Pedro Páramo – o céu

Lá fora o tempo deve estar variando. Minha mãe dizia que, quando começava a chover, tudo se enchia de luzes e do cheiro verde dos brotos. Contava-me como chegava a maré das nuvens, como se lançavam sobre a terra e a descompunham, mudando-lhe as cores… Minha mãe, que viveu sua infância e os seus melhores anos neste povoado e que nem sequer pode vir morrer aqui. Até para isso me mandou em seu lugar. É curioso, Dorotea, como não consegui ver as nuvens. Pelo menos, devem ser estas mesmas que ela conheceu.

– Não sei, Juan Preciado. Fazia tantos anos que não levantava a cabeça que me esqueci do céu. E se o tivesse feito, o que teria ganho com isso? O céu alto e meus olhos tão sem visão que vivia satisfeita de saber onde ficava a terra. Além disso, perdi todo o interesse, desde que o padre Renteira me assegurou que eu não ia conhecer a glória nunca. Que nem sequer de longe a veria… Coisa dos meus pecados; mas ele não devia ter me dito. Por si mesmo a vida já é trabalhosa. A única coisa que faz a gente mover os pés é a esperança que ao morrer levem a gente de um lugar para outro; mas quando fecham uma porta pra gente e a que fica aberta é só a do inferno, seria melhor não ter nascido… Para mim, Juan Preciado, o céu está aqui onde eu estou agora.

 

Juan Rulfo (Pedro Páramo, Paz e Terra, 1996)

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