Cordis. Cordilheira.

Santiago de Chile, outubro.

Primavera. Depois da chuva o frio se avoluma sobre as janelas e cobertores. As folhas de plátano, verdes, confirmam a estação. Acordo desconfiada de que o tempo é outro. Silêncio na capital, na rua, no quarto. Do oitavo andar se ouve o vazio em mudez urbana.

Atravesso as avenidas a caminho de não sei. Fumaça de cigarro e pernas apressadas para o metrô. Desritmia compassada de pés e folêgo em não. Não ir. Urgência de seguir um ritmo outro de gente alheia. Confusão. Descaminho metropolitano em direção a trabalhos. Dentro dos túneis, o compasso do músculo involuntário sob a minha blusa no vagão. Precaución con el cierre de puertas. A voz gravada anuncia a saída de cada estação. A cada 4 minutos saída e entrada de gente. Muita gente. Meus olhos vidrados no fluxo humano debaixo da metrópole. A estupidez desenha formigas atônitas na curvatura do meu olhar.

Os dias atravessam a cidade abaixo da cordilheira. Irrefreável seguir. A majestade de pedras impõe presença alhures. Estico meu ver em direção ao longe. A paisagem convoca mais que olhos. Pulsares. Santiago se apequena ao lado da madre piedra. Invisível caminho se insinua atrás dos meus olhos miúdos. Incaico partir desde antes a depois. Debaixo da urbe, o império. Transpassado percurso além do passado. Futuro cego de tanta civilização.

O branco acima das pontas de pedras exige visita destemida de frio. Fogueira de gelo imemorial guardado no profundo da minha íris olvidada. Andes! Obedeço e vou. Sigo o percurso de curvas e subidas. O rio beira minha memória de tanto esquecimento. O calor se acresce no aumento da altura, no fundo de mim. Encontro previsto no impensado tempo de existir. Traçada rota.

Ao fundo e acima, o branco mais que branco. Geleira. Retiro as luvas. Contato imediato com o que é e foi. A força vibrando em átomos. Acordo no meu dentro a história além do tempo. O caminho do passado conduz presente em mim. Criança inca. Pulsar de vivo fogo no branco glaciar em Maipo. O desvario em sucessão de vida e morte. As minhas retinas vislumbram o sem tempo de eu comigo antes e agora. O instante já do ser. Inespacialidade de tempo. Atemporalidade de espaço. Sem onde nem quando, eu sou cordis. Andes. Cordilheira.

Meus olhos vestem a capital. Quinhentos anos de passado entre os túneis do metrô e dos museus. Um império de língua quechua ecoando no pericárdio das minhas lembranças. Kusy. A mulher me investe de mapuche, aymara, inca. Eu desço a noite sobre meus olhos para guardar tudo.

Fazia inverno sobre a primavera de Santiago. O sol descortinava, tímido, a manhã. O oitavo andar do apart hotel silencioso entre os rumores de café e malas. Meus olhos floriam outonos de existir sobre a rota descoberta. Adiante, a soberana senhora de pedra e gelo. O aeroporto. Passagem no pouso para dentro. O percurso começava no fim da viagem. Volta para casa.

Lílian Almeida

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Foto: Lílian Almeida

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