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Se eu quiser falar com Deus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

 Se eu quiser falar com Deus
 Tenho que aceitar a dor
 Tenho que comer o pão
 Que o diabo amassou
 Tenho que virar um cão
 Tenho que lamber o chão
 Dos palácios, dos castelos
 Suntuosos do meu sonho
 Tenho que me ver tristonho
 Tenho que me achar medonho
 E apesar de um mal tamanho
 Alegrar meu coração

 Se eu quiser falar com Deus
 Tenho que me aventurar
 Tenho que subir aos céus
 Sem cordas pra segurar
 Tenho que dizer adeus
 Dar as costas, caminhar
 Decidido, pela estrada
 Que ao findar vai dar em nada
 Nada, nada, nada, nada
 Nada, nada, nada, nada
 Nada, nada, nada, nada
 Do que eu pensava encontrar

Gilberto Gil

Afasta de nós esse cale-se

Cálice

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça


Gilberto Gil e Chico Buarque

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Imagem disponível na internet

 

 

Silenciosa reverência ao artista

Eu chegava ao Rio com um grupo de amigos. Foi num dia qualquer no passado, incólume na memória, caracterizado pela presença de um carinho sem palavras. Aguardávamos o despacho de nossas bagagens no aeroporto. Gente, muita gente e muita mala rolando na esteira. Parece-me que eu já estava fora do ritmo e do tom. Uma amiga parou, na saída da aeronave, para registrar o encontro com um cantor famoso na década de 80. Não vi, não percebi, tamanha a minha disritmia. Todos juntos, aguardando, conversando. Uma alegria em falatórios e risos, a nossa juventude saltando aos olhos e ouvidos. Ali, ao lado, avisto aquele que se fez música em minha trajetória, desde a infância. Toda menina baiana tem um santo que deus dá, que deus deu. Sim, estava ao meu lado. Os olhos esmaecidos, os cabelos brilhando na luz que beijava os fios brancos. Ele ali, do tamanho de sua altura e simplicidade. Eu também ali, parada, contemplava a beleza e a sabedoria vestidas de homem. Uma trilha musical acompanhava o meu êxtase. Realce, realce, quanto mais parafina melhor, realce, realce, com a cor-do-veludo, com amor, com tudo de real teor de beleza, realce. Para dar movimento à minha inércia, um curta-metragem da minha vida deslocava-se ante os meus olhos cheios de recordação. Os fins de semana, ouvindo-o na radiola do meu pai. Como as imagens dos dois se pareciam, sobretudo os olhos enevoados pela idade. Pula, caminha não pode parar, pula, caminha que eu quero passar, pula, morena, que eu quero ver, ficar parado assim é que não pode ser. Eu pulava e dançava na sala da infância e o meu pai pulava comigo. O livro da escola iniciava-nos nas culturas e saberes. O convite para escrever uma redação vinha com Se eu quiser falar com Deus. Aquele universo já era meu e eu sabia que precisaria despir-me para falar com Ele e caminhar, decido, pela estrada que ao findar vai dar em nada do que eu pensava encontrar. Os rumos das minhas rotas sempre me faziam lembrar de andar com fé, pois a fé não costuma faiar, mesmo a quem não tem fé a fé costuma acompanhar. Eu ia e vou, andando com fé na vida, melodiosamente acompanhada pela voz e pelas músicas daquele homem, ali, aguardando sua bagagem na esteira. Ele conversa com uma moça bonita ao seu lado, suponho que seja sua filha, parece até que os traços dela lembram os dele. Eu apenas contemplo e reverencio em silêncio. Gostaria de me mexer, de falar, de dizer o quanto agradeço pela obra poético-musical dele. Mas nada. Mudez. Contemplação. Só me mexo para tirar a fotografia com o celular de um dos amigos que notou a presença dele. Você poderia tirar uma foto conosco? Sim, claro. Amiga, você poderia tirar a nossa foto? Eu apenas estendi a mão e segurei o smartphone. Focalizei o grupo, ele ao centro. Os meus olhos marejavam uma felicidade sem palavras. Olhei com atenção o seu rosto, agora mirando a câmera. Fiz duas fotos, para garantir o registro. Não disse uma só palavra, não movi um passo. Todo o meu ser dobrava-se e saudava a grandiosidade daquele homem de notas musicais. Revisitei na lembrança sua apresentação com a Orquestra Sinfônica da Bahia, lá onde eu era desterro. Naquela noite, matei a saudade e morri na distância do meu lugar. Eu, longe do meu pertencimento, vendo e ouvindo a minha gente e a minha música. Eu chorava, cantava, sorria, contrariando a plateia muda e contrita do lugar. O show me lembrava que meu caminho pelo mundo eu mesmo traço, a Bahia já me deu régua e compasso. Ele pegou a sacola na esteira, a moça também pegou uma mala. Gil, eu amo a sua obra musical e reverencio o artista que você é, pensei em despedida. Ele atravessou o espaço, cruzou a porta eletrônica, saiu do meu campo de visão. Eu peguei a minha bagagem e aguardei os meus amigos, recompondo-me das lágrimas extasiadas que escorriam sobre minha face.

Lílian Almeida

Foto de Lílian Almeida; capas de disco disponíveis na internet

Foto de Lílian Almeida; capas de disco disponíveis na internet