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O menino que não via o céu

O menino vivia olhando para o chão. Era por isso que ele não via o céu. Não via sol, lua, estrela, arco-íris, disco voador. Nada…

Também não via as figuras que as nuvens gostam de desenhar no céu, cachorro, gato, elefante, girafa, jacaré… Nada.

O menino só via o chão.

Não via nem o passarinho que voava sobre sua cabeça e o acompanhava aonde quer que ele fosse. O passarinho era o único amigo do menino. Mas o menino nem sabia do passarinho, porque vivia olhando para o chão.

O menino só tinha a roupa do corpo e um caixote com escova, flanela e graxa. O caixote, aliás, nem era dele, e sim do homem a quem entregava quase tudo do quase nada que ganhava trabalhando duro, de domingo a domingo.

O menino era engraxate. Por isso vivia olhando para o chão, procurando algum sapato necessitado de brilho.

– Vai uma graxa aí, doutor? – era só o que menino sabia dizer.

E era só nessas horas que ele levantava os olhos, à espera de uma resposta que na maioria das vezes era NÃO! E era nessas horas que ele via o quanto as pessoas podem ser grandes, tristes e zangadas. Assustado, o menino olhava de novo depressa para o chão, porque no chão, em vez de caras grandes, tristes e zangadas, ele só via pés apressados. E, de vez em quando, um sapato necessitado de brilho.

– Vai uma graxa aí, doutor?

O menino tinha medo. Sentia-se muito pequeno, menor que um pé de sapato. Um insetozinho de nada que qualquer pessoa podia pisar, por descuido ou por maldade.

Às vezes, de tanto olhar para o chão, o menino achava uma moeda ou um sanduíche comido só pela metade. Uma vez encontrou uma flor, que pensou em oferecer para a professora ou para a menina mais bonita do mundo. Mas o menino não ia à escola e não conhecia nenhuma menina mais bonita do mundo.

O menino não tinha nada. O menino não tinha ninguém. Só o passarinho, mas nem sabia que tinha.

Até que um dia, o menino viu a bola amarela brilhando no asfalto escuro. Aproximou-se bem devagarinho, pé-ante-pé, um passo de cada vez, desconfiado. Olhou em volta, com medo que alguém reclamasse a posse do brinquedo perdido. Mas ninguém reclamou. A bola não tinha dono. Ou melhor, agora tinha: era o menino.

Feliz que nem criança, sendo que era de fato criança, o menino saiu por aí chutando a bola, driblando todos os pés e pernas que encontrava pela frente, sem olhar para cima, sem ver as caras enormes de espanto e raiva.

– Vai trabalhar, menino

– gritou um homem.

– Nada disso, lugar de criança é na escola

– respondeu uma mulher.

– Se todos forem pra escola, quem vai engraxar nossos sapatos? – perguntou outro homem.

Mas o menino nem ouviu. O menino não tinha olhos para mais nada que não fosse o primeiro brinquedo que ganhou em toda a sua vida. De tão feliz, o menino deu um chute tão forte que a bola subiu, subiu, subiu… Foi então que o menino olhou para o céu pela primeira vez. Mas nem viu o céu. Não viu sequer o passarinho, apesar de quase pousado em sua testa.

Só viu a bola subindo, subindo, subindo…

O menino continuou olhando para o alto, sem ver céu nem passarinho, esperando a bola voltar.

Esperou, esperou, esperou… até doer o pescoço. E o céu, nada de devolver a bola. Até que o menino cansou de esperar. Baixou a cabeça e olhou outra vez para o chão. E viu um monte de sapatos necessitados de brilho. E um monte de pés impacientes.

– Perdeu o brinquedo, seu preguiçoso? Bem feito

– zombou um homem.

– Vem trabalhar,  menino – gritou o outro.

E naquele dia o menino trabalhou, trabalhou, trabalhou. Até quase esquecer que, por alguns minutos, havia sido criança.

De noite, exausto, o menino sentou-se na calçada, esticou o corpo sobre a cama de papelão e fechou os olhos, para ninguém rir de suas lágrimas. O menino chorou que nem criança, sendo que era de fato criança.

