O alpiste

Todas as manhãs, madrugada ainda, eles vinham à janela, em bandos, revoadas mornas e leves. O alpiste delicadamente espalhado no parapeito. As brandas asas roçando o vidro da vidraça. Os ágeis bicos no alpiste generoso. Aquém do vidro, os expectantes olhos de quem no esperado espera o inesperado. O inesperável. Além do vidro da janela, a manhã esperada no desabrochar dos cálidos vôos. Entre os trepidantes ramos, os ninhos. Entre os ninhos palpitantes e o vidro frio, o alado risco da espera, nos loiros grãos, nos aéreos bicos, no etéreo olhar transpassando o invi(dro)sível. A repetição dos gestos dos fatos dos atos. O percurso. A mão compondo o alpiste. Os passarinhos dispondo os bicos. Os ramos à disposição do rápido brilho. O percurso do sol no arco do dia. Novo sol novo arco novo olhar novíssimos vôos. Nova espera. Novo dia.

Na janela do terceiro andar, todos os dias o novo dia vinha no vôo dos passarinhos em busca do alpiste sempre exato. Aquém do vidro, o olhar expectante. Além, as revoadas esperadas. Em frente, os rútilos ramos. Acima, o ruivo céu. Abaixo, a janela do segundo andar. Geometricamente imediata. Onde ninguém depositava o alpiste, mas onde caía sua suja chuva mas onde as rolinhas também iam ávidos bicos.

Por favor, senhor síndico, esses bichos sujam minha janela de porcaria, embaçam meus vidros, jogam alpiste dentro da sala. Por favor, senhor síndico.

Sim senhora madame. A senhora tem toda razão. Sim senhora. Mas a moradora do terceiro andar. Tenha paciência madame.

Então, naquela manhã, a janela do segundo andar apareceu coberta de alpiste. Inesperadamente. Os vôos se dividiam fervorosos entre o segundo andar e o terceiro. Asas fofas vagos bicos incauta fome.

Então.

Na manhã seguinte, o olhar expectante esperou em vão. O alpiste suavemente espalhado no parapeito. Em vão o olhar expectante à espera do inesperado no esperado dos vôos. O inesperável. Se a mulher do terceiro andar pudesse levantar-se da cadeira de rodas para debruçar-se da sua janela, teria visto muitos corpos de passarinhos mortos caídos pelo chão. Aquém do vidro, o olhar. Além, os ramos, pesados de ninhos envenenados. Acima, o céu ruivo. Ou loiro?

Abaixo, uma janela. Terrivelmente limpa.

Helena Parente Cunha. Os provisórios. Antares/ INL, 1990.

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