeres. Ela derramava-se em gozo sobre o gozo dele em urro de trovão. A vizinha indicava caminhos. Faça isso, faça aquilo, faça assim. Ela conseguiria? Filha minha é moça direita. Ele gostava e gozava e dizia como queria. Ela tentava. O desejo dela caminhava ao encontro da virilidade em correnteza dele. Descompasso. Ela se recolhia. Ele se exercia em riste. Eles em dessintonia. Ele reclamava, acusava, ameaçava. Ela chorava. Fui moça pra casar, não aprendi a trepar.

Outra vez as noites à espera. Os filhos chegando tarde das festas. O marido chegando tarde da vida. Outra vez o perfume de mulher, o álcool na boca. Ela dizia, ele desdizia. A marca de batom, o telefone no bolso da calça. Comprovações. A cama, ninho de raiva. Ela para um lado. Ele para outro. Ela se revolvia. Com outro homem como seria? Conseguiria? Repetência no recolher-se? Quem ensinaria? Ela até queria. Filha minha é moça direita. Se Deus uniu o homem não tem que desmanchar. Meses, anos.

O velório do marido enfartado. O coração saturou de sebosas emoções, explodiu, ela dizia. Por baixo das cinzas, brasa. Os filhos doíam em faces molhadas ao lado da mãe. O coração dela descontraía de pesados anos. Saudações e cumprimentos dos amigos dele, da vizinha dela. Em quarenta e oito horas as cinzas estariam disponíveis para a família depositá-las onde desejasse. Um dia. Ela cuidando de doar tudo o que era dele. Outro dia. Ela com o olhar vivo, mudando os móveis de lugar. A urna. Abriu-a junto ao lago do parque. Lágrimas suspenderam um pó fino dentro da caixa. Último encontro. Girou a mão, deixou que os restos se desfizessem no vento. Peixes testemunhavam o instante. Alguma poeira sobrou na caixa. Ela soprou, definitivamente, as últimas cinzas.

 

Lílian Almeida (texto originalmente publicado na Revista Raimundo (inverno/primavera 2016)

Chegando pelos dias uma dança entre palavras e fotografias

Está se fazendo por sobre os futuros a chegada de Profundanças 2: antologia literária e fotográfica, organizada pela escritora Daniela Galdino. Trata-se  da segunda edição de um projeto que reúne duas artes: a literatura e a fotografia.

Segundo breve texto sobre o projeto no site que o acolhe e à publicação, a ser lançada virtualmente no dia 06/07/2017, “Profundanças 2: antologia literária e fotográfica” reúne, em sua maioria, autoras inéditas, há também aquelas que já publicaram livro autoral. Essa antologia integra um amplo projeto de difusão literária e se soma ao primeiro volume, lançado em 2014. A intencionalidade do projeto é conferir visibilidade às produções que encenam formas sensíveis e dissidentes de autorrepresentação. O livro é resultado de uma ação colaborativa e sem fins lucrativos, portanto, ficará disponível para download gratuito por tempo indeterminado” na página da Voo Audiovisual.

Para fomentar a divulgação e dar uma pequena amostra da pujança e beleza trançadas nas páginas de Profundanças 2, foram publicados pequenos vídeos nos quais as autoras integrantes da antologia respondem à pergunta: por que você escreve literatura? A resposta delas você confere na página de Profundanças no Facebook.

Transcrevo abaixo a minha resposta. Você pode vê-la no formato vídeo também no Facebook de Profundanças.

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Foto: Pricilla Andrade

Desenho letras no papel
como quem esboça alvoreceres de manhãs
                                       possíveis.
Escrevo dores, amores e amarguras.
Invento vidas!
               E esperanço auroras violetas.

Acredito no humano e na força que as palavras têm
de descobrir
             no fundo de quem
a porção de humanidade melhor que há.

Desimportante ofício de casamentar
versos e tramas.
Desigual impressão sobre a marca
                                  indelével
da mão de mulher que preenche a folha.
Clareza.

Invento amanhãs.
Há soluços, lágrimas e riso
na cara feia do agora.
Os meus esquadros estão partidos.

Papel e lápis.
Astuciar palavras, ideias, enredos.
Enquanto viver é difícil
invento existires.
                   Por isso escrevo.

