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Traduzir-se

Uma parte de mim é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim é multidão:
outra parte estranheza e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Ferreira Gullar In Na vertigem do dia, 1980.

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Natal na barca

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.

— Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.

— Quente?

— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:

— Mas a senhora mora aqui perto?

— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

— Seu filho?

— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.

— É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

— E esse? Que idade tem?

— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

— Seu marido está à sua espera?

— Meu marido me abandonou.

Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

— Há muito tempo? Que seu marido…

— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

— A senhora é conformada.

— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

— Deus — repeti vagamente.

— A senhora não acredita em Deus?

— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…

Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:

— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim

— Estamos chegando — anunciou.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

– Chegamos!… Ei! chegamos!

Aproximei-me evitando encará-la.

— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

— Acordou?!

Ela sorriu:

— Veja…

Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E  pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.

 

Lygia Fagundes Telles

 

Plástica

Ela tem uma mania. Me dê os documentos para colocar num saquinho plástico. Sempre tem algum por perto para preservar os documentos, os alimentos. Faz coleção de vasilhames plásticos para a cozinha, variadas cores e formatos. Ponho as saladas nos verdes com tampas transparentes, conserva por mais tempo e identifico rápido o conteúdo. Vermelho para as carnes vermelhas. Azul para os peixes. Considera os polímeros e polietilenos os grandes compostos da química. O plástico? Uma invenção humana espetacular! Não imagino a vida sem eles. Como eu ia guardar, conservar, organizar a minha vida? Impossível.

Envelopes plásticos incolor para os documentos. Classificadores polietilênicos coloridos com etiquetas para os planos de aula, as atividades e avaliações de cada turma. Os livros guardados em plásticas caixas arquivos identificadas pela série a que se destina. Os sapatos? Transparentes plásticos envolvem-nos dentro do armário. Para qualquer lado que se olhe um objeto plasticamente posicionado. Além do mais, eles têm vida longa. Conservam os outros e a si próprios. Ela preservava tudo à sua volta. A durabilidade dos anos de vida não lhe deixou escolha: fez plástica no corpo todo.

 

Lílian Almeida (publicado inicialmente no OXE: portal da literatura baiana contemporânea)

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Álbum de profundas danças – 4

Finalizando a galeria de palavras e imagens de Profundanças 2: antologia literária e fotográfica, livro organizado por Daniela Galdino e disponível para download gratuito no site da Voo Audiovisual.

Mel Andrade

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Miriam Alves

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Rita Santana

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Thalita Peixe de Medeiros
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Todas as imagens foram retiradas da fanpage Profundanças, no Facebook (https://www.facebook.com/profundancas/)

 

Álbum de profundas danças – 3

A gente segue com a galeria de palavras e imagens de Profundanças 2: antologia literária e fotográfica, livro organizado por Daniela Galdino e disponível para download gratuito no site da Voo Audiovisual.

JeisiEkê de Lundu

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Laiz de Carvalho

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Larissa Pereira

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Lílian Almeida
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Todas as imagens foram retiradas da fanpage Profundanças, no Facebook (https://www.facebook.com/profundancas/)

 

Cinza de monturo

A urna. Abriu-a junto ao lago do parque. Lágrimas suspenderam um pó fino dentro da caixa. Olhava e não via aquele instante, o passado frio na memória acesa. Os restos dele desfaziam-se no vento antes de tocar a água. Quarenta e oito horas, meses, anos. O velório do marido enfartado. O coração saturou de sebosas emoções, explodiu, ela dizia. Por baixo das cinzas, brasa.

Menina, dezesseis anos, o quarto cor de rosa, a foto do noivo na penteadeira. Recato e castidade. Filha minha é moça direita, namorado tem que respeitar. Ele respeitava, se encolhia no desejo espaçoso de rapaz homem feito. Se espalhava nos flertes e namoros sem obrigação de casar. Ela, doce, delicadeza em voz de pêssego, no chamar de meu amor. Ele, troante voz em carinhos e presentes declarados como amor. Ela preparando o enxoval, era moça pra casar. Ele reconhecia e se esmerava em preparar o lar. Casamento é coisa séria, se Deus uniu o homem não tem que desmanchar. Marcha nupcial, vestido branco, aliança, beijo, arroz.

