O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

A noite não adormece nos olhos das mulheres

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia 
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças. 

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
do nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência


Conceição Evaristo. (Fonte: http://nossaescrevivencia.blogspot.com.br/search/label/escrevivencia)

Morte e vida severina – fragmento

APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS
E A ÁGUA DO RIO

— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabes me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado;
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega o abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
— Severino, retirante
pois não sei o que lhe conte;
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço;
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
— Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?
— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alarga
e devasta a terra inteira.
— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
— Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
— Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso de tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

(…)

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE DE NADA

— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.


João Cabral de Melo Neto (Morte e vida severina e outros poemas para vozes.
Nova Fronteira, 1994)

Três canções de amor e dengo

Vermelhor

Se passar um ônibus vermelho
Ela me ama
Quer apostar?
Ah… assim não tem graça
Vermelha é a cor dessa frota
Sem graça é você
Não sabe nem colorir um sonho

 

Céu de Ayrá

Nuvem de urucum e magma
A caminho de Andômeda
Abraçavam o Sol
Sonolento

Da máquina fotográfica
O registro em água e ouro
Revelação
Minha

 

À mulher consagrada a Iemanjá

Amada
Não procure poemas teus
Nesse cascalho de bobagens minhas
Enquanto te amei
Não escrevi poemas a ti
Ocupada demais estive
Em ser feliz

Cidinha da Silva (Canções de amor e dengo, Edições Me Parió Revolução, 2016)

 

Alegria da cidade

A minha pele de ébano é
 A minha alma nua
 Espalhando a luz do sol
 Espelhando a luz da lua
 
 Tem a plumagem da noite
 E a liberdade da rua
 Minha pele é linguagem
 E a leitura é toda sua
 
 Será que você não viu
 Não entendeu o meu toque
 No coração da América eu sou o jazz, sou o rock
 
 Eu sou parte de você, mesmo que você me negue
 Na beleza do afoxé, ou no balanço no reggae
 
 Eu sou o sol da Jamaica
 Sou a cor da Bahia
 Sou sou você e você não sabia
 
 Liberdade Curuzu, Harlem, Palmares, Soweto
 
 Nosso céu é todo blue e o mundo é um grande gueto
 
 Apesar de tanto não
 Tanta dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade
 Apesar de tanto não
 Tanta marginalidade, somos nós a alegria da cidade

Lazzo Matumbi e Jorge Portugal

 

Armado de amor

Volto armado de amor
para trabalhar cantando
na construção da manhã.
Amor dá tudo o que tem.
Reparto a minha esperança
e planto a clara certeza
da vida nova que vem.

Um dia, a cordilheira em fogo,
quase calaram para sempre
o meu coração de companheiro.
Mas atravessei o incêndio
e continuo a cantar.

Ganhei sofrendo a certeza
de que o mundo não é só meu.
Mais que viver, o que importa
(antes que a vida apodreça)
é trabalhar na mudança
de que é preciso mudar.

Cada um na sua vez,
cada qual no seu lugar.

Thiago de Mello

Confraria Poética Feminina IV

Estamos chegando ao fim do ciclo de postagens sobre a antologia Confraria Poética Feminina, organizada por Rita Queiroz. Hoje, a organizadora e também autora nesta ciranda de mulheres e versos nos brinda com seus versos e dois dedos de prosa, na companhia da também confreira Ana Carolina Cruz de Souza. Boa leitura!

Rita Queiroz
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Imagem disponível no perfil de Facebook da autora.

Infinitude

O mundo…
pequeno.
A existência…
insuficiente.
O amor..
não cabe no poema.

L. A. – Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora?

Rita Queiroz – O livro Confraria Poética Feminina é minha primeira publicação como poeta. Comecei publicando no Facebook e me senti encorajada a publicar no livro. Além da realização pessoal, representa também uma realização coletiva, já que para muitas autoras é a primeira publicação. Como tudo o que acontece pela primeira vez, este livro já é inesquecível!

Viagem

Na solidão de mim mesma
Vejo todos à minha volta
Sorridentes, à espera…
Da fotografia revelada
Viva, colorida…
A transbordar venturas
A trazer os sonhos de outrora
Infinitos…
Como a vida!


L. A. – Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook?

Rita Queiroz – Minha escrita só tem crescido após a criação do grupo no Facebook. Publicava em minha página pessoal, havia comentários, mas na página do grupo é diferente. Há um incentivo coletivo para que todas publiquem e quando isso ocorre, as sugestões de títulos, as dicas de como melhorar os textos, as análises, só enriquecem a escrita. Além disso, a leitura dos textos das outras confreiras também influencia a minha escrita. Posso dizer que a Confraria foi um divisor de águas para a minha produção.

Lamento poético

Há uma luta inglória
Entre mim e ti
Palavra insana
Que rasga meu peito
Em vão sofrimento
Dilacerando-me a alma
Sem floração no firmamento.

Não há nada.

Só lamento
Dessa labuta
Não haver nem joio nem trigo
Apenas folhas ao vento.
Ana Carolina Cruz de Souza
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Imagem disponível no perfil de Facebook da autora.

Confissão

Guardo a
efemeridade
e a infinitude
da vida.

Sou (i)mortal
Sou humano
Sou poeta.

L. A. – Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora?

Ana Carolina Souza – O livro Confraria Feminina foi um presente especial na minha vida e na minha trajetória como escritora, pois permitiu-me inserção no meio literário, sem contar o aprendizado adquirido acerca do fazer literário e da poesia contemporânea.

Licor da vida

Beber o licor da vida
Provar o sabor.
Experimentar doses
modestas,
timidamente,
ou tragar grandes goles,
embriagar-se.

L. A. – Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook?

Ana Carolina Souza – Antes da página da Confraria, tinha uma escrita contida, muitas vezes engavetada por timidez ou vergonha de divulgá-la. O espaço concedido por Rita Queiroz através da minha integração ao grupo do Face permitiu-me libertar-me dos meus fantasmas, dos meus medos e inseguranças em relação à escrita poética no contato com outras escritoras que, por vezes, apresentavam os mesmos receios que eu e outras que já possuiam uma trajetória maior de escrita, mas que, generosamente, compartilhavam suas experiências no âmbito do fazer literário. Depois da Confraria, o meu estilo de escrita comunga e embaralha-se com o fazer poético de Rita Queiroz, Érica Azevedo, Jacquinha Nogueira, Josy Santos, Marilene Oliveira, Eva Dantas e tantas outras que integram esse espaço de congraçamento poético

Desejos

Que o tempo pare
Que o tempo não dispare
Que o tempo me ampare.

Que o tempo semeie
Que o tempo não vadeie
Que o tempo me norteie.

Que o tempo floresça
Que o tempo não recrudesça
Que o tempo me fortaleça.

Que o tempo frutifique
Que o tempo não gaseifique
Que o tempo me dignifique.

Tempo de produção
Tempo de colheita
Que os dois desaguem
em solo ribeirinho,
irrigado e fértil.