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Incendiária

salto

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O espelho divisava as faces. Ela suspensa no corselete e no salto preto. Ela espiando por cima dos olhos para convencer-se da mulher que via. O tango eletro-argentino arrastava volteios e ganchos. Cabelos vaporosos, boca vermelha, cinta liga. O elo entre uma e outra. A roupa e a pele no ceder sem ir ao fundo de quem. Elas. O caliente idioma, rubro espanhol. A batida eletrônica avançava sobre o que já era. O rosto molemente por cima dos ombros. Ela cedendo ao  compasso, empurrando a mulher no sem saber. O som enchia os poros, o espaço. Os olhos se encontrando no espelho. O riso gozado escorrendo na malícia de ver-se. Um vermelho explodia na altivez do busto, na firmeza do olhar, no passo seguro. Elas tomaram-se pés, coxas, quadril, ventre, peito e mãos. Coladas. No espelho, um tango-mulher. Uma flor incendiária consumia o que ficou para trás. 

Lílian Almeida

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Molesquine – II

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Foto: Lílian Almeida

 

 

O computador ligado, a caixa de e-mail. Abria-os, lia e passava para o seguinte. Bilhetes, recados, palavras. Um amor em cada e-mail aberto, uma mulher para cada romance, a cada história uma marca. A compulsão por dramaturgia, os truques de mágica, a fase de escutar muito rock, o livro de Vinícius e os sonetos decorados. Numa das mensagens, a frase de Lúcio. O amor é o que move o ser humano.  Cada homem, uma paixão. O que me move? A pergunta ficou rodando no vazio.  Demorou para encontrar resposta. Faltava-se. Só pode ser o amor, que me leva para escrever todos esses e-mails ridículos e bonitos. Fechou as mensagens, desligou o notebook e acreditou que o amor a levava para a caixa de entrada do outro. Ah, o amor, tão velho, tão novo, nas cartas, nos e-mails. Continua lá, qualquer que seja a caixa. E ridiculamente dentro de quem escreve.

Lílian Almeida

Molesquine

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

Mais uma categoria para o baú de Cartas, fotografias e outros guardados: molesquine. O fragmento, o registro, o cotidiano, o espanto, o êxtase.

I

Guarulhos – Congonhas: o percurso. A companhia: uma garota de seis anos. A prosa: o brinde feliz do hambúrguer, o tamanho do Cristo Redentor, o desejo de ser chamada de filha. Você já falou isso com sua mãe? Já. E ela? Continua me chamando de Émile. Silenciei, engoli a seco. Há ouvidos inaptos a escutar. O verde dos olhos dela murchou. Baixei os meus, envergonhada pela mãe, irmanando-me no desejo dela. Eu segui o meu percurso daquele dia com a sua dor nos meus olhos e um abismo rasgado no meio do peito.

Lílian Almeida