Vó.

Foi de repente. Pode até ter sido um processo demorado, não sei mais precisar. A minha sensação é que foi do dia pra noite. Literalmente. Como se uma madrugada bastasse para roubar minha vó dela própria. Pensava assim, depois de subir os degraus que separam o segundo do terceiro andar e chegar na casa para mais um almoço. Encontrei-a recostada na poltrona vermelho-telha no fundo da sala. Cochilava. À primeira vista um cochilo comum. Mas, depois de dois segundos, tudo era já particular. Um horário impróprio para cochilo,  um vestido antigo todo distraído em tom pastel, um modo estranhamente novo de abandonar o corpo na poltrona e dormir. A grande matriarca da família envelheceu 10 anos numa noite. A mulher que mais ajudou minha mãe a cuidar de minhas necessidades infantis. Me ensinou a amar. Me deu banana amassada (com açúcar) e me levou para ver O Rei Leão, Aladdin e alguns filmes do Van Damme. Me chamava de meu louro. Cantava num portunhol engraçado aquellos ojos verdes. Me recebeu disponível a vida toda com um sorriso largo. A morena vó de pele enrugada, de um tempo sem intervenções na cara. De uma beleza-natureza. Essa vó, que até mês passado conversava comigo madura e lúcida a qualquer tema, perdeu-se dentro de si. Confusa. Assustada. Agitada. Pode-se sempre encontrar justificativas para acontecidos assim tão bruscos. O fato é que assim é que estamos. Não há vergonhas ou pudores. É o tempo que age pra todos nós. Só isso, o tempo, esse senhor tão bonito. Um dia todas as pessoas que conhecemos estarão fora do seu círculo. Todo mundo. Minha avó, eu e o Caetano também. Exames e olhares especializados já já darão conta de nomear o que se chama tempo. Assim, inaugurado um período ainda desconhecido na minha relação com ela, me resta estar junto. Agora tenho a oportunidade de retribuir as bananas. Tantas. Entendendo que agora tudo é desaprendizagem. Reconhecendo que todos somos feitos da mesma carne, e que com sorte também chegarei ao tempo de precisar de um neto para me beijar e dar boa noite.

Texto de Igor Angelkorte em prospecto da peça de teatro Elefante, que é dedicada pelo ator à sua avó (Texto escrito durante o processo de criação do espetáculo – 08 de junho de 2013).

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