Confraria Poética Feminina II

 

Seguindo a conversa com algumas autoras da antologia Confraria Poética Feminina, organizada por Rita Queiroz. Dessa vez o papo é com Ilza Carla Reis e Jacquinha Nogueira. Perguntei às confreiras: Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora? Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook? Confira o que elas responderam.

Ilza Carla Reis
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Imagem cedida pela autora

Máscaras

Escolho tirar a máscara
Eu sei, não me é permitido

Devolvo-a à face
ainda que não me caiba muito bem

Quero mesmo é poder escolher
trocar a máscara em preto e branco
por uma repleta de brilho e cor

Libertar-me desse “sou” que querem
e experimentar o “sou” que quero

Livre da fôrma e da forma
do dever e do porvir
nem redondo nem quadrado
Presa somente ao aqui

Ainda que não seja preciso publicar num livro pra se considerar escritor, a publicação é, sim, um momento especial para quem escreve. A publicação na Antologia Confraria Poética Feminina é, para mim, um presente, um marco, capaz de me impulsionar a escrever cada vez mais. Muitas mulheres, assim também como muitos homens, escrevem solitariamente e guardam seus escritos. O gesto de publicar torna a experiência da escrita mais concreta e, particularmente, me fez perceber nesse lugar de escritora, inclusive para os mais próximos a mim, os quais nem sabiam que eu escrevia. Antes do livro, somente tinha participado do projeto  CumbePoiÉtiCo, coordenado pela professora Andréa Mascarenhas, com a impressão de poemas em cartões postais, expostos na Festa Literária de Euclides da Cunha, em 2014.

Instabilidades

Lá fora faz sol
mas aqui dentro a previsão é outra
tempo instável
ventos fortes

Preciso mesmo ser sol todo tempo?
O tempo todo não dá pra ser sol!
A constância do meu ser-tempo
é monótona, maçante, oca

Agora, vejo as nuvens
vem vindo a tempestade
com ela, medo, insegurança
depois, calmaria, mudança…

Como já disse, antes da participação no grupo da Confraria, no Facebook, a escrita funcionava para mim como uma catarse. Colocava no papel aquilo que me movia, me tocava e que observava no cotidiano. Mas essa escrita, antes do grupo, era esporádica e engavetada. Por mais que digamos que não, sempre escrevemos para alguém. No meu caso, mesmo tendo a possibilidade de começar publicando o que escrevia nas redes sociais, não me sentia encorajada. Somente depois do grupo é que tive coragem, por contar também com a leitura atenciosa e estimulante das demais confreiras, além de ser constantemente inspirada também pelas muitas publicações feitas por elas. A partir daí, passei a escrever com maior frequência. Quando Rita Queiroz me fez o convite, não tinha a verdadeira dimensão do que se tratava e de quantos projetos seriam gestados e realizados, mas uma certeza tinha: a de que era um privilégio e uma oportunidade de aprender. Confesso que ainda é um enorme desafio dizer-me e sentir-me escritora. Sinceramente, a escrita é para mim, hoje, mais uma realização pessoal do que uma necessidade de reconhecimento. Até porque, como afirmou o poeta Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta!”.

A dança dos meus dias

Para minha mãe Zezé

Danço ao ritmo de sua alegria
risos que soam como música
aos meus ouvidos.

As mãos impulsionadas
para o aplauso
à vida que se nos apresenta
a espreitar nossos dias

O que se vê arrebata
encanta
embaraça
num ritmo que nos tira pra dançar!
Jacquinha Nogueira
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Imagem disponível no perfil de Facebook da autora

Queria, mas já não posso arrancar de mim essa saudade,
carregada de lembranças, expressão mais alta da alma
ainda que espetada de dor, corroída pela distância
faço do sonho, uma fuga, um consolo
hoje, o que eu queria mesmo,
mais do que receber o teu desejo de bom dia,
era me vê em teus olhos.

Fazer parte de uma antologia em potencial como a Confraria Poética Feminina é de um orgulho sem tamanho. Uma obra unicamente de mulheres. Com uma riqueza literária tão diversificada, simples e tocável. Mulheres que não se conheciam pessoalmente e fizeram um grito feminino poético ecoar. É uma obra de liberdade e reafirmação da escrita feminina contemporânea no campo literário. É um inspirar para várias outras na história de cada uma que compõe o livro e o grupo. É ousar sem temer. É ir de encontro às palavras e a elas se entregar. Foi isso que fizemos quando a oportunidade de mostrar e ter criticidade nos nossos textos proporcionou voos de coragem. Mulheres que engavetavam seus textos, algumas até temiam as leituras dos mesmos ou qualidade ainda que figurassem na área de letras, pois quando o assunto é a própria literatura a escrita vira um campo de tensão nada confortável para as letrólogas. É ter a consciência de que foi apenas um passo, bem largo, já que em menos de um ano de grupo um livro foi lançado e este não é apenas uma obra feminina, é a reunião de vozes de várias escritoras baianas que se resguardavam no papel por diversos motivos, e a antologia traz e demonstra a competência das mesmas na relação com a escrita, das palavras e do fazer literário. Tem literatura de sobra pra ecoar nesse mundo, sozinhas ou de mãos dadas, em antologias como essa.

Narranós

Se a poesia dos teus olhos
declama os meus
nada mais é preciso dizer
O grito já foi dado
naquela noite eu declarei
o outro dia feriado
Bem vindo amor
as calçadas da minha alma
a rua do meu sorriso
ao abrigo da minhas mãos
faz viaduto a liberdade do nosso coração

O grupo da Confraria Poética Feminina trouxe o desafio de expor o que estava engavetado para muitas. No meu caso, foi mais uma possibilidade de partilha, pois faço o mesmo na minha página pessoal no Facebook. O que muda é que são mulheres que fazem parte do nosso grupo, a maioria formada e com altas qualificações na área de letras, debruçando-se sobre os poemas e prosas de cada uma das autoras. Cada leitura, curtida, comentário, análise ou ausência das mesmas, era um sim ou um não, para continuar escrevendo ou repensando a escrita; é uma primeira avaliação e retorno do público leitor e crítico também. O que mudou foi o incentivo para voltar pra prosa e arriscar em outros gêneros literários e suas hibridizações como os layouts poéticos, além do olhar de mim mesma para a escritora em constante construção e formação dentro e fora do grupo.

Não sirvo pra ser meia dose de amor
ou me toma em taça inteira
ou nem ouse degustar.
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