Lílian Almeida

Rotina

Primeiro alarme. Levantar. O black amassado no espelho. Os olhos resistiam a acordar. Eliminou da bexiga o acúmulo da noite. Sentada no trono cochilava uma despedida de Morfeu. O relógio marcava, inconteste, as horas no sem tempo. A água fria no rosto ajudava a começar o dia.

A moringa de água fresca esperando para tocar o vidro do copo em cima da pia da cozinha. O gesto igual todos os dias. Um copo. Dois. Acordar por dentro pra ver se por fora também acontece. A água desce lavando o dentro, ela se encaminha para lavar por fora.

O banho quente, a pasta cuspida no chão. No chão, a água encaminha tudo para onde. Dejeto, descarte, depósito. Toalha, desodorante, calcinha, soutien. Aproveita a umidade do cabelo e acrescenta um pouco de creme. Dá forma e arruma. A melhor coisa que fiz foi deixar você ser o que é, não foi? Amassa a cabeleira e arremessa um beijo ao espelho.

Limpeza parte dois. Higiene da cabeça. Ora pra Buda. Canta uma ladainha pros ancestrais. Medita para o vento. Manter a mente quieta e o coração tranquilo. Desistiu da coluna ereta, a escoliose impossibilitava. A turma do invisível sabia que só tinha quinze minutos para tudo isso.

Inspiro, expiro. Não seguro os pensamentos. Auto conduzir-se no exercício de aquietar. As tarefas do dia levitando na mente. Deixar passar. Soltar. Sentir o ar entrar e sair. O ar que entra a barriga aumenta. O ar que sai a barriga retrai.

O dia anterior. Procurava a casa da tia da amiga. Próximo do motel. As duas dentro do carro, perdidas no bairro que não sabiam. Sem nome de rua, só o do motel e o residencial ao lado do motel. Como faço para chegar no motel? A cara desconfiada da mulher da banca de revista. Entra ali, dobra à esquerda, segue, vira. A amiga fazia o tipo menos feminino com aquele cabelo joãozinho. Entra, sai, vai, vira, não acha. Como faço para chegar no motel? Agora o vendedor de caldo de cana. O motel? Perguntou com ar de riso. Sonoro e sério sim. A segunda rua à direita. Os vidros subindo, eu séria e ela rindo. A gente devia ir ao motel. Todo esse tempo procurando por ele e nem gozar? Começo de noite, sexta feira, happy hour no motel, sexo. Gargalhei. Meu tesão é por protuberâncias fálicas e linhas retas. Suas curvas não me abalam. Ela gargalhou. Ah, o Tuca aqui. Verdade. Admiti que ele tinha tudo o que um dia a gente quis para uma transa. Depois do motel, primeira à esquerda. O residencial. Um beijo na sua tia e uma esticada até o motel.

Divagação da porra. Voltar, respirar. O ar entra, o ar sai. O alarme toca. Vinte minutos para o ônibus da empresa passar. Adeus ficar zen o dia inteiro. E o pessoal da intuição que me traria para o agora depois de quinze minutos estava atrasado ou com sono. A mesma correria. Calça, blusa, perfume, batom. Calçou os sapatos, pegou a bolsa sempre pronta. Tirou uma pera da fruteira, enrolou no guardanapo e colocou na bolsa. Café agora só na lanchonete do prédio da empresa. Fez um sinal da cruz e atravessou a porta de casa.

Lílian Almeida

Lisboa, 15 de abril de 1918.

Lisboa, 15 de abril de 1918.

O vento varre as folhas das árvores no calçamento, Lídia. Eu aqui com a tua lembrança mais doce e o espaço curto deste quarto. Nossa última tarde. O teu sorriso depois do amor. O meu olhar esticado até a quina do banheiro, seguindo teu cheiro.

Há folhas e folhas de papel sobre a mesa. As ideias retiraram-se do recinto. Recusam qualquer tentativa minha. Datilografo palavras sem substância. Estou desnutrido de dizeres. Nada há que eu deseje dizer, senão para ti. Diretrizes. Quando estou contigo dou-me todo. Tudo. E fico cheio de algo que não se explica. Cheio a ponto de faltar o que se diga.

