Confraria Poética Feminina I

Publicado em 2016, pela Penalux, o livro Confraria Poética Feminina é uma antologia de poesia de autoras baianas. Sob a coordenação de Rita Queiroz, estão reunidas, neste livro, doze mulheres que assumem a voz, a letra dos versos que compõem, nascidos primeiramente no espaço virtual do Facebook.

Na apresentação do livro, a escritora e professora universitária Andréa Mascarenhas aponta o enfrentamento exigido às mulheres que ousam assumir a escrita: “… quando lemos a literatura escrita a partir do esforço criativo empreendido por mulheres, que ainda precisam dar conta de suas jornadas paralelas de sobrevivência, além daquelas que se registram formalmente, a exemplo de seus postos de trabalho, reportamo-nos do interior para o exterior dessa produção artística, para a luta diária que busca abrir algo mais do que as trincheiras em meio a conhecidos espaços de silenciamento, duramente construídos por quem sempre ditou modelos…”. (2016, p. 35)

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Imagem disponível em: https://www.facebook.com/Confraria-Feminina-de-Poesia-e-Artes-549339315255685/?fref=ts

Dialoguei com a organizadora, Rita Queiroz, e com algumas autoras. Abaixo, os registros de um bate papo virtual e alguma amostra dos versos da confreira Érica Azevedo.

L. A. – Como surgiu a Confraria Poética Feminina? Há um propósito em congregar mulheres, virtualmente, em nome da escrita?

Rita Queiroz – A Confraria Poética Feminina surgiu no facebook, há um ano e meio mais ou menos, quando eu comecei a postar meus versos e algumas amigas e amigos comentaram dizendo que estavam bons, que eu deveria continuar escrevendo. Então, conversando com Ana Carolina e Érica [confreiras], com quem mais dialogava, resolvemos criar o grupo no facebook. A princípio formado por nós três e Juliana Nogueira. Outras escritoras desconhecidas (no sentido de não haverem ainda publicado em livros) e/ou conhecidas (tais como Clarissa Macedo, já vencedora de prêmio literário) foram sendo integradas ao grupo. Cada uma de nós sugeria nomes de escritoras que conhecia e assim novas integrantes eram adicionadas. Postávamos os textos e as discussões eram muito profícuas, cada uma expondo o que havia captado dos poemas. Assim é até hoje, embora as atribulações de cada uma, pois a maioria das integrantes é professora, seja universitária ou do ensino fundamental e médio, outras mestrandas ou doutorandas, impeçam desse fluxo ser mais intenso.

Quanto à segunda parte da pergunta, há sim um propósito em congregar mulheres, virtualmente ou não, em torno da escrita. A intenção é de que o grupo seja o espaço onde todas possam expor suas vozes, possam dialogar em torno de seu fazer poético/literário, de suas experiências enquanto mulheres, sejam mães, esposas, filhas, amantes, namoradas, divorciadas, homossexuais, profissionais; aquelas que não mais têm vergonha de dizerem a que vieram nesse espaço dominado por tanto tempo pelas vozes masculinas.

L. A. – O livro Confraria Poética Feminina é resultante da página no Facebook. Como se deu o percurso entre o veículo virtual e o impresso?

Rita Queiroz – Depois que iniciamos o grupo e as nossas postagens, surgiu no mês de setembro de 2015 a ideia de fazermos o livro. Para isso, cada integrante deveria postar até o final desse mês o mínimo de 10 poemas. Algumas, mais participativas, já haviam postado até mais do que isso, outras ainda não. Aí começou a maratona e ao final, 12 autoras cumpriram a meta. Então iniciei a organização dos textos, convidei a professora Andréa Mascarenhas para fazer a apresentação e, em dezembro estávamos com o livro pronto. Restavam as dúvidas: para onde enviar? Arcaríamos com as despesas de publicação? Nisso, Clarissa Macedo indicou a Editora Penalux, para a qual enviamos o livro em fins de dezembro. Em fevereiro fui contatada por uma pessoa da editora, que elogiou muito o livro e a partir daí começamos o processo de editoração, concluído, depois de idas e vindas de correção, em junho. Em julho o livro já estava chegando em minha casa e, no dia 22, fizemos o primeiro lançamento.

L. A. – Há novos projetos sendo gestados na Confraria?

Rita Queiroz – Sim, há uma infinidade de projetos gestados na Confraria. O que já está em fase de finalização e envio para a editora é o livro de layouts poéticos, organizado por Ana Carolina Cruz de Souza, que conta com a participação de 19 confreiras (como nos intitulamos). Neste livro, há o casamento entre texto e imagem, no qual cada autora compôs metapoemas. Além deste, o próximo passo é a aprovação do estatuto da Confraria, que se tornará uma associação, e no qual teremos regras, por exemplo, para entrada e permanência no grupo; cobrança de uma taxa mensal para a associação, a fim de que se possa gerir os inúmeros projetos.

Rita Queiroz mencionou vários projetos da Confraria mas, para manter as expectativas com o que ainda virá dessas mulheres cheias de versos e vida, revelo apenas alguns: livro de layouts poéticos sob organização de Ana Carolina Souza (em breve!); livro de contos ou minicontos; agenda poética; exposição de layouts poéticos e muito, muito mais.

Érica Azevedo
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Imagem disponível no perfil de Facebook da autora

Desajuste

Uma borboleta intrusiva
insiste
entrar no casulo.

O experimento do mundo
fora demasiado doloroso.

L. A. – Qual o significado do livro Confraria Poética Feminina na sua trajetória como escritora?

Érica Azevedo – Participar do livro Confraria poética feminina tem um sabor especial para a minha trajetória enquanto escritora porque fazer parte desta antologia me fez pensar em poemas que tratam de questões relacionadas ao universo feminino, ao mesmo tempo em que conheci autoras que tratam desta temática com tamanha maestria.

Sonho

Dormi com um medo
gigante
da solidão.

Sonhei com teus olhos
afogando os meus.

Acordei gritando
com um sorriso nos olhos
que nada durou.

Uma rasura abortou meu dia.
Desajuste

Uma borboleta intrusiva
insiste
entrar no casulo.

O experimento do mundo
fora demasiado doloroso.

L. A. – Qual a sua relação com a escrita antes e depois da página da Confraria no Facebook?

Érica Azevedo – O grupo me fez olhar para minha escrita com maior constância. A confraria tem sempre uma discussão pulsando, um projeto novo… Tudo isso tem me aproximado mais da literatura o que, consequentemente, marca uma relação mais íntima e também mais profissional. Digo profissional porque estou me vendo como uma profissional da escrita.

Pescaria

O peixe no fundo do rio
é o aroma dos frutos
que estão por vir.

O anzol na água
e a paciência nos braçosmesmo quando brincadeira –
é simulacro
da espera de todos os dias.
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2 pensamentos sobre “Confraria Poética Feminina I

  1. Pingback: Confraria Poética Feminina III | Cartas, fotografias e outros guardados

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