Um teto, duas cabeças. Similitudes, dessemelhanças, convergências para o mesmo morar. Delicadezas e carinhos e afagos. Meu amor. Meu amor. Onde está o meu pijama? Você esqueceu a toalha molhada na cama. Você sabe que eu não gosto de cebola. Não deixe os sapatos na sala. O cor de rosa escorria pela toalha. Ela exímia no perfume e no corpo fresco do banho. Ele chegava, beijava, não comentava. Não repare, meu amor, eu sou mesmo assim. Ela reparava. O cotidiano imprimia novos tons, para longe o rosa  adolescente.

O choro exigia colo e o peito na manhã antes da aurora. Resoluta, dividida entre a cama e o berço, entre o sonho, o sono e a vigília. O sonho. O primeiro filho, encanto na maternidade desejada. O primeiro peito rachado, sangrando rosa na boca do menino. Ele trazia as fraldas, as mamadeiras. Ela amamentava, ninava, balançava o berço, cantava e deitava na cama na hora de levantar. Cólicas, choro. Dentes, choro. Quedas, choro. Mamãe. O peito caído, a barriga caída. Ela afundada no corpo que não era mais. Corpo de desejos. Ele e o urro de trovão no desejo convergindo para o desejo dela. Ela e o arfar de pétala no gozo sobre o gozo dele. O corpo não mais o corpo. O corpo ainda um corpo.

O choro acendia a madrugada. Fraldas, mamadeiras, berço, cantigas. O segundo filho. O mesmo ficar acordada. Diferente acalentar, amamentar. O bico do peito resistente. Uma flor láctea molhada no peito cheio. As madrugadas acesas no quarto do bebê. Ele dormia sonhos de salários altos e o carro novo e o futebol no fim de semana. Ela cochilava desejos de filhos saudáveis, casa arrumada e uma noite inteira para dormir. O choro, o sobressalto no refluxo cheio de medo. Medo de engasgar. Medo de não respirar. Medo de perder o filho. Cólicas, dentes, quedas. Consistência e segurança em cuidar. Outra vez o peito mais que caído. A barriga murcha. Estrias, flacidez. O corpo já era. Ele ampliando as rugas dela. Ele exaltando o atlético dele. Ela se desfalecendo na pele sobressalente, se diminuindo no aumentado peso. Ele se exercendo na voz de trovão sobre a voz de pêssego. Ele e ela no rosa derretido que manchava as paredes da família. Cinzas espalhavam-se sobre os bibelôs.

O velório do marido enfartado. O coração saturou de sebosas emoções, explodiu, ela dizia. Por baixo das cinzas, brasa. Os filhos doíam em faces molhadas ao lado da mãe. O coração dela descontraía de pesados anos.

A casa era uma casa para quatro. O pai, a mãe, o filho, outro filho. Os quartos eram pra dois: dois pequenos, dois maiores. Carros, bolas, bonecos, heróis. Infância no quarto dos meninos. Cama, almofadas, toalha molhada, cortina embolorada. Enfado no quarto dos pais. Fado? Se Deus uniu o homem não tem que desmanchar. Ele chegando tarde. Os meninos dormindo cedo.  Ela acordada no esperar. Ele cheirando a bebida, a perfume de mulher. Ela dizia, ele reagia. O que você queria, sua gorda? Ela se encolhia nas dobras do corpo. Emagrecimento. Casamento. Dietas. Recompôs as refeições em light. Refez os lanches em diet. Elevador? Escadas. Esmerava-se por deixar os quilos longe. Ela diminuía. Busto, cintura, quadril. Ela falava das roupas folgadas. Ele não ouvia, não via, não comentava. Ele não reparava, ele era mesmo assim. Ela notava, aceitava. Mais se exigia no emagrecer. Um dia ele notaria? Aguardava.