Morrendo de dó do menino, o passarinho assobiou uma canção alegre. Mas o menino continuou triste. De tanta tristeza, o passarinho voou para longe pela primeira vez na vida. E pela primeira vez na vida o menino ficou sozinho de tudo.  O menino agora não tinha nem passarinho.

O menino, então tomou uma firme decisão: nunca mais olhar para o céu. E nunca mais olharia, se não fosse aquele barulho esquisito, que começou pequenininho e veio crescendo… crescendo… crescendo…

flap flap flap flap flap flap flap flap flap flap flap

Até que o mundo escureceu. O menino olhou para o céu, mas nem viu o céu, porque o céu estava escondido por uma nuvem gigante e veloz, um borrão colorido e barulhento que vinha crescendo… crescendo… crescendo…

De repente, o menino sentiu o chão desaparecer sob seus pés, e já no instante seguinte voava nas asas de mil pássaros de todas as cores e cantos, que o velho amigo passarinho fora chamar às pressas. E o menino voou, voou, voou… E viu o céu pela primeira vez, com tudo a que tinha direito:

Estrela

arco-íris

nuvens em forma de bicho

e até disco voador.

Viu o restinho do sol se pondo de um lado do céu e a lua nascendo do outro, em forma de uma grande bola amare… Ops! Mas não era lua coisa nenhuma: era a bola, era a bola amarela, que imaginava perdida para sempre. O menino apressou os pássaros e voou em direção à bola, como se o brinquedo fosse a coisa mais preciosa do mundo. Tão preciosa que o menino fechou os olhos, abraçou a lua com toda a força e jurou nunca mais deixá-la escapar.

Quando abriu os olhos outra vez, o menino estava deitado na calçada. Tinha a bola amarela firme entre os braços, como se fosse o goleiro da Seleção na final da Copa do Mundo.

De tão feliz, o menino nem viu a multidão de pés apressados que podia esmagá-lo a qualquer momento, por descuido ou por maldade. O menino já não tinha medo.

Espreguiçou-se e olhou para o céu. Viu primeiro o amigo passarinho; depois, as nuvens desenhando figuras desconhecidas:

Escola

livros

cadernos

outros brinquedos além da bola.

O menino não sabia o que eram todas aquelas coisas, mas decidiu ir em busca de cada uma delas. E foi. Olhando sempre em frente.

 

José Rezende Júnior

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A reza

Quem tem fé vai a pé. O homem lá de casa começou com espalha pé, sua voz trovejou, dizendo para eu me recolher da intenção de ir à reza. Eu disse: É… Pois vamos ver. Peguei as contas a pagar, todas, estavam caladas na gaveta procurando ocasião de ser avistada por ele. O homem silenciou a voz, calou os pés, amansou o pensamento. Ficou num canto deslembrado da vida. Fui andando, duas léguas de distância a casa de Dona Jesuína, rezei com fé, depois o samba. Meu corpo ganhou molejo desassombrando os tormentos. Minha fé nunca falhou, a porca pariu, vendi por dois trocados, paguei as contas. Depois disso a voz do homem voltou um pedaço, era só chuvisco, a voz de trovão sumiu no meio das dívidas.

 

Aidil Araújo Lima (Mulheres sagradas, Portuário Atelier Editorial, 2017)

Por do sol

Outra vez eu estava fazendo aquele mesmo caminho, trocando passos devagar. As pernas estavam tão pesadas, não é fácil tentar carregar o peso da alma. É muito estranho estar cercada de pessoas e sentir-se imersa na solidão, mas dessa vez, de alguma forma, eu fui conversando com aquela dor. É que não foi a primeira vez que nos encontrávamos. Aquela manhã despertou nublada, mesmo sendo um dia de sol. Acordei com um silêncio reverencioso como se o amanhecer soubesse o que estava por vir. A triste surpresa da notícia: Tua vó Deja morreu!

