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Profundanças 2: antologia literária e fotográfica

Capa Profundanças2_Arte de Icaro Gibran

Arte: Ícaro Gibran (Imagem disponível na internet)

Acabou de nascer o segundo volume da antologia literária e fotográfica Profundanças. Organizada pela professora universitária, poeta, performer, Daniela Galdino, Profundanças 2 reúne dezesseis mulheres e seus poemas, contos, crônicas, além de ensaios fotográficos que dizem do universo dessas autoras, produzidos por 19 fotógrafes.

Em 2014, o primeiro volume de Profundanças veio a lume evidenciando escritos de autoras em sua maioria inéditas ou com apenas um livro publicado. Abria-se ali um espaço para o diálogo entre expressões artísticas e vozes diversas, para tirar da gaveta o texto e assumir a escrita para leitores do ciberespaço. Uma proposta de difusão e democratização da leitura e da experiência literária, haja vista o livro estar disponível para download na internet através da produtora baiana Voo Audiovisual.

No dia em que Frida Khalo completaria 110 anos, 06 de julho de 2017, o Profundanças 2: antologia literária e fotográfica foi lançado virtualmente e disponibilizado para o público. Em sintonia com o caráter insurgente da pintora mexicana, a obra é fruto de ações colaborativas e representa as resistências e lutas de mulheres para sustentar a voz literária num mercado editorial (e não só) altamente excludente. Estão “irmanades pelo grito” artistas negras, não negras, trans não-binárias da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo. A partir do lugar da desobediência é que as escritas e fotografias dançam um bailado insurgente às formas e fôrmas, como assinala Daniela Galdino na apresentação do livro: “cá estamos na continuidade da desobediência. Por refutarmos as dinâmicas literárias que, a cada dia, fabricam a nossa invisibilidade. Por sabermos que somos muitas em profundas relações com a palavra. Por sentirmos uma necessidade avassaladora de falar com outres, ouvir as palavras suas. Por sabermos que alguns nos querem mortas. (…) Estamos na mira constante: nós, mulheres – ainda mais se negras, indígenas, trans, lésbicas, pobres. Ou sucumbimos à mira, ou inventamos formas de re-existir”. Sem sombra de dúvidas, Profundanças é uma forma de re-existir!

Confira abaixo mais um pouco da Apresentação do livro, um aperitivo para o banquete literário e fotográfico guardado nas páginas de Profundanças 2: antologia literária e fotográfica. Faça o download gratuito em:

  http://vooaudiovisual.com.br/projects/profundancas2/

 

Rotina

Primeiro alarme. Levantar. O black amassado no espelho. Os olhos resistiam a acordar. Eliminou da bexiga o acúmulo da noite. Sentada no trono cochilava uma despedida de Morfeu. O relógio marcava, inconteste, as horas no sem tempo. A água fria no rosto ajudava a começar o dia.

A moringa de água fresca esperando para tocar o vidro do copo em cima da pia da cozinha. O gesto igual todos os dias. Um copo. Dois. Acordar por dentro pra ver se por fora também acontece. A água desce lavando o dentro, ela se encaminha para lavar por fora.

O banho quente, a pasta cuspida no chão. No chão, a água encaminha tudo para onde. Dejeto, descarte, depósito. Toalha, desodorante, calcinha, soutien. Aproveita a umidade do cabelo e acrescenta um pouco de creme. Dá forma e arruma. A melhor coisa que fiz foi deixar você ser o que é, não foi? Amassa a cabeleira e arremessa um beijo ao espelho.

Limpeza parte dois. Higiene da cabeça. Ora pra Buda. Canta uma ladainha pros ancestrais. Medita para o vento. Manter a mente quieta e o coração tranquilo. Desistiu da coluna ereta, a escoliose impossibilitava. A turma do invisível sabia que só tinha quinze minutos para tudo isso.

