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Lisboa, 15 de abril de 1918.

Lisboa, 15 de abril de 1918.

O vento varre as folhas das árvores no calçamento, Lídia. Eu aqui com a tua lembrança mais doce e o espaço curto deste quarto. Nossa última tarde. O teu sorriso depois do amor. O meu olhar esticado até a quina do banheiro, seguindo teu cheiro.

Há folhas e folhas de papel sobre a mesa. As ideias retiraram-se do recinto. Recusam qualquer tentativa minha. Datilografo palavras sem substância. Estou desnutrido de dizeres. Nada há que eu deseje dizer, senão para ti. Diretrizes. Quando estou contigo dou-me todo. Tudo. E fico cheio de algo que não se explica. Cheio a ponto de faltar o que se diga.

Ponho letras a esmo no papel. O som seco das teclas tentam despertar-me da embriaguez. Por que me fazes tão bem, Lídia? Fico assim, entorpecido de você. A fumaça sobe ocupando o volátil espaço do quarto. As pontas do cigarro sobram no cinzeiro. Deixastes o lenço que trazias no pescoço entre os travesseiros. Guardo nele o aroma do teu corpo. Completo novamente a taça de vinho. Entorpeço as folhas na máquina com um olhar duro. A rigidez de um mundo à revelia do sentir. O projeto para os papéis. Inútil. Só vislumbro o seu rosto. As paredes do quarto perderam as arestas, o branco é quase solar. Onde a impessoalidade alva das paredes retas? Para fora da janela, o céu de primavera azul numa Lisboa de construções duras.

Impossível atravessar a bruma de olhos abertos. Largo-me da máquina, dos versos e dos papéis. Cerro a tua lembrança no meu corpo preenchido sobre os lençóis. Amanhã, quiça mais tarde, Lídia, eu terei retinas de não sentir tua presença e dedos de escrever a dureza humana de estar aqui. Hoje não.

Depois, amanhã, hoje, teu Fernando.

Lílian Almeida

Cordis. Cordilheira.

Santiago de Chile, outubro.

Primavera. Depois da chuva o frio se avoluma sobre as janelas e cobertores. As folhas de plátano, verdes, confirmam a estação. Acordo desconfiada de que o tempo é outro. Silêncio na capital, na rua, no quarto. Do oitavo andar se ouve o vazio em mudez urbana.

Atravesso as avenidas a caminho de não sei. Fumaça de cigarro e pernas apressadas para o metrô. Desritmia compassada de pés e folêgo em não. Não ir. Urgência de seguir um ritmo outro de gente alheia. Confusão. Descaminho metropolitano em direção a trabalhos. Dentro dos túneis, o compasso do músculo involuntário sob a minha blusa no vagão. Precaución con el cierre de puertas. A voz gravada anuncia a saída de cada estação. A cada 4 minutos saída e entrada de gente. Muita gente. Meus olhos vidrados no fluxo humano debaixo da metrópole. A estupidez desenha formigas atônitas na curvatura do meu olhar.

Os dias atravessam a cidade abaixo da cordilheira. Irrefreável seguir. A majestade de pedras impõe presença alhures. Estico meu ver em direção ao longe. A paisagem convoca mais que olhos. Pulsares. Santiago se apequena ao lado da madre piedra. Invisível caminho se insinua atrás dos meus olhos miúdos. Incaico partir desde antes a depois. Debaixo da urbe, o império. Transpassado percurso além do passado. Futuro cego de tanta civilização.

O branco acima das pontas de pedras exige visita destemida de frio. Fogueira de gelo imemorial guardado no profundo da minha íris olvidada. Andes! Obedeço e vou. Sigo o percurso de curvas e subidas. O rio beira minha memória de tanto esquecimento. O calor se acresce no aumento da altura, no fundo de mim. Encontro previsto no impensado tempo de existir. Traçada rota.

Ao fundo e acima, o branco mais que branco. Geleira. Retiro as luvas. Contato imediato com o que é e foi. A força vibrando em átomos. Acordo no meu dentro a história além do tempo. O caminho do passado conduz presente em mim. Criança inca. Pulsar de vivo fogo no branco glaciar em Maipo. O desvario em sucessão de vida e morte. As minhas retinas vislumbram o sem tempo de eu comigo antes e agora. O instante já do ser. Inespacialidade de tempo. Atemporalidade de espaço. Sem onde nem quando, eu sou cordis. Andes. Cordilheira.

Meus olhos vestem a capital. Quinhentos anos de passado entre os túneis do metrô e dos museus. Um império de língua quechua ecoando no pericárdio das minhas lembranças. Kusy. A mulher me investe de mapuche, aymara, inca. Eu desço a noite sobre meus olhos para guardar tudo.

Fazia inverno sobre a primavera de Santiago. O sol descortinava, tímido, a manhã. O oitavo andar do apart hotel silencioso entre os rumores de café e malas. Meus olhos floriam outonos de existir sobre a rota descoberta. Adiante, a soberana senhora de pedra e gelo. O aeroporto. Passagem no pouso para dentro. O percurso começava no fim da viagem. Volta para casa.

Lílian Almeida

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Foto: Lílian Almeida

26 de julho,

em meio à melancolia persistente almejo a pausa – utópica. parar um pouco o tempo, fugir por tempo indeterminado das obrigações de tudo. me esconder numa concha literal.

uma tristeza, Tereza… dessas que não sabe-se bem a procedência.

tudo ao meu redor me dói um pouco. acho que estou cansada de correr tanto [risco]. o pior é que o tempo não nos cede a gentileza de recobrarmos nosso fôlego escasso.

cada um sabe onde doem seus calos.

Deisiane Barbosa (Cartas à Tereza, v.1: fragmentos de uma correspondência incompleta, edição do autor, 2015)

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Foto: Lílian Almeida