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Se eu quiser falar com Deus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

 Se eu quiser falar com Deus
 Tenho que aceitar a dor
 Tenho que comer o pão
 Que o diabo amassou
 Tenho que virar um cão
 Tenho que lamber o chão
 Dos palácios, dos castelos
 Suntuosos do meu sonho
 Tenho que me ver tristonho
 Tenho que me achar medonho
 E apesar de um mal tamanho
 Alegrar meu coração

 Se eu quiser falar com Deus
 Tenho que me aventurar
 Tenho que subir aos céus
 Sem cordas pra segurar
 Tenho que dizer adeus
 Dar as costas, caminhar
 Decidido, pela estrada
 Que ao findar vai dar em nada
 Nada, nada, nada, nada
 Nada, nada, nada, nada
 Nada, nada, nada, nada
 Do que eu pensava encontrar

Gilberto Gil

Alegria da cidade

A minha pele de ébano é
 A minha alma nua
 Espalhando a luz do sol
 Espelhando a luz da lua
 
 Tem a plumagem da noite
 E a liberdade da rua
 Minha pele é linguagem
 E a leitura é toda sua
 
 Será que você não viu
 Não entendeu o meu toque
 No coração da América eu sou o jazz, sou o rock
 
 Eu sou parte de você, mesmo que você me negue
 Na beleza do afoxé, ou no balanço no reggae
 
 Eu sou o sol da Jamaica
 Sou a cor da Bahia
 Sou sou você e você não sabia
 
 Liberdade Curuzu, Harlem, Palmares, Soweto
 
 Nosso céu é todo blue e o mundo é um grande gueto
 
 Apesar de tanto não
 Tanta dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade
 Apesar de tanto não
 Tanta marginalidade, somos nós a alegria da cidade

Lazzo Matumbi e Jorge Portugal

 

Metade

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio

 
Que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.

 
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.

 
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.

 
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.

 
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

 
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.

 
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

 
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

 

Oswaldo Montenegro

joven-rodeada-de-mariposas

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Tierra, tan sólo

Tierra tan sólo tierra
Para las heridas recientes
Tierra tan sólo tierra
Para el húmedo pensamiento
Tierra, tan sólo tierra
Para el que huye de la tierra

Tierra tan sólo tierra
Tierra desnuda y alegre
Tierra, tan sólo tierra
Tierra que ya no se mueve
Tierra, tan sólo tierra
De noches inmensas

No es la ceniza en vilo
De las cosas quemadas
Lo que yo vengo buscando
Es tierra

Viento en el olivar
Viento en la sierra

Federico García Lorca, Marta Gómez

CUBIERTA MARTA

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Canción para un niño en la calle

A esta hora exactamente,
hay un niño en la calle…
¡Hay un niño en la calle!

Es honra de los hombres proteger lo que crece,
cuidar que no haya infancia dispersa por las calles,
evitar que naufrague su corazón de barco,
su increíble aventura de pan y chocolate
poniéndole una estrella en el sitio del hambre.

De otro modo es inútil, de otro modo es absurdo
ensayar en la tierra la alegría y el canto,
porque de nada vale si hay un niño en la calle.

Todo lo tóxico de mi país a mí me entra por la nariz.
Lavo auto, limpio zapato, huelo pega y también huelo paco
Robo billeteras pero soy buena gente, soy una sonrisa sin dientes
Lluvia sin techo, uña con tierra, soy lo que sobró de la guerra
Un estómago vacío, soy un golpe en la rodilla que se cura con el frío
El mejor guía turístico del arrabal por tres pesos te paseo por la capital
No necesito visa para volar por el redondel porque yo juego con aviones de papel
Arroz con piedra, mango con vino y lo que falta me lo imagino

No debe andar el mundo con el amor descalzo
enarbolando un diario como un ala en la mano
trepándose a los trenes, canjeándonos la risa,
golpeándonos el pecho con un ala cansada.

No debe andar la vida, recién nacida, a precio,
la niñez arriesgada a una estrecha ganancia
porque entonces las manos son inútiles fardos
y el corazón, apenas, una mala palabra.

Cuando cae la noche duermo despierto, un ojo cerrado y el otro abierto
Por si los tigres me escupen un balazo mi vida es como un circo pero sin payaso
Voy caminando por la zanja haciendo malabares con cinco naranjas
Pidiendo plata a todos los que pueda en una bicicleta en una sola rueda
Soy oxígeno para este continente, soy lo que descuidó el presidente
No te asustes si tengo mal aliento, si me ves sin camisa con las tetillas al viento
Yo soy un elemento más del paisaje los residuos de la calle son mi camuflaje
como algo que existe que parece de mentira, algo sin vida pero que respira

Pobre del que ha olvidado que hay un niño en la calle,
que hay millones de niños que viven en la calle
y multitud de niños que crecen en la calle.

Yo los veo apretando su corazón pequeño,
mirándonos a todas con fábula en los ojos.
Un relámpago trunco les cruza la mirada,
porque nadie protege esa vida que crece
y el amor se ha perdido, como un niño en la calle.

Oye: a esta hora exactamente hay un niño en la calle
Hay un niño en la calle

 

Mercedes Sosa e René Pérez

Letra de Armando Tejada Gomez

mercedes2brene

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Afasta de nós esse cale-se

Cálice

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça


Gilberto Gil e Chico Buarque

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Silêncio

Silêncio, hoje eu preciso tanto ouvir o céu
Já não é mais urgente assim falar
Meu coração precisa repousar.

Eu venho lá dos sertões onde a saudade se perdeu
Daquela estrada em poeira que doeu
Feito uma flor que resistiu, assim sou eu.

Silêncio, eu quero ouvir o que me diz a imensidão
Quero saber se minha alma tem razão
Quando acredita que essas coisas vão mudar.

Silêncio, pra eu me lembrar de tanta coisa que eu sonhei
Encontrar todas as folhas que eu juntei
Por essa estrada que me traz até a mim.

Flávia Wenceslau

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Foto: Lílian Almeida