Avó

Graça, tenha cuidado ao limpar essa cadeira. Ela tem muito tempo, não sei se consigo repor as tiras caso alguma delas se rompa, falou, parada na porta da cozinha. A senhora gosta mesmo dela, é? Não combina muito com os móveis da sala, é velha. A senhora não acha? Não. Minha casa tem espaços vivos e a sala só tem vida por causa dessa cadeira de balanço. Desculpe, dona Maembi, não quis ofender não. Ela foi de sua avó, né? Exatamente por isso.

No canto da sala, ao lado da porta de vidro que separava a varanda, a cadeira de ferro e tiras plásticas da avó Dejanira balançava. O abajur em pedestal iluminava a memória das linhas do crochê da avó, quando ela estava lá para contar histórias como quem acrescentava novos pontos no bordado que fazia. Maembi costumava sentar-se ao lado da avó, no sofá em frente à televisão. A cadeira ficava ali, como se mantivesse a avó a fazer crochê e ponto cruz.

Voltou para o escritório, irritada com a impertinência da diarista. Esse povo não tem o menor tato ou bom senso, alinhavava ruminações. Onde já se viu, dizer que um objeto da patroa é velho? O texto aberto na tela do computador. Preciso fechar logo essa matéria para o jornal. A postura da mulher me deixa indignada. Acreditar que o seu crime foi nascer mulher pra fulaninho chegar, assediar, estuprar e tudo o mais. É um absurdo!

Saiu novamente do escritório. Esqueceu de beber água depois da irritação com a diarista por causa da cadeira. Cruzou o corredor que ligava o escritório à sala. Chegou à cozinha remoendo a sujeição da vítima.  Isso é culpa desse sistema filho de um puto, que faz as mulheres se sentirem culpadas por existir, para se desonerar da responsabilidade de apurar os atos contra a vida e a integridade física da mulher. É uma porra mesmo essa sociedade em que a gente vive, Graça. Dizia, indignada, para a diarista. Não entendi direito, dona Maembi, o que é mesmo desonerando? E por que a senhora tá assim, transtornada? Sentou-se no sofá como se retomasse o fôlego e a calma. Desonerando é o mesmo que desobrigar, dispensar, Graça. O jornal entrevistou a moça que foi estuprada no estacionamento da faculdade, se lembra? Sim, me lembro. Pois então, ela diz que a culpa foi dela por ter nascido mulher. Vê se pode? Isso desonera o estuprador, tira a responsabilidade dele. Mas é, dona Maembi, eu mesma já disse pra Deus que na outra encarnação quero ser homem. Mas será o Benedito? Benedito ou não eu quero é ser homem, dona Maembi. Ela olhou desolada para a diarista. Não sabia o que estava dizendo, embora soubesse. Graça, tudo isso é responsabilidade da sociedade machista em que a gente vive. Ela faz a gente se sentir culpada por tudo, até por existir. A responsabilidade do estupro é do estuprador, ele é o criminoso, deve responder pelo seu crime. A moça não deve sentir culpa, não tem responsabilidade nisso, é vítima. É, dona Maembi, pode até ser, mas o certo é que mulher sofre e não é pouco. E mais, a gente é um ser acanhado, se encolhe por um tudo, e numa situação dessas só quer sumir. Olhou atentamente para a diarista, aquela fala era familiar. Mirou a cadeira de balanço. Era assim que a avó dizia: “a vida, minha filha, diz que é pra gente viver encolhida, mas eu acho que não”.

Lá, onde a avó se criou, faltava quase tudo. O regime, como ela dizia, era de guerra. Guerra por sobrevivência. Acordar de manhã era vitória adiada pra de novo lutar. Não faltava pescado e farinha, mandioca dava e a maré não desampara filho seu. O resto, raridade. Seca no chão, sol na pele. Menina, lidava com a mãe na plantação em volta da casa, na maré, quando iam buscar o de comer, e nas coisas de casa. Da casa pra maré, da maré pra casa. E escola, vó, não tinha? Tinha. Não pra menina-mulher, era só pra menino-homem. Os meninos botavam água do poço pra casa, cuidavam dos animais do patrão, galinha, porco, boi, o que tivesse na sobrevivência. De tarde, iam pra escola. Eu ficava com mãe, cosia as roupas furadas no trabalho da roça, se tinha mandioca trabalhava na casa de farinha de seu Tonho, se não, era na maré ou em casa mesmo. Às vezes fazia roupa pras bonecas de milhoo e brincava de fazenda com os ossinhos de galinha. Ah, filha, eu era uma fazendeira bem rica, tinha um rebanho de boi, grande e gordo, ou então era dona de uma terra que tinha um rio no fundo da casa. Era uma fartura o meu sonho de menina. De noite, eu via os meninos fazerem a lição da escola. Eu ficava de junto, olhando e querendo entender aquilo que eles botavam no papel. Meu pai dizia que não, escola não era pra menina. Escola era pra estufar o peito dos meninos e eles saberem lidar no comércio. Pra quê menina ia precisar disso? Tinha que ficar como era, pequena, minguada. Queria se estender pra quê? Mulher era pra ser miúda, homem pra ser grande. Aquilo me cortava por dentro. Eu calava, mas no fundo de mim eu sentia que queria ser grande.

Essa correntinha em cima da mesa, coloco onde? Maembi sobressaltou-se com a voz de Graça. Desculpe, não queria assustar a senhora. Tudo bem. É a correntinha de minha vó Deja. Diala me deu depois de anos guardando a corrente de vó. Agora ela ficará comigo. Parece que a senhora gosta muito dessa avó, né? É. Lembrou-se da impertinência da diarista. Coloque em cima da minha cama. Gosto muito, gosto tanto que acabei de conversar com ela. Vixe, dona Maembi. Ela não é morta? É sim. E você duvida? Deus é mais. Eu, hein.

Lílian Almeida (conto publicado na Subversa, edição de 26 de setembro de 2016)

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