Inspiro, expiro. Não seguro os pensamentos. Auto conduzir-se no exercício de aquietar. As tarefas do dia levitando na mente. Deixar passar. Soltar. Sentir o ar entrar e sair. O ar que entra a barriga aumenta. O ar que sai a barriga retrai.

O dia anterior. Procurava a casa da tia da amiga. Próximo do motel. As duas dentro do carro, perdidas no bairro que não sabiam. Sem nome de rua, só o do motel e o residencial ao lado do motel. Como faço para chegar no motel? A cara desconfiada da mulher da banca de revista. Entra ali, dobra à esquerda, segue, vira. A amiga fazia o tipo menos feminino com aquele cabelo joãozinho. Entra, sai, vai, vira, não acha. Como faço para chegar no motel? Agora o vendedor de caldo de cana. O motel? Perguntou com ar de riso. Sonoro e sério sim. A segunda rua à direita. Os vidros subindo, eu séria e ela rindo. A gente devia ir ao motel. Todo esse tempo procurando por ele e nem gozar? Começo de noite, sexta feira, happy hour no motel, sexo. Gargalhei. Meu tesão é por protuberâncias fálicas e linhas retas. Suas curvas não me abalam. Ela gargalhou. Ah, o Tuca aqui. Verdade. Admiti que ele tinha tudo o que um dia a gente quis para uma transa. Depois do motel, primeira à esquerda. O residencial. Um beijo na sua tia e uma esticada até o motel.

Divagação da porra. Voltar, respirar. O ar entra, o ar sai. O alarme toca. Vinte minutos para o ônibus da empresa passar. Adeus ficar zen o dia inteiro. E o pessoal da intuição que me traria para o agora depois de quinze minutos estava atrasado ou com sono. A mesma correria. Calça, blusa, perfume, batom. Calçou os sapatos, pegou a bolsa sempre pronta. Tirou uma pera da fruteira, enrolou no guardanapo e colocou na bolsa. Café agora só na lanchonete do prédio da empresa. Fez um sinal da cruz e atravessou a porta de casa.

Lílian Almeida

O alpiste

Todas as manhãs, madrugada ainda, eles vinham à janela, em bandos, revoadas mornas e leves. O alpiste delicadamente espalhado no parapeito. As brandas asas roçando o vidro da vidraça. Os ágeis bicos no alpiste generoso. Aquém do vidro, os expectantes olhos de quem no esperado espera o inesperado. O inesperável. Além do vidro da janela, a manhã esperada no desabrochar dos cálidos vôos. Entre os trepidantes ramos, os ninhos. Entre os ninhos palpitantes e o vidro frio, o alado risco da espera, nos loiros grãos, nos aéreos bicos, no etéreo olhar transpassando o invi(dro)sível. A repetição dos gestos dos fatos dos atos. O percurso. A mão compondo o alpiste. Os passarinhos dispondo os bicos. Os ramos à disposição do rápido brilho. O percurso do sol no arco do dia. Novo sol novo arco novo olhar novíssimos vôos. Nova espera. Novo dia.

Na janela do terceiro andar, todos os dias o novo dia vinha no vôo dos passarinhos em busca do alpiste sempre exato. Aquém do vidro, o olhar expectante. Além, as revoadas esperadas. Em frente, os rútilos ramos. Acima, o ruivo céu. Abaixo, a janela do segundo andar. Geometricamente imediata. Onde ninguém depositava o alpiste, mas onde caía sua suja chuva mas onde as rolinhas também iam ávidos bicos.

Por favor, senhor síndico, esses bichos sujam minha janela de porcaria, embaçam meus vidros, jogam alpiste dentro da sala. Por favor, senhor síndico.

Sim senhora madame. A senhora tem toda razão. Sim senhora. Mas a moradora do terceiro andar. Tenha paciência madame.

Então, naquela manhã, a janela do segundo andar apareceu coberta de alpiste. Inesperadamente. Os vôos se dividiam fervorosos entre o segundo andar e o terceiro. Asas fofas vagos bicos incauta fome.

Então.