Os filhos. Ela se alegrava com a saúde dos meninos, com a alegria deles, as brincadeiras. Felicidade única, era mãe de seus filhos. Preparava festinhas de aniversário, ía ao pediatra, levava para a escola, ensinava a lição. Educação, crenças, valores. Respeito, meu filho, pelas pessoas. Que brinquedo é esse? Onde você pegou? Devolva! Não se pega no alheio. Por que você agrediu a coleguinha? Em mulher não se bate nem com flor. O pai, voz de trovão e medo. Medo de o pai brigar. Medo de apanhar. Medo de ficar de castigo. O pai trazendo brinquedos. O pai trazendo livros. O pai trazendo camisinha. Filho meu é macho desde cedo. Cadê as meninas da sua escola? E as do prédio? Amizade da infância? Homem não tem amizade com mulher. Ela se retorcia. Ele dizia como era e como seria. Os filhos, as garotas, a virilidade rija. Ela semidizia. Respeito, meu filho, tudo com respeito.

Ele chegando tarde com rosto de riso. Ela esperando com rosto de raiva. A comida fria na mesa. O corpo frio na cama. Ele para um lado, ela para outro. A vizinha inquietava. Como podia? Ele é bonito,  você também. Ele não quer? Dê pra outro. Como fazia? Impelia-se em aprender os truques da amiga. Tome banho, perfume-se e deite nua. Só o lençol. Nua? Não conseguia. Ela na cama, calcinha e lençol.  A pele e a pele no virar-se dele. O frescor de banho e o calor de brasa. Ele lembrando do corpo dela, do cheiro dela. Ele retornando para ela? Ela indo para ele. Ela espanava as cinzas grudadas na pele, na vida. Um dia, dois, alguns. Manhãs em riso e café quente. Ela penteava-se, perfumava-se e vestia-se para o marido recém chegado. Beijos e jantas e apalpadelas na bunda sob o vestido. O sucesso da receita impulsionava combinações. Camisola, perfume, velas e aromas para o quarto de prazeres. Ela derramava-se em gozo sobre o gozo dele em urro de trovão. A vizinha indicava caminhos. Faça isso, faça aquilo, faça assim. Ela conseguiria? Filha minha é moça direita. Ele gostava e gozava e dizia como queria. Ela tentava. O desejo dela caminhava ao encontro da virilidade em correnteza dele. Descompasso. Ela se recolhia. Ele se exercia em riste. Eles em dessintonia. Ele reclamava, acusava, ameaçava. Ela chorava. Fui moça pra casar, não aprendi a trepar.

Outra vez as noites à espera. Os filhos chegando tarde das festas. O marido chegando tarde da vida. Outra vez o perfume de mulher, o álcool na boca. Ela dizia, ele desdizia. A marca de batom, o telefone no bolso da calça. Comprovações. A cama, ninho de raiva. Ela para um lado. Ele para outro. Ela se revolvia. Com outro homem como seria? Conseguiria? Repetência no recolher-se? Quem ensinaria? Ela até queria. Filha minha é moça direita. Se Deus uniu o homem não tem que desmanchar. Meses, anos.

O velório do marido enfartado. O coração saturou de sebosas emoções, explodiu, ela dizia. Por baixo das cinzas, brasa. Os filhos doíam em faces molhadas ao lado da mãe. O coração dela descontraía de pesados anos. Saudações e cumprimentos dos amigos dele, da vizinha dela. Em quarenta e oito horas as cinzas estariam disponíveis para a família depositá-las onde desejasse. Um dia. Ela cuidando de doar tudo o que era dele. Outro dia. Ela com o olhar vivo, mudando os móveis de lugar. A urna. Abriu-a junto ao lago do parque. Lágrimas suspenderam um pó fino dentro da caixa. Último encontro. Girou a mão, deixou que os restos se desfizessem no vento. Peixes testemunhavam o instante. Alguma poeira sobrou na caixa. Ela soprou, definitivamente, as últimas cinzas.

 

Lílian Almeida (texto originalmente publicado na Revista Raimundo (inverno/primavera 2016)

Álbum de profundas danças -2

Prosseguindo com a galeria de palavras e imagens de Profundanças 2: antologia literária e fotográfica, livro organizado por Daniela Galdino e disponível para download gratuito no site da Voo Audiovisual.

Dayane Rocha

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Débora Ramos

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Érika Cotrim

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Haísa Lima
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Todas as imagens foram retiradas da fanpage Profundanças, no Facebook (https://www.facebook.com/profundancas/)