Parecia estar se repetindo a história de quando minha vó Martinha, meu sol, se pôs. Era manhã do dia vinte e quatro de novembro de dois mil e cinco. Eu estranhei a tranquilidade, na minha casa os cafés da manhã significavam barulhos, conversas e risos, mas naquele dia a intrigante calma foi interrompida pela voz de minha mãe dizendo: Levanta para ver sua vó antes dela morrer. Meu corpo estremeceu inteiro, minha vó era muito mais que uma vó, era minha mamãe, meu porto seguro, meu exemplo de ser humano e de mulher.

Me senti arrastada por um turbilhão de emoções inexplicáveis, diante do desalento que sobreveio a mim. Levantei estonteada, a todo momento minha mente era invadida pelas lembranças de momentos que tínhamos vivido. Eram tantos abraços, estórias, risos, canções, cheiros, sabores e memórias; eu nem sabia que podia guardar todas essas recordações. E assim, oscilando momentos de lucidez e de divagações, fui até a casa de minha vó, entrei no quarto, e a vi indo embora, respirando cada vez mais lentamente. Saí de lá correndo, chorando, me recusando a acreditar que estava perdendo minha mãe.

Eu olhava para ela inerte no caixão, sem aquele costumeiro sorriso, custava a acreditar; ela parecia estar dormindo como sempre fazia na sesta que tirava depois do almoço. Não suportava aquele murmurinho e os risinhos das pessoas tomando chá e cafezinho com biscoitos como se nada tivesse acontecendo. Bando de abutres! Tem pessoas que vão para velórios sem nenhuma preocupação ou respeito pela luto dos outros, vão para rever os velhos amigos e conversar. Notei que costumam visitar mais os mortos do que os vivos. Apareceu gente que eu nunca tinha visto visitá-la enquanto estava viva. Monte de urubus!

Não me levem a mal, eu só queria ficar quieta com minha dor. Não suportava quando vinham me dizer: Não chora, a vida é assim mesmo. Ela descansou! Eu sabia que a vida era assim! Mas, eu queria chorar, desejava desesperadamente, de alguma maneira, aliviar o peito, não apenas o peito, cada átomo do meu ser doía. Lembro-me de que alguém perguntou se eu estava bem. Tirei forças não sei de onde, engoli as lágrimas e para ser educada respondi: Sim, eu estou bem! Ele respondeu: Você não parece estar muito sentida com a perda. Olha, vou dar um conselho para você quando for a um velório. Se tu não tens nada de útil a dizer, cala a tua boca e mostre-se consternado com quem está de luto.

Olhei pela última vez o rosto da minha vô e um rio quente e salgado desceu pelos meus olhos. Eu não tive coragem de abraçá-la pela última vez quando a vi deitada na cama respirando pausadamente. Agora ela estava morta! Meu Deus, só então me dei conta, ela não estava dormindo, estava morta! Saí da casa. Estava tão cheia de gente, reparei ao sair me batendo nas pessoas. Nem prestava atenção em quem eram, meus olhos estavam marejados demais; meu coração doía demais; minha mente vagueava demais para me apegar a certos detalhes. Veio então o pior momento. Era a hora do enterro, fecharam o caixão.

Em meio a essa turbulência toda uma amiga especial fez algo inesperado e me ajudou muito nesse momento tão obscuro. A Lívia tinha muito medo de funeral, nunca passava em frente a uma casa onde se tinha uma coroa de flores pendurada na porta. Nem esperava que ela fosse aparecer. Fiquei embaixo de uma árvore na frente da casa quando senti uns braços pequenos me apertarem forte, muito forte por trás, nem olhei para ver quem era, eu já conhecia aqueles pequeninos braços. Era a Lívia! Ela não falou nada, nem mesmo quando precisou me segurar, algumas vezes minhas pernas cambalearam. O silêncio dela me disse tantas coisas.