Na manhã seguinte, o olhar expectante esperou em vão. O alpiste suavemente espalhado no parapeito. Em vão o olhar expectante à espera do inesperado no esperado dos vôos. O inesperável. Se a mulher do terceiro andar pudesse levantar-se da cadeira de rodas para debruçar-se da sua janela, teria visto muitos corpos de passarinhos mortos caídos pelo chão. Aquém do vidro, o olhar. Além, os ramos, pesados de ninhos envenenados. Acima, o céu ruivo. Ou loiro?

Abaixo, uma janela. Terrivelmente limpa.

Helena Parente Cunha. Os provisórios. Antares/ INL, 1990.

Noite de núpcias

Abra as perninhas, vamos, meu amor, não tenha medo, não vai doer nada, eu quero ter você todinha pra mim, já esperei tanto, meu amor
amanhã, vamos deixar para amanhã
abra as perninhas, meu amor
a gente tem que fazer de qualquer maneira no dia do casamento ? não se pode deixar para outro dia?
já esperei tanto, meu amor, olhe só como é que eu estou, venha, não tenha medo
vamos ficar somente assim, bem juntinhos

 

(vamos ficar sempre juntos, meu filhos, uma família unida é a coisa mais bonita que tem, eu quero vocês sempre junto de mim)

 

abra as perninhas, meu amor
eu estou com tanto medo, você vai me machucar

 

(não me machuque, não me bata, eu juro que não fui eu que quebrei o barquinho de Dudu
tire a roupa que eu quero ver como é que você é só um pouquinho?
você já está crescendo, não é?
quando eu crescer
mas onde é que estas crianças se esconderam? o que é que vocês estão fazendo aí, escondidos?
eu não posso ir ao seu aniversário, porque estou de castigo, nem adianta pedir, porque castigo é castigo)
eu quero ver você nuinha, meu amor, tire a camisola, assim, não se encolha não sua boba, me deixe passar a mão, bem de leve, não é bom? assim
meu amor
passe a mão em mim também, assim, que bom
meu amor
você é tão bonita assim, toda nua, toda minha, toda em minhas mãos, em meu corpo, seu corpo, eu quero mergulhar inteiro no seu corpo
meu amor
abra as perninhas, vamos, assim

 

(as meninas devem andar com as pernas juntas, sentar com as pernas juntas e ficar de pé com as pernas bem juntinhas. É falta de modos moça ficar de perna aberta)

 

Helena Parente Cunha. Os provisórios. 2ed. Rio de Janeiro; Brasília: Antares; INL, 1990.

 

Ruído de passos

Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se dona Cândida Raposo.
Essa senhora tinha a vertigem de viver. A vertigem se acentuava quando ia passar dias numa fazenda: a altitude, o verde das árvores, a chuva, tudo isso a piorava. Quando ouvia Liszt se arrepiava toda. Fora linda na juventude. E tinha vertigem quando cheirava profundamente uma rosa.
Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo de prazer não passava.
Teve enfim a grande coragem de ir a um ginecologista. E perguntou – lhe envergonhada, de cabeça baixa:
– Quando é que passa?
– Passa o quê, minha senhora?
– A coisa.
– Que coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.
– Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca.
Olhou-o espantada.
– Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!
– Não importa, minha senhora. É até morrer.
– Mas isso é o inferno!
– É a vida, senhora Raposo
A vida era isso, então? essa falta de vergonha?
– E o que é que eu faço? Ninguém me quer mais…
O médico olhou – a com piedade.
– Não há remédio, minha senhora.
– E se eu pagasse ?
– Não ia adiantar de nada. A senhora tem que se lembrar que tem oitenta e um anos de idade.
– E… e se eu me arranjasse sozinha? o senhor entende o que eu quero dizer?
– É, disse o médico. Pode ser um remédio.
Então saiu do consultório. A filha esperava-a embaixo, de carro. Um filho Cândida Raposo perdera na guerra, era um pracinha. Tinha essa intolerável dor no coração: a de sobreviver a um ser adorado.
Nessa mesma noite deu um jeito e solitária satisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois chorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o mesmo processo. Sempre triste. É a vida, senhora Raposo, é a vida. Até a benção da morte.
A morte.
Pareceu – lhe ouvir ruído de passos. Os passos de seu marido Antenor Raposo.

