O rio

O rio corria rápido em viagem até ao mar. Ia por dentro de si mesmo, afoito. Embora, vez ou outra, cansasse e diminuísse o ritmo, adormecendo, em roncos longínquos.

Num desses cochilos, um pássaro cor de cinza se aproximou. Aonde vai o rio? Vou para o mar. Dizia, com voz de sede. Mas o que vai fazer no mar, o rio? Vou correr para o mar. E por que não ficas aqui com a nossa flora tão densa e apetitosa? Eu corro para o mar. E saiu da letargia, seguindo seu percurso de rio, sem se despedir do passarinho, apenas olhando de relance para trás, prestes a cair sob a forma de cachoeira.

Essas quedas davam-lhe prazer, descia com a sua cara risonha, esquecido de tudo, no vento. E lá embaixo suspirava. Boiava, olhando para o céu, esparramado, feliz. Até entrar, sugado, por um beco estreito, de costas. Um susto! Depois, como sempre, virava-se e seguia seu rumo. Dava duas tosses e seguia sério para frente, constante, até voltar a acelerar.

Logo sentiu cócegas por dentro. Eram uns peixes cor de azul a acompanhá-lo. Para onde vais com tanta pressa, senhor rio? Vou para o mar. E o que há no mar que lhe faz ter tanta pressa? É para onde vou, para o mar. E seguia firme, deixando os peixinhos sem fôlego para trás. E por que não ficas, senhor rio? O que há no mar? Vou desaguar. E corria, ouvindo apenas o borbulhar das vozes dos peixes já distantes, nadando, insuficientes.

Na linha reta, a sua cabeça esvaziou, aberta, de testa para o céu, até que encontrou muitas curvas. Muitas e muitas, de deixá-lo tonto, ficando todo de rosto rente às margens. Então, o chão com sua voz rouca e lenta lhe perguntou. Por que não paras um pouquinho a descansar. Vou para o mar, vou para o mar. Dizia tonto, pelas curvas, sem saber se falava com a margem direita ou com a esquerda. Vou para o mar, vou para o mar. Eu não conheço esse lugar, o mar. O que há no mar? Vou desaguar, vou desaguar. Dizia, confuso, o rio. E por que a pressa, se tudo o que tens é água e vais desaguar?

Conseguindo sair do labirinto de chão, alargou-se. Mas havia uma pedra no meio da lagoa que encontrou. Por que desvias de mim? A pedra perguntou, solitária. Mas em silêncio, pesado, pela conversa com o chão, o rio apenas lacrimejou no lago aberto, deixando para trás a pedra e o lago, prosseguindo lento para o mar.

Desacelerou, pensativo. Distraiu-se. Abstraiu-se. Até que veio o vento por cima e disse ríspido. Por que está tão devagar, o rio? Vá para o mar, vá para o mar. E o rio, desconsolado, se pôs a continuar. Passou por muitas plantas, avistou um campo de flores, que ficou a contemplar, pois sabia que se olhasse para frente já daria para ver, gigante, aquele mar. O oceano a lhe esperar. Seu coração de rio acelerou. Fechou os olhos e esperou. Só ouvia o barulho imperativo das águas salgadas e agitadas do mar.

Mas em meio a tanto barulho, brotava ao fundo outra voz, maior, que surgia de dentro do burburinho surdo. Abriu os olhos e era uma árvore grande e serena. Por que veio até aqui, o rio? Disse, tímido, a gaguejar: vim para o mar, vim desaguar. E por que estás tão triste? É o fim do meu caminho. Vou desaguar, vou para o mar, vou desaparecer, vou me matar. Eu também tenho medo, disse a árvore milenar. Tenho medo de cair na terra e desintegrar. E o que podemos fazer?! Indagou o rio, apreensivo. Não há nada a se fazer, amigo rio. Chegou a hora de se desfazer. Mas por quê? Por quê? Perguntou o rio a se afogar.

A árvore segurou-o com um pedaço de raiz e sussurrou. Não tenha medo. Tu não estás inteiro aqui. Olhe para trás. E o rio olhou todo o caminho por onde percorreu. Ainda estava lá. E abriu a boca a se engolir. Depois cuspiu e tossiu. O que é isso? É você. Tudo é você. Assim como esses frutos no chão também sou eu. Eles caem de mim e a vida vai continuar, de mim, sem mim, que logo vou desmoronar.

É assim a vida, tem a morte. E morte é também vida a continuar. Vês lá atrás, o que deixou? O passarinho, os peixinhos, o chão e toda a relva ainda perdidos, mas a te amar. Tu estás bem aqui e consegues vê-los e senti-los lá. Ainda depois que te desfizeres em mar, sem mais poder vê-los, ou ainda lembrá-los, mesmo assim estarão lá, na tua atmosfera de mar, distantes, esquecidos, de alguma forma estarão lá, porque estarão aqui, sabendo o caminho que tu percorres eternamente rumo ao mar, todos os dias. E se banharão nas chuvas, imaginando quais gotas nelas são pedaços de ti, ainda que nenhuma seja tua… À beira de ti, hão de te sonhar.

Mas como saberei se será assim mesmo, se vou desaguar? Feche os teus olhos, amigo rio, que daqui te olharei chegar ao mar. Até o dia em que cairei e serei chão, novamente perdido, como também estarás perdido dentro do mar. Mas achado e perdido, é tudo a vida, meu velho amigo. Adeus. Vá para o mar. Já não posso te segurar.

E o rio seguiu desconsolado, diante dele o mar, de braços abertos a lhe esperar. Sentiu-se só. E foi-se, enfim. Sendo fortemente abraçado pelo mar, a se desfazer, a se embaralhar, mergulhado e debatido, a se afogar no mar…

Glauber Costa (conto publicado na Subversa, vol. 3, nº 8, 2005)

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Foto: Lílian Almeida

 

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