Pareceu levar uma eternidade para percorrermos o caminho que levava ao cemitério naquele fim de tarde. Os homens carregavam o caixão. No povoado de Almas é tradição os amigos fazerem isso. O carro da funerária acompanhava tocando uma marcha fúnebre. Maldita marcha fúnebre! Danem-se todas as marcas fúnebres! Eu queria que parassem de tocar a porcaria daquela música; eu queria que cessassem todas aquelas súplicas, eu queria o silêncio do lado de fora, porque por dentro o barulho estava ensurdecedor; eu só queria caminhar em paz com as minhas memórias. A tarde se findava com um tom de gris. O sol se pôs em tons mais alaranjados, vermelho escuro e cinza, senti como se o céu estivesse consternado, como se entendesse o que eu sentia.

 A manhã do dia quatro de setembro de dois mil e dezesseis, tinha tudo para ser mais um dia de trabalho normal mas, o estranho silêncio que tomava todo o lugar foi interrompido por meu celular tocando. Foi então que ouvi aquela frase: Tua vó Deja morreu! Eu me recusei a acreditar, tinha falado com ela antes de dormir e ela estava tão bem, tão contente. Fiquei um tempo sentada na cama tentando me convencer de que era verdade, e que ela havia mesmo sofrido um enfarto.

Eu olhei para ela naquele caixão, sem brincos, sem anéis nem batom, as unhas sem pintar, pensei comigo: Ela não ia gostar de se ver assim. Estava sempre tão arrumada. Quando íamos sair ela dizia:  Nada de sair feia, vamos colocar umas coisinhas, ninguém sai comigo desarrumada. Ela também não iria gostar daquele cheiro de flores mortas, preferia mesmo era um bom perfume. Estava tão dura, mas parecia sorrir, ou talvez eu só estivesse projetando a imagem de como gostava de vê-la.

Todo aquele ritual novamente, dessa vez sem marcha fúnebre. Eu disse sem arrodeio: Deixem minha dor em paz. Não deixei aquelas “rasga mortalha[1]” cantarem nada. E fui de novo fazendo o mesmo caminho, mas dessa vez, eu fui conversando com a minha dor: É estranho, mas estou aqui outra vez me arrastando, carregando você, é mais uma saudade que vou levando, nunca vou me acostumar com isso. Olhei para o céu e ele estava novamente se pondo alaranjado, vermelho escuro e cinza; consternado, tranquilo e triste. Até os dias de hoje, para mim, o pôr do sol traz um pouco de saudade, tem tons de despedida. O sol foi embora como elas, naqueles dias em meu coração ficaram apenas os crepúsculos.

[1] Ave de rapina noturna que tem seu canto considerado como agouro.

 

Mary Almeida

Natal na barca

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.

— Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.

— Quente?

— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:

— Mas a senhora mora aqui perto?

— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

— Seu filho?

— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.

— É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

— E esse? Que idade tem?

— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

— Seu marido está à sua espera?

— Meu marido me abandonou.

Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

— Há muito tempo? Que seu marido…

— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

— A senhora é conformada.

— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

— Deus — repeti vagamente.

— A senhora não acredita em Deus?

— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…

Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:

— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim

— Estamos chegando — anunciou.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

– Chegamos!… Ei! chegamos!

Aproximei-me evitando encará-la.

— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

— Acordou?!

Ela sorriu:

— Veja…

Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E  pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.

 

Lygia Fagundes Telles

 

Plástica

Ela tem uma mania. Me dê os documentos para colocar num saquinho plástico. Sempre tem algum por perto para preservar os documentos, os alimentos. Faz coleção de vasilhames plásticos para a cozinha, variadas cores e formatos. Ponho as saladas nos verdes com tampas transparentes, conserva por mais tempo e identifico rápido o conteúdo. Vermelho para as carnes vermelhas. Azul para os peixes. Considera os polímeros e polietilenos os grandes compostos da química. O plástico? Uma invenção humana espetacular! Não imagino a vida sem eles. Como eu ia guardar, conservar, organizar a minha vida? Impossível.