LISPECTOR, Clarice. A Via Crucis do Corpo. 4ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.

O dia em que explodiu Mabata-bata

De repente, o boi explodiu. Rebentou sem um múúú. No capim em volta choveram pedaços e fatias, grão e folhas de boi. A carne eram já borboletas vermelhas. Os ossos eram moedas espalhadas. Os chifres ficaram num qualquer ramo, balouçando a imitar a vida, no invisível do vento.

O espanto não cabia em Azarias, o pequeno pastor. Ainda há um instante ele admirava o grande boi malhado, chamado de Mabata-bata. O bicho pastava mais vagaroso que a preguiça. Era o maior da manada, régulo da chifraria, e estava destinado como prenda de lobolo do tio Raul, dono da criação. Azarias trabalhava para ele desde que era órfão. Despegava antes da luz para que os bois comessem o cacimbo das primeiras horas.

Olhou a desgraça: o boi poeirado, eco de silêncio, sombra de nada.

“Deve ser foi um relâmpago”, pensou.

Mas relâmpago não podia. O céu estava liso, azul sem mancha. De onde saíra o raio? Ou foi a terra que relampejou?

Interrogou o horizonte, por cima das árvores. Talvez o ndlati, a ave do relâmpago, ainda rodasse os céus. Apontou os olhos na montanha em frente. A morada do ndlati era ali, onde se juntos os todos rios para nascerem para nascerem da mesma vontade da água. O ndlati vive nas suas quatro cores escondidas e só se destapa quando as nuvens rugem na rouquidão do céu. É então que o ndlati sobe aos céus, enlouquecido. Nas alturas se veste de chamas, e lança seu vôo incendiado sobre os seres da terra. Às vezes atira-se no chão, buracando-o. Fica na cova e ali deita a sua urina.

Uma vez foi preciso chamar as ciências do velho feiticeiro para escovar aquele ninho e retirar os ácidos depósitos. Talvez o Mabata-bata pisara uma réstia maligna do ndlati. Mas quem podia acreditar? O tio, não. Havia de querer ver o boi falecido, ao menos ser apresentado uma prova do desastre. Já conhecia bois relampejados: ficavam corpos queimados, cinzas arrumadas a lembrar o corpo. O fogo mastiga, não engole de uma só vez, conforme sucedeu-se.

Reparou em volta, os outros bois assustados, espalharam-se pelo mato. O medo escorregou dos olhos do pequeno pastor.

Não apareças sem um boi, Azarias. Só digo: é melhor nem apareceres.

A ameaça do tio soprava-lhe os ouvidos. Aquela angústia comia-lhe o ar todo. Que podia fazer? Os pensamentos corriam-lhe como sombras mas não encontravam saídas. Havia uma só solução: era fugir, tentar os caminhos onde não sabia mais nada. Fugir é morrer de um lugar e ele, com os seus calções rotos, um saco velho a tiracolo, que saudade deixava? Maus tratos, atrás dos bois. Os filhos dos outros tinham direito da escola. Ele não, não era filho. O serviço arrancava-o cedo da cama e devolvia-o ao sono quando dentro dele já não havia resto de infância. Brincar era só com os animais: nadar o rio a boleia do rabo do Mabata-bata, apostar na briga dos mais fortes. Em casa, o tio advinha-lhe o futuro:

– Este, da maneira que vive misturado com a criação há-de casar com uma vaca.

E todos se riam, sem quererem saber da sua alma pequenina, dos seus sonhos maltratados. Por isso, olhou sem pena para o campo que iria deixar. Calculou o dentro do seu saco: uma fisga, frutos de djambalau, um canivete enferrujado. Tão pouco não pode deixar saudade. Partiu na direcção do rio. Sentia que não fugia: estava apenas a começar o seu caminho. Quando chegou ao rio, atravessou a fronteira da água. Na outra margem parou à espera nem sabia de quê.

