Segunda oração

Aruvai circunda suspiro sublime d’olhinhos Deus

No despertar das horas, choro quieto e plangente das manhãs. O sol no lá-indo, prenunciando a ordem dos dias e das orquestrações. Matinal é alma que toca o reconhecimento de tua presença e devora por completo nossa imperfeita credulidade: “Nós os poetas puros…” entre tantos diversos dizeres, agregam-se àquele despertamento de horizontes. Três ou quatro lanços d’água sobre a face inda dormida e a pequena sensação de um mundo infante e princesas belsãs e gentis cavaleiros adentrando porta-aquela, bem ali; no acima dos tordos ares: nossos pensamentos. Alvor de deixar – desde o derradeiro mover – latumias e tempestamentos. Amigos que o tempo tarda, já não mais. Pesadas, nossas mãos tocam de levemente os bocados que insistem em restar do respiro da ida madrugada. O sertão nascente no afogo do vento aquele, velho refrigério d’antanho. Cruviana. Tudo no só deslocar de mãos e pensamentos verdejantes. Quero por muito, aqui, reviver a fértil dor que a falta desterra. Dor de estar presente na ausência constante de nossos olhares ante olhos teus, manhã aquela. Tantos passos e vagares perdidos por vegetações rasteiras e securas: poeira-de-invés: pertencimentos.

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Entre ramagens e rocios, o escorrer de algo de melodia; cordas dedilhadas ao longe; vindas de tempos-outros, escoradas em troncos ressequidos e cravadas aos poucos no peito nosso. No chão, o pó: incontido pelo esgar da noite: à espera.

No repentino. Éramos nós ali contidos. Longe de tudo que forçasse a nos identificar com a presença da mais vivenciada civilização. Cicatrizes abertas aos ventos. Sangue mais-que-duradouro de quantas as cantilenas ali acalentadas. O poeta destila a palavra entre-que-silentes e rumores despem-se de qualquer ensejo de acontecimento. Não. O tempo custa a cair em profundo rompimento. Esquentam as mais singulares pulsações, veias se abrem para os sentidos e fina sensação de fertilidade – vagares – caminha em direção aos sóis que estilhaçam a manhã; explodem em milimagens e cantilenias.

A felicidade é a dor de todas as horas, nesta hora. Olho em-mim: espelho. Delá, para onde? A fertilidade é – desde dentro – fuga-para, onde cresce a sóis, o sertão imaginado, a caatinga em flor: Tatarenas, vulções-zinhos multicolores abertos para mililáses-firmamentos, cheiro de terra seca, barulho de máquina fumegante ao longe – único sentido de quê?… Olho pela janela e vejo a rua, gentes que-aos-tantos, veículos e trançamentos de passos e esbarros e olhares perdidos entre-quantos-olhares, paredes e respirações, ofegâncias, jornais, bancas de revistas, desalinhos, uma mãozinha sumindo pelo aperto de outra no mar de pernas e passos apressados. A caminho de quê? A que busca? Espelho. O som de fora é veículo que – sob súbito – só a espera de-o-dia-de, salto em retorno, ou assim, de um sonho:noites mal traçadas.

Cruvianas.

Tudo é sereno e aruvai, teria o poeta ouvido por língua quase-quase inaugural. Ali fincávamos, entre pastagens e lúcidos entorpecimentos, afeitos a cascos de cavalos e montarias principescas e feudais; atreladas aos costumes lugarejos, perdidos no sei-lá – mourarias – onde tempos de ancestros infernais. Uma língua que se diz sem pátria, pela própria pátria ser: aruvai, aruvai e a alminha da gente se enchendo – o transbordo aos poucos – e a língua vem aos miúdos e poucos de gentes, não mais que nós, se avolumando no correito desta festa: cordão de fino linho – nós mesmos – o tecer incontido e pausado de todo e tudo; bordado de sutil tecimento.

Elementos rreconhecíveis: gadame invernado ente-cortes na paisagem. Cicatrizes abertas, paus, cinzas  e espinhos lancinantes e o sol por de-além. O sol. O sol. Só.

De espreito, por ali, como que de passagem, apenas essas outras coisinhas de franco fiandar: bilros, ciscar de trancilins, silvos, sílfides e alguma passarinhagem por gritantes ladainhas: O arrebento d’aurora.

Bendito proseio pr’essa prece. Antesmente, lá: o mesmo sol espocado; olhinhos-de-Deus desadormecidos.

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Igor Rossoni. Cruvianas – prosa d’encantar carneiros; fotografia Gal Meirelles. Quarteto, 2015.

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