Dor somente

Não é noite nem madrugada. Eu sinto uma dor. É manhã ensolarada, um dia talvez de praia, de sol. Mas uma dor dói dentro de mim. Não é dor de cabeça, nem de estômago, nem de dente. Uma dor, dessas dores de existir, dessa dor de saber-se gente. Ou simplesmente de não saber-se. Ela me dói como quem me olha e me investiga e me interroga. Eu doo, doo por dentro, uma dor muito forte, profunda. Uma dor que não se tem como dizer, e não tendo palavras para dizê-la, impossível comunicar ao outro, impossível. Porque ela somente dói em silêncio. E o silêncio é uma expressão difícil de comunicar.

Eu me recolho no chão, no tapete. Me recolho e sinto e choro e doo, doo muito. Mas que dizer disso que me consome? Não sei como explicá-la. Só sei que dói com o peso de anos, com o peso de existências, com o peso de muito passado. Ela dói e eu aceito que assim seja, que doa. Se ela veio para doer, eu estou para senti-la. Me considero um ser infeliz porque não sei partilhar o silêncio como expressão. Será? Ou será que os outros não conseguem ouvir o silêncio como expressão? Há barulho demais dentro e fora de mim. Eu peço paz. Eu peço silêncio para ouvir mais profundo a minha dor.

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Foto: Lílian Almeida

Saber-se gente, não saber-se mais e não saber mais nada e precisar seguir, ir adiante, perscrutar os mistérios em mim. Semear, desapegar, avançar. Um sem número de verbos, todos em construção no meu dentro. Há cacos de tijolos por toda parte, estou em obras. Talvez o que me doa seja a dor da construção, ver os tijolos no chão, ver a parede rota e descascada, ver nova parede subindo, as estruturas se erguendo. Reconheço no silêncio a minha paz, uma paz doída. Talvez o que me doa seja o peso de edificar-me. Descarto. Não, não é essa possibilidade. Percebo que o que me dói é a impossibilidade de comunicar no silêncio. É a impossibilidade de fazer-me ouvir no barulho do outro. O que me dói é a dor de saber-me ilha. É de saber que essa dor é uma ilha dentro de mim.

Dói e a manhã vai passando, eu deitada, recolhida no tapete, entre lágrimas e pensamentos. O insólito me acolhe com palavras que somente eu ouço. Faz silêncio dentro de mim e uma dor lancinante toma conta do meu peito numa manhã de sol e praia. Olho para fora dos meus doídos. Percebo que a minha dor é apenas, somente só, a minha dor. Não é a maior dor do mundo, não é maior que o mundo, é simplesmente a minha dor. E tão pequena, tão ínfima, no continente de dores que doem em todos os cantos do planeta. Eu, tão pequena, com uma dor tão ínfima, recolhida numa manhã de sol enquanto todos doem e trabalham e pulsam e vivem. Eu e a minha dor, recolhidos na manhã de sol sobre o tapete. Eu e a minha dor. Só isso. Só.

Lílian Almeida

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