Ponho letras a esmo no papel. O som seco das teclas tentam despertar-me da embriaguez. Por que me fazes tão bem, Lídia? Fico assim, entorpecido de você. A fumaça sobe ocupando o volátil espaço do quarto. As pontas do cigarro sobram no cinzeiro. Deixastes o lenço que trazias no pescoço entre os travesseiros. Guardo nele o aroma do teu corpo. Completo novamente a taça de vinho. Entorpeço as folhas na máquina com um olhar duro. A rigidez de um mundo à revelia do sentir. O projeto para os papéis. Inútil. Só vislumbro o seu rosto. As paredes do quarto perderam as arestas, o branco é quase solar. Onde a impessoalidade alva das paredes retas? Para fora da janela, o céu de primavera azul numa Lisboa de construções duras.

Impossível atravessar a bruma de olhos abertos. Largo-me da máquina, dos versos e dos papéis. Cerro a tua lembrança no meu corpo preenchido sobre os lençóis. Amanhã, quiça mais tarde, Lídia, eu terei retinas de não sentir tua presença e dedos de escrever a dureza humana de estar aqui. Hoje não.

Depois, amanhã, hoje, teu Fernando.

Lílian Almeida

Cordis. Cordilheira.

Santiago de Chile, outubro.

Primavera. Depois da chuva o frio se avoluma sobre as janelas e cobertores. As folhas de plátano, verdes, confirmam a estação. Acordo desconfiada de que o tempo é outro. Silêncio na capital, na rua, no quarto. Do oitavo andar se ouve o vazio em mudez urbana.

Atravesso as avenidas a caminho de não sei. Fumaça de cigarro e pernas apressadas para o metrô. Desritmia compassada de pés e folêgo em não. Não ir. Urgência de seguir um ritmo outro de gente alheia. Confusão. Descaminho metropolitano em direção a trabalhos. Dentro dos túneis, o compasso do músculo involuntário sob a minha blusa no vagão. Precaución con el cierre de puertas. A voz gravada anuncia a saída de cada estação. A cada 4 minutos saída e entrada de gente. Muita gente. Meus olhos vidrados no fluxo humano debaixo da metrópole. A estupidez desenha formigas atônitas na curvatura do meu olhar.

Os dias atravessam a cidade abaixo da cordilheira. Irrefreável seguir. A majestade de pedras impõe presença alhures. Estico meu ver em direção ao longe. A paisagem convoca mais que olhos. Pulsares. Santiago se apequena ao lado da madre piedra. Invisível caminho se insinua atrás dos meus olhos miúdos. Incaico partir desde antes a depois. Debaixo da urbe, o império. Transpassado percurso além do passado. Futuro cego de tanta civilização.

O branco acima das pontas de pedras exige visita destemida de frio. Fogueira de gelo imemorial guardado no profundo da minha íris olvidada. Andes! Obedeço e vou. Sigo o percurso de curvas e subidas. O rio beira minha memória de tanto esquecimento. O calor se acresce no aumento da altura, no fundo de mim. Encontro previsto no impensado tempo de existir. Traçada rota.

Ao fundo e acima, o branco mais que branco. Geleira. Retiro as luvas. Contato imediato com o que é e foi. A força vibrando em átomos. Acordo no meu dentro a história além do tempo. O caminho do passado conduz presente em mim. Criança inca. Pulsar de vivo fogo no branco glaciar em Maipo. O desvario em sucessão de vida e morte. As minhas retinas vislumbram o sem tempo de eu comigo antes e agora. O instante já do ser. Inespacialidade de tempo. Atemporalidade de espaço. Sem onde nem quando, eu sou cordis. Andes. Cordilheira.

Meus olhos vestem a capital. Quinhentos anos de passado entre os túneis do metrô e dos museus. Um império de língua quechua ecoando no pericárdio das minhas lembranças. Kusy. A mulher me investe de mapuche, aymara, inca. Eu desço a noite sobre meus olhos para guardar tudo.

Fazia inverno sobre a primavera de Santiago. O sol descortinava, tímido, a manhã. O oitavo andar do apart hotel silencioso entre os rumores de café e malas. Meus olhos floriam outonos de existir sobre a rota descoberta. Adiante, a soberana senhora de pedra e gelo. O aeroporto. Passagem no pouso para dentro. O percurso começava no fim da viagem. Volta para casa.

Lílian Almeida

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Foto: Lílian Almeida