Envelopes plásticos incolor para os documentos. Classificadores polietilênicos coloridos com etiquetas para os planos de aula, as atividades e avaliações de cada turma. Os livros guardados em plásticas caixas arquivos identificadas pela série a que se destina. Os sapatos? Transparentes plásticos envolvem-nos dentro do armário. Para qualquer lado que se olhe um objeto plasticamente posicionado. Além do mais, eles têm vida longa. Conservam os outros e a si próprios. Ela preservava tudo à sua volta. A durabilidade dos anos de vida não lhe deixou escolha: fez plástica no corpo todo.

 

Lílian Almeida (publicado inicialmente no OXE: portal da literatura baiana contemporânea)

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Cinza de monturo

A urna. Abriu-a junto ao lago do parque. Lágrimas suspenderam um pó fino dentro da caixa. Olhava e não via aquele instante, o passado frio na memória acesa. Os restos dele desfaziam-se no vento antes de tocar a água. Quarenta e oito horas, meses, anos. O velório do marido enfartado. O coração saturou de sebosas emoções, explodiu, ela dizia. Por baixo das cinzas, brasa.

Menina, dezesseis anos, o quarto cor de rosa, a foto do noivo na penteadeira. Recato e castidade. Filha minha é moça direita, namorado tem que respeitar. Ele respeitava, se encolhia no desejo espaçoso de rapaz homem feito. Se espalhava nos flertes e namoros sem obrigação de casar. Ela, doce, delicadeza em voz de pêssego, no chamar de meu amor. Ele, troante voz em carinhos e presentes declarados como amor. Ela preparando o enxoval, era moça pra casar. Ele reconhecia e se esmerava em preparar o lar. Casamento é coisa séria, se Deus uniu o homem não tem que desmanchar. Marcha nupcial, vestido branco, aliança, beijo, arroz.

Um teto, duas cabeças. Similitudes, dessemelhanças, convergências para o mesmo morar. Delicadezas e carinhos e afagos. Meu amor. Meu amor. Onde está o meu pijama? Você esqueceu a toalha molhada na cama. Você sabe que eu não gosto de cebola. Não deixe os sapatos na sala. O cor de rosa escorria pela toalha. Ela exímia no perfume e no corpo fresco do banho. Ele chegava, beijava, não comentava. Não repare, meu amor, eu sou mesmo assim. Ela reparava. O cotidiano imprimia novos tons, para longe o rosa  adolescente.

O choro exigia colo e o peito na manhã antes da aurora. Resoluta, dividida entre a cama e o berço, entre o sonho, o sono e a vigília. O sonho. O primeiro filho, encanto na maternidade desejada. O primeiro peito rachado, sangrando rosa na boca do menino. Ele trazia as fraldas, as mamadeiras. Ela amamentava, ninava, balançava o berço, cantava e deitava na cama na hora de levantar. Cólicas, choro. Dentes, choro. Quedas, choro. Mamãe. O peito caído, a barriga caída. Ela afundada no corpo que não era mais. Corpo de desejos. Ele e o urro de trovão no desejo convergindo para o desejo dela. Ela e o arfar de pétala no gozo sobre o gozo dele. O corpo não mais o corpo. O corpo ainda um corpo.

O choro acendia a madrugada. Fraldas, mamadeiras, berço, cantigas. O segundo filho. O mesmo ficar acordada. Diferente acalentar, amamentar. O bico do peito resistente. Uma flor láctea molhada no peito cheio. As madrugadas acesas no quarto do bebê. Ele dormia sonhos de salários altos e o carro novo e o futebol no fim de semana. Ela cochilava desejos de filhos saudáveis, casa arrumada e uma noite inteira para dormir. O choro, o sobressalto no refluxo cheio de medo. Medo de engasgar. Medo de não respirar. Medo de perder o filho. Cólicas, dentes, quedas. Consistência e segurança em cuidar. Outra vez o peito mais que caído. A barriga murcha. Estrias, flacidez. O corpo já era. Ele ampliando as rugas dela. Ele exaltando o atlético dele. Ela se desfalecendo na pele sobressalente, se diminuindo no aumentado peso. Ele se exercendo na voz de trovão sobre a voz de pêssego. Ele e ela no rosa derretido que manchava as paredes da família. Cinzas espalhavam-se sobre os bibelôs.

