Carta de outono

Amigo,

Recebi com alegria renovada as suas notícias. Existir é tarefa para loucos. A gente vai fazendo de conta. Percebi que te afliges com o acelerado dos dias e a letargia cara a quem vai cozendo por dentro o fazer da vida. Também me aflijo. Brigo com os ponteiros dos relógios e os número no calendário. Botei todos para fora de casa. Ando só, com os meus tempos outros. Na hora do chá você chegou e preparei-te um café para nosso diálogo. Ficamos na cozinha mesmo, onde acolho os do coração. Esteja certo, foi uma tarde de contentamento revivido.

O interfone toca. Pronto. Boa tarde, Dona T. Tem uma correspondência aqui pra senhora. É  de D. Ótimo! Eu estava mesmo aguardando por ela. Certo. O R. vai levar até aí. Ok, obrigada. Mais cedo tinha interfonado para a portaria perguntando pela encomenda. Há dias esperava. Não, não chegou. Agora sim! O interfone e a notícia de que chegara: missivas.

Na adolescência escrevia cartas para os amigos durante as férias. Tentativa de superar a distância. Eles chegavam entre envelopes e linhas, dizendo saudades e amizades eternas. Era sempre novo o mesmo sentimento de tomar a carta, investigar-lhe com as mãos, abrir e ouvir nas letras a voz ausente. Alegria sem palavras, felicidade de riso aberto nos olhos.

Era um amigo. O porteiro anunciava que subiria. Expectante, aguardei para abrir a porta e tomar-te nas mãos. Fazia dias que esperava. Previa o prazer do contato. Pegar, sentir, cheirar. Sensações, ações. Verbos para satisfazer não só os olhos e o decifrar de cada letra, palavra. Pegar, apalpar, sentir, abrir, cheirar, ver, folhear.  Ler. Talvez o último dos verbos. Porque há  o enamoramento. Prêambulo. Preliminar para que o ato se faça.

O não esperado no encontro  desejado. Na cozinha, tomando um café da tarde. O interfone. Em minutos tudo seria novo e revivido. A mesma felicidade de carta em cima da cama. O curto tempo do elevador alcançar o 15º andar. O mesmo ritual sempre único a cada amigo que chegava. Ela aguardando que a campainha tocasse. Abriu a porta e finalmente encontrou, um maço de cartas, as Cartas a Tereza.

Mas me fale, amigo, e Tereza, que te diz de todas as tuas inquietações? Sabe, o preço da vida é alto e viver tem sido tão menos! Amanhã vai ser maior.

Outono de mar  na capital das páginas de afeto.

Lílian Almeida

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Foto: Lílian Almeida

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