Ao fim da tarde a avó Carolina esperava Raul à porta da casa. Quando chegou ela disparou a aflição:

Essas horas e o Azarias ainda não chegou com os bois.

O quê? Esse malandro vai apanhar muito bem, quando chegar.

Não é que aconteceu uma coisa, Raul? Tenho medo, esses bandidos…

Aconteceu brincadeira dele, mais nada.

Sentaram na esteira e jantaram. Falaram das coisas do lobolo, preparação do casamento. De repente, alguém bateu à porta. Raul levantou-se interrogando os olhos da avó Carolina. Abriu a porta: eram os soldados, três.

Boa noite, precisam alguma coisa?

Boa noite, viemos comunicar o acontecimento: rebentou uma mina esta tarde, foi um boi que pisou. Agora, esse boi pertencia daqui.

 Outro soldado acrescentou:

Queremos saber onde está o pastor dele.

O pastor estamos à espera – respondeu Raul. E vociferou: – Malditos bandos!

–  Quando chegar queremos falar com ele, saber como foi sucedido. É bom ninguém sair na parte da montanha. Os bandidos andaram espalhar minas nesse lado.

Despediram. Raul ficou, rodando à volta das suas perguntas. Esses sacana do Azarias onde foi? E os outros bois andariam espalhados por aí?

Avó: eu não posso ficar assim. Tenho que ir ver onde está esse malandro. Deve ser talvez deixou a manada fugentar-se. É preciso juntar os bois enquanto é cedo.

 – Não podes, Raul. Olha os soldados o que disseram. É perigoso.

Mas ele desouviu e meteu-se pela noite. Mato tem subúrbio? Tem: é onde o Azarias conduzia os animais. Raul, rasgando-se nas micaias, aceitou a ciência do miúdo. Ninguém competia com ele na sabedoria da terra. Calculou que o pequeno pastor escolhera refugiar-se no vale.

Chegou ao rio e subiu às grandes pedras. A voz superior, ordenou:

Azarias, volta. Azarias!

Só o rio respondia, desenterrando a sua voz corredeira. Nada em toda à volta. Mas ele adivinhava a presença oculta do sobrinho.

Apareças lá, não tenhas medo. Não vou-te bater, juro.

Jurava mentiras. Não ia bater: ia matar-lhe de porrada, quando acabasse de juntar os bois. No enquanto escolheu sentar, estátua de escuro. Os olhos habituados à penumbra desembarcaram na outra margem. De repente, escutou passos no mato. Ficou alerta.

Azarias?

Não era. Chegou-lhe a voz de Carolina.

Sou eu, Raul.

Maldita velha, que vinha ali fazer? Trapalhar só. Ainda pisava na mina, rebentava-se e, pior, estoirava com ela também.

Volta em casa, avó!

O Azarias vai negar de ouvir quando chamares. A mim, há-de ouvir.

E aplicou sua confiança, chamando o pastor. Por trás das sombras, uma silhueta deu aparecimento.

És tu, Azarias. Volta comigo, vamos pra casa.

Não quero, vou fugir.

O Raul foi descendo, gatinhoso, pronto pra saltar e agarrar as goelas do sobrinho.

Vais fugir para onde, meu filho?

Não tenho onde, avó.

–  Esse gajo vai voltar nem que eu lhe chamboqueie até partir-se dos bocados – precipitou-se a voz rasteira de Raul.

– Cala-te, Raul. Na tua vida nem sabes da miséria – E voltando-se para o pastor: – Anda meu filho, só vens comigo. Não tens culpa do boi que morreu. Anda ajudar o teu tio juntar os animais.

Não é preciso. Os bois estão aqui, perto comigo.

Raul ergueu-se, desconfiado. O coração batucava-lhe o peito.

Como é? Os bois estão aí?

