Do ônibus sequestrado e de suas reféns

Eram gritos de medo
e eram de raiva
atrás das janelas fechadas

Tiros parados no ar
coberto de fios de cinza
e riscos de fogo cruzado

E no carro sequestrado
a longa voz se gritava

Estrangularam meu pai
estupraram minha mãe
chacinaram meus amigos
nos degraus da Candelária

E dentro e fora do ônibus
muitas vozes em meio a balas
sujas
muitos gritos em meio a tiros
turvos

E o eco
no ar incendiado
– por que morri?

E era sempre a memória
daquela porta da igreja
daqueles degraus cobertos
de matança e de meninos

Eu fugi
fugir de quê? de qual?
por que morri?

E era sempre
a escadaria da igreja
e as poças de sangramento
dos corpos dos meus irmãos
espetados pelos tiros
ressoando no meu peito

No carro fechado em cerco
o homem-menino de preto
e as cinco moças reféns
e o medo e o susto e o grito

Não tenho nada a perder
vou estourar seus miolos
e depois meu coração
parado em peito furado
dos tiros de antigamente

Quem estrangulou meu pai?
quem estuprou minha mãe?
quem chacinou meus irmãos?

Eu mato no que morri
de tanto que me mataram
de tanto eu haver morrido


Helena Parente Cunha (Cantos e cantares, Tempo Brasileiro, 2005)
The_Scream

O grito – Edvard Munch, 1893 (imagem disponível na internet)

 

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