Arquivo de Tag | Lívia Natália

Oceano

O mar se deslembra homérico do que passou.
No seu infinito de profundezas
tudo o que do mundo guarda,
é apenas rastro do perdido.

O mar se recaminha todo o tempo,
compulsivo, se busca na senda das ondas.

A areia,
que guarda as lembranças todas
na minúscula caixa de cada grânulo,
tem pena do mar.
Apenas por isto ela dança com suas Águas.
Lívia Natália (Correnteza e outros estudos marinhos, Ogums Toques Negros, 2015)
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Foto: Lílian Almeida

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Quadrilha

A tentativa de calar a voz da poeta é inútil. O seu dizer é a dor de muitos, a fala de tantos. Inoperante arrancar os outdoors, desvestir as palavras, travestir os sujeitos. A cor da pele estará lá. E a voz de inúmeros ecoará para além das ruas. Na palavra dela, a desventura dos pretos e das pedras.

Quadrilha

Maria não amava João,
Apenas idolatrava seus pés escuros.
Quando João morreu,
assassinado pela PM,
Maria guardou todos os seus sapatos.

 

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Foto: Lílian Almeida

 

Desventura

Que mais pode um poeta fazer das pedras,
senão cantá-las?
 Lívia Natália (Correntezas e outros estudos marinhos, Ogums Toques, 2015)

 

Água Negra

Chove muito na cidade.

No asfalto betumoso um sangue transparente,

ora de um rubro desencarnado,

ora encardido de um cinza nebuloso,

é vomitado em cólicas

por toda a parte.

 

Das paredes duras vaza um mais escuro que,

imagino,

seja a água mordendo as estruturas.

 

A água é assim:

atiçada do céu,

infinita no mar,

nômade no chão pedregoso,

presa no fundo de um poço imenso:

 

A água devora tudo

com seus dentes intangíveis.

 

Lívia Natália (Livro Água Negra)