O velório do marido enfartado. O coração saturou de sebosas emoções, explodiu, ela dizia. Por baixo das cinzas, brasa. Os filhos doíam em faces molhadas ao lado da mãe. O coração dela descontraía de pesados anos.

A casa era uma casa para quatro. O pai, a mãe, o filho, outro filho. Os quartos eram pra dois: dois pequenos, dois maiores. Carros, bolas, bonecos, heróis. Infância no quarto dos meninos. Cama, almofadas, toalha molhada, cortina embolorada. Enfado no quarto dos pais. Fado? Se Deus uniu o homem não tem que desmanchar. Ele chegando tarde. Os meninos dormindo cedo.  Ela acordada no esperar. Ele cheirando a bebida, a perfume de mulher. Ela dizia, ele reagia. O que você queria, sua gorda? Ela se encolhia nas dobras do corpo. Emagrecimento. Casamento. Dietas. Recompôs as refeições em light. Refez os lanches em diet. Elevador? Escadas. Esmerava-se por deixar os quilos longe. Ela diminuía. Busto, cintura, quadril. Ela falava das roupas folgadas. Ele não ouvia, não via, não comentava. Ele não reparava, ele era mesmo assim. Ela notava, aceitava. Mais se exigia no emagrecer. Um dia ele notaria? Aguardava.

Os filhos. Ela se alegrava com a saúde dos meninos, com a alegria deles, as brincadeiras. Felicidade única, era mãe de seus filhos. Preparava festinhas de aniversário, ía ao pediatra, levava para a escola, ensinava a lição. Educação, crenças, valores. Respeito, meu filho, pelas pessoas. Que brinquedo é esse? Onde você pegou? Devolva! Não se pega no alheio. Por que você agrediu a coleguinha? Em mulher não se bate nem com flor. O pai, voz de trovão e medo. Medo de o pai brigar. Medo de apanhar. Medo de ficar de castigo. O pai trazendo brinquedos. O pai trazendo livros. O pai trazendo camisinha. Filho meu é macho desde cedo. Cadê as meninas da sua escola? E as do prédio? Amizade da infância? Homem não tem amizade com mulher. Ela se retorcia. Ele dizia como era e como seria. Os filhos, as garotas, a virilidade rija. Ela semidizia. Respeito, meu filho, tudo com respeito.

Ele chegando tarde com rosto de riso. Ela esperando com rosto de raiva. A comida fria na mesa. O corpo frio na cama. Ele para um lado, ela para outro. A vizinha inquietava. Como podia? Ele é bonito,  você também. Ele não quer? Dê pra outro. Como fazia? Impelia-se em aprender os truques da amiga. Tome banho, perfume-se e deite nua. Só o lençol. Nua? Não conseguia. Ela na cama, calcinha e lençol.  A pele e a pele no virar-se dele. O frescor de banho e o calor de brasa. Ele lembrando do corpo dela, do cheiro dela. Ele retornando para ela? Ela indo para ele. Ela espanava as cinzas grudadas na pele, na vida. Um dia, dois, alguns. Manhãs em riso e café quente. Ela penteava-se, perfumava-se e vestia-se para o marido recém chegado. Beijos e jantas e apalpadelas na bunda sob o vestido. O sucesso da receita impulsionava combinações. Camisola, perfume, velas e aromas para o quarto de prazeres. Ela derramava-se em gozo sobre o gozo dele em urro de trovão. A vizinha indicava caminhos. Faça isso, faça aquilo, faça assim. Ela conseguiria? Filha minha é moça direita. Ele gostava e gozava e dizia como queria. Ela tentava. O desejo dela caminhava ao encontro da virilidade em correnteza dele. Descompasso. Ela se recolhia. Ele se exercia em riste. Eles em dessintonia. Ele reclamava, acusava, ameaçava. Ela chorava. Fui moça pra casar, não aprendi a trepar.

