Ato solitário

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Não, de início eu não queria. Ou melhor, não imaginava que era aquilo que eu queria fazer naquela noite de fumaça e de poemas. Mas, mesmo assim, despi-me e coloquei os meus dedos trêmulos entre as minhas pernas. Um abismo. Como é estupenda a máquina do corpo. A máquina de se fazer morrer. Mas, naquele instante, ela ainda não queria. O ventilador no teto no seu movimento tântrico? Eu ainda não sabia. Porém tinha, naquele dia, um certo charme o ventilador no seu teto. E veio tudo que se pode imaginar que nestes instantes podem vir. Veio aquele homem gordo e sujo que eu nunca imaginara que um dia viria… E outros dorsos de corpos fortes e truculentos que eu sempre repudiei. Apareceram mulheres gordas de fartos seios, aquelas dos sonhos adolescentes dos meninos italianos de Fellini. Aquelas que têm seios que são quase barrigas. Vieram pedaços de anúncios de revistas, fotografias de casas mundanas, bordéis fétidos, efebos de pele esbranquiçadas, reatores químicos. Os cães, com sua força que de tão animal, é quase humana. O meu corpo ainda não queria, já havia dito antes. Eu já havia tentado com a água, quando molhei-me demoradamente na cabeça, como que querendo fazer sair as impurezas pelo ralo, o suor fétido. Eu já havia usado a fumaça do tabaco que entrou com sua atmosfera cinza pelo meu sangue já não tão vermelho e iluminou os meus neurônios. A fumaça não bastou. Percorreu todas as pequenas correntes roubando a força do ferro. E a minha mão e minha respiração não queriam mais deixar o sangue correr. E nada! Várias das minhas mãos e vários dos meus dedos, uma soma de dedos, uma multiplicação de dedos. E nada! Eu precisava de outro corpo. O corpo do outro. O meu já não me bastava. É hora do prazer real da carne que de tudo me esqueço e só me vem a atitude, um fragmento de um abraço, um esvair de um cheiro. E o corpo responde com a facilidade que só as palavras pobres possuem. Quem irá me salvar? Mas qual daqueles? O meu corpo somente já podia ser todos: eu tinha a memória, e nos seus quartos, a princesa era eu. Palácios de homens nus. Enfileirados num pavilhão. 999 homens. Mulheres de unhas cor de carne. Mulheres de unhas brancas. Mulheres de unhas vermelhas. As filhas e as mães. Todas compareciam ao meu breve chamado. E nesse instante, eu uma rainha. Um tabuleiro íntimo inteiro de serviçais negros, na crina dos cavalos. O meu vale tinha todas as cores. No meu corpo mando eu. É o meu presente para mim. É este o augúrio da fé. Qualquer som, qualquer grito, qualquer ruído faz bem. Sejam todos benvindos, então! Que toque o telefone! Só apressará os desejos. Não de atendê-lo, mas de suportá-lo. De poder suportar ouvi-lo tocar. E que ele toque mais alto, mais forte, insistentemente até. Quem atende ao chamado é fogo. Pensei que era a água. Que a água ao molhar a minha cabeça, me consumiria. Não é a água. É fogo. Do inferno de enxofre. Possui cheiros de secreções. Que também são águas. O ar que vem do ventilador irá secá-las. Molhada já não ficará a pele. O corpo recolhe-se no algodão na terra. E, subitamente, desperto. Desperto de minha morte súbita. Realizei-me.