Sim, estão.

Enroscou-se o silêncio. O tio não estava certo da verdade de Azarias.

Sobrinho: fizeste mesmo? Juntaste os bois?

A avó sorria pensando no fim das brigas daqueles os dois. Prometeu um prêmio e pediu ao miúdo que escolhesse.

O teu tio está muito satisfeito. Escolhe. Há-de respeitar o teu pedido.

Raul achou melhor concordar com tudo, naquele momento. Depois, emendaria as ilusões do rapaz e voltariam as obrigações do serviço das pastagens.

Fala lá o seu pedido.

Tio: próximo ano posso ir na escola?

Já adivinhava. Nem pensar. Autorizar a escola era ficar sem guia para os bois. Mas o momento pedia fingimento e ele falou de costas para o pensamento:

Vais, vais.

É verdade, tio?

Quantas bocas tenho, afinal?

Posso continuar ajudar nos bois. A escola só frequentamos da parte de tarde.

Está certo. Mas tudo isso falamos depois. Anda lá daqui.

O pequeno pastor saiu da sombra e correu o areal onde o rio dava passagem. De súbito, deflagrou um clarão, parecia o meio-dia da noite. O pequeno pastor engoliu aquele todo vermelho, era o grito do fogo estourando. Nas migalhas da noite viu descer o ndlati, a ave do relâmpago. Quis gritar:

Vens pousar quem, ndlati?

Mas nada não falou. Não era o rio que afundava suas palavras: era um fruto vazando de ouvidos, dores e cores. Em volta tudo fechava, mesmo o rio suicidava sua água, o mundo embrulhava o chão nos fumos brancos.

Vens pousar a avó, coitada, tão boa? Ou preferes no tio, afinal das contas, arrependido e prometente como o pai verdadeiro que morreu-me?

E antes que a ave do fogo se decidisse Azarias correu e abraçou-a na viagem de sua chama.

Mia Couto. A menina sem palavra. Boa companhia, 2013.

Avó

Graça, tenha cuidado ao limpar essa cadeira. Ela tem muito tempo, não sei se consigo repor as tiras caso alguma delas se rompa, falou, parada na porta da cozinha. A senhora gosta mesmo dela, é? Não combina muito com os móveis da sala, é velha. A senhora não acha? Não. Minha casa tem espaços vivos e a sala só tem vida por causa dessa cadeira de balanço. Desculpe, dona Maembi, não quis ofender não. Ela foi de sua avó, né? Exatamente por isso.

No canto da sala, ao lado da porta de vidro que separava a varanda, a cadeira de ferro e tiras plásticas da avó Dejanira balançava. O abajur em pedestal iluminava a memória das linhas do crochê da avó, quando ela estava lá para contar histórias como quem acrescentava novos pontos no bordado que fazia. Maembi costumava sentar-se ao lado da avó, no sofá em frente à televisão. A cadeira ficava ali, como se mantivesse a avó a fazer crochê e ponto cruz.

Voltou para o escritório, irritada com a impertinência da diarista. Esse povo não tem o menor tato ou bom senso, alinhavava ruminações. Onde já se viu, dizer que um objeto da patroa é velho? O texto aberto na tela do computador. Preciso fechar logo essa matéria para o jornal. A postura da mulher me deixa indignada. Acreditar que o seu crime foi nascer mulher pra fulaninho chegar, assediar, estuprar e tudo o mais. É um absurdo!

