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A criança que fui chora na estrada

I

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

 

Fernando Pessoa (Novas Poesias Inéditas. (Direção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 4ª ed. 1993).

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Iniciação

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
…………………………………………….
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

P1060633

Foto: Lílian Almeida

Mas na Estalagem do Assombro
Tiran-te os Anjos a capa :
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
…………………………………………….
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não ‘stás morto, entre ciprestes.
…………………………………………….

Neófito, não há morte.

Fernando Pessoa

Penso às vezes, com um deleite triste

Penso às vezes, com um deleite triste, que se um dia, num futuro a que eu já não pertença, estas phrases, que escrevo, durarem com louvor, terei em fim a gente que me “comprehenda”, os meus, a familia verdadeira para nella nascer e ser amado. Mas, longe de eu nella ir nascer, eu terei já morrido ha muito. Serei comprehendido só em effigie; quando a affeição já não compense a quem morreu a só desaffeição que teve, quando vivo.

Um dia talvez comprehendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de interprete de uma parte de um seculo; e, quando o comprehendam, hão de escrever que na minha epocha fui incomprehendido, que infelizmente vivi entre desaffeições e friezas, e que é pena que tal me acontecesse. E o que escrever isto será, na epocha em que o escrever, incomprehendedor, como os que me cercam, do meu analogo d’aquelle tempo futuro. Porque os homens só aprendem para uso de seus bisavós, que já morreram. Só aos mortos sabemos ensinar as verdadeiras regras de viver.

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

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Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma alegria do ar é fresca de mais contra a pelle. O dia vae acabando não em cinzento, mas em azul-pallido. Um azul vago reflecte-se, mesmo, nas pedras das ruas. Doe viver, mas é de longe. Sentir não importa. Accende-se uma ou outra montra. Em uma outra janella alta ha gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo que roça por mim pasmaria, se me conhecesse.

No azul menos pallido e menos azul, que se espelha nos predios, entardece um pouco mais a hora indefinida.

Cahe leve, fim do dia certo, em que os que creem e erram se engrenam no trabalho do costume, e tem, na sua própria dor, a felicidade do inconsciencia. Cahe leve, onda de luz que cessa, melancholia da tarde inutil, bruma sem nevoa que entra no meu coração. Cahe leve, suave, indefinida pallidez lucida e azul da tarde aquatica – leve, suave, triste sobre a terra simples e fria. Cahe leve, cinza invisivel, monotonia maguada, tedio sem torpor.

Fernando Pessoa. Livro do desassossego, p. 208-209. (Tinta da China Brasil, 2013, edição de Jerónimo Pizarro)

Eros e psique

Conta a lenda que dormia
uma Princesa encantada
a quem só despertaria
um Infante, que viria
de além do muro da estrada.

Eros-e-psique-Canova

Antonio Canova – Eros e Psique – Imagem disponível na internet

Ele tinha que, tentado,
vencer o mal e o bem,
antes que, já libertado,
deixasse o caminho errado
por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
e orna-lhe a fronte esquecida,
verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
sem saber que intuito tem,
rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
ela dormindo encantada,
ele buscando-a sem tino
pelo processo divino
que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
tudo pela estrada fora,
e falso, ele vem seguro,
e, vencendo estrada e muro,
chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
à cabeça, em maresia,
ergue a mão, e encontra hera,
e vê que ele mesmo era
a Princesa que dormia.

 

Fernando Pessoa