Julgado do vento: três poemas de Ruy Espinheira Filho

 

 

Os bens maiores

O que ficou
além do enlace
é o que mais foi
preso pelo gesto.

O que não foi
tocado é o que
deixou sua marca
mais nítida na mão.

A gaiola vazia
é onde habita
o que há de mais belo
em gorjeio e pássaro.


Revelação

Só o passado que
aguarda o futuro
revelará a limpidez
maior desta tarde.

Ai que somos felizes
agora
           mas não tanto
como amanhã, no passado.


Notícia da casa

A casa não se descreve:
sente-se. Aqui permanecem
todos: dos que não vieram
àqueles que já partiram.

Na casa jamais se apaga
a luz com que me fitaste
(porém em ti, não: em ti
era só vidro, quebrou-se).

A casa se arquiteta
a si mesma, cada vez
mais habitada, enquanto
sangro paredes e espaços.

E cresce. Até não deixar
sinal no meu peito imóvel.


Ruy Espinheira Filho (Estação infinita e outras estações: poesia reunida,
Bertrand Brasil, 2012)

 

 

0liberd
Imagem disponível em: http://2.bp.blogspot.com/_9AiWCFu-aeY/TP2Ac00_OSI/AAAAAAAAAJU/mm8dTagQL6I/s1600/0liberd.jpeg
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