Outra vez as noites à espera. Os filhos chegando tarde das festas. O marido chegando tarde da vida. Outra vez o perfume de mulher, o álcool na boca. Ela dizia, ele desdizia. A marca de batom, o telefone no bolso da calça. Comprovações. A cama, ninho de raiva. Ela para um lado. Ele para outro. Ela se revolvia. Com outro homem como seria? Conseguiria? Repetência no recolher-se? Quem ensinaria? Ela até queria. Filha minha é moça direita. Se Deus uniu o homem não tem que desmanchar. Meses, anos.

O velório do marido enfartado. O coração saturou de sebosas emoções, explodiu, ela dizia. Por baixo das cinzas, brasa. Os filhos doíam em faces molhadas ao lado da mãe. O coração dela descontraía de pesados anos. Saudações e cumprimentos dos amigos dele, da vizinha dela. Em quarenta e oito horas as cinzas estariam disponíveis para a família depositá-las onde desejasse. Um dia. Ela cuidando de doar tudo o que era dele. Outro dia. Ela com o olhar vivo, mudando os móveis de lugar. A urna. Abriu-a junto ao lago do parque. Lágrimas suspenderam um pó fino dentro da caixa. Último encontro. Girou a mão, deixou que os restos se desfizessem no vento. Peixes testemunhavam o instante. Alguma poeira sobrou na caixa. Ela soprou, definitivamente, as últimas cinzas.

 

Lílian Almeida (texto originalmente publicado na Revista Raimundo (inverno/primavera 2016)

Profundanças 2: antologia literária e fotográfica

Capa Profundanças2_Arte de Icaro Gibran

Arte: Ícaro Gibran (Imagem disponível na internet)

Acabou de nascer o segundo volume da antologia literária e fotográfica Profundanças. Organizada pela professora universitária, poeta, performer, Daniela Galdino, Profundanças 2 reúne dezesseis mulheres e seus poemas, contos, crônicas, além de ensaios fotográficos que dizem do universo dessas autoras, produzidos por 19 fotógrafes.

Em 2014, o primeiro volume de Profundanças veio a lume evidenciando escritos de autoras em sua maioria inéditas ou com apenas um livro publicado. Abria-se ali um espaço para o diálogo entre expressões artísticas e vozes diversas, para tirar da gaveta o texto e assumir a escrita para leitores do ciberespaço. Uma proposta de difusão e democratização da leitura e da experiência literária, haja vista o livro estar disponível para download na internet através da produtora baiana Voo Audiovisual.

No dia em que Frida Khalo completaria 110 anos, 06 de julho de 2017, o Profundanças 2: antologia literária e fotográfica foi lançado virtualmente e disponibilizado para o público. Em sintonia com o caráter insurgente da pintora mexicana, a obra é fruto de ações colaborativas e representa as resistências e lutas de mulheres para sustentar a voz literária num mercado editorial (e não só) altamente excludente. Estão “irmanades pelo grito” artistas negras, não negras, trans não-binárias da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo. A partir do lugar da desobediência é que as escritas e fotografias dançam um bailado insurgente às formas e fôrmas, como assinala Daniela Galdino na apresentação do livro: “cá estamos na continuidade da desobediência. Por refutarmos as dinâmicas literárias que, a cada dia, fabricam a nossa invisibilidade. Por sabermos que somos muitas em profundas relações com a palavra. Por sentirmos uma necessidade avassaladora de falar com outres, ouvir as palavras suas. Por sabermos que alguns nos querem mortas. (…) Estamos na mira constante: nós, mulheres – ainda mais se negras, indígenas, trans, lésbicas, pobres. Ou sucumbimos à mira, ou inventamos formas de re-existir”. Sem sombra de dúvidas, Profundanças é uma forma de re-existir!

Confira abaixo mais um pouco da Apresentação do livro, um aperitivo para o banquete literário e fotográfico guardado nas páginas de Profundanças 2: antologia literária e fotográfica. Faça o download gratuito em:

  http://vooaudiovisual.com.br/projects/profundancas2/