Saiu novamente do escritório. Esqueceu de beber água depois da irritação com a diarista por causa da cadeira. Cruzou o corredor que ligava o escritório à sala. Chegou à cozinha remoendo a sujeição da vítima.  Isso é culpa desse sistema filho de um puto, que faz as mulheres se sentirem culpadas por existir, para se desonerar da responsabilidade de apurar os atos contra a vida e a integridade física da mulher. É uma porra mesmo essa sociedade em que a gente vive, Graça. Dizia, indignada, para a diarista. Não entendi direito, dona Maembi, o que é mesmo desonerando? E por que a senhora tá assim, transtornada? Sentou-se no sofá como se retomasse o fôlego e a calma. Desonerando é o mesmo que desobrigar, dispensar, Graça. O jornal entrevistou a moça que foi estuprada no estacionamento da faculdade, se lembra? Sim, me lembro. Pois então, ela diz que a culpa foi dela por ter nascido mulher. Vê se pode? Isso desonera o estuprador, tira a responsabilidade dele. Mas é, dona Maembi, eu mesma já disse pra Deus que na outra encarnação quero ser homem. Mas será o Benedito? Benedito ou não eu quero é ser homem, dona Maembi. Ela olhou desolada para a diarista. Não sabia o que estava dizendo, embora soubesse. Graça, tudo isso é responsabilidade da sociedade machista em que a gente vive. Ela faz a gente se sentir culpada por tudo, até por existir. A responsabilidade do estupro é do estuprador, ele é o criminoso, deve responder pelo seu crime. A moça não deve sentir culpa, não tem responsabilidade nisso, é vítima. É, dona Maembi, pode até ser, mas o certo é que mulher sofre e não é pouco. E mais, a gente é um ser acanhado, se encolhe por um tudo, e numa situação dessas só quer sumir. Olhou atentamente para a diarista, aquela fala era familiar. Mirou a cadeira de balanço. Era assim que a avó dizia: “a vida, minha filha, diz que é pra gente viver encolhida, mas eu acho que não”.

Lá, onde a avó se criou, faltava quase tudo. O regime, como ela dizia, era de guerra. Guerra por sobrevivência. Acordar de manhã era vitória adiada pra de novo lutar. Não faltava pescado e farinha, mandioca dava e a maré não desampara filho seu. O resto, raridade. Seca no chão, sol na pele. Menina, lidava com a mãe na plantação em volta da casa, na maré, quando iam buscar o de comer, e nas coisas de casa. Da casa pra maré, da maré pra casa. E escola, vó, não tinha? Tinha. Não pra menina-mulher, era só pra menino-homem. Os meninos botavam água do poço pra casa, cuidavam dos animais do patrão, galinha, porco, boi, o que tivesse na sobrevivência. De tarde, iam pra escola. Eu ficava com mãe, cosia as roupas furadas no trabalho da roça, se tinha mandioca trabalhava na casa de farinha de seu Tonho, se não, era na maré ou em casa mesmo. Às vezes fazia roupa pras bonecas de milhoo e brincava de fazenda com os ossinhos de galinha. Ah, filha, eu era uma fazendeira bem rica, tinha um rebanho de boi, grande e gordo, ou então era dona de uma terra que tinha um rio no fundo da casa. Era uma fartura o meu sonho de menina. De noite, eu via os meninos fazerem a lição da escola. Eu ficava de junto, olhando e querendo entender aquilo que eles botavam no papel. Meu pai dizia que não, escola não era pra menina. Escola era pra estufar o peito dos meninos e eles saberem lidar no comércio. Pra quê menina ia precisar disso? Tinha que ficar como era, pequena, minguada. Queria se estender pra quê? Mulher era pra ser miúda, homem pra ser grande. Aquilo me cortava por dentro. Eu calava, mas no fundo de mim eu sentia que queria ser grande.

Essa correntinha em cima da mesa, coloco onde? Maembi sobressaltou-se com a voz de Graça. Desculpe, não queria assustar a senhora. Tudo bem. É a correntinha de minha vó Deja. Diala me deu depois de anos guardando a corrente de vó. Agora ela ficará comigo. Parece que a senhora gosta muito dessa avó, né? É. Lembrou-se da impertinência da diarista. Coloque em cima da minha cama. Gosto muito, gosto tanto que acabei de conversar com ela. Vixe, dona Maembi. Ela não é morta? É sim. E você duvida? Deus é mais. Eu, hein.

Lílian Almeida (conto publicado na Subversa, edição de 26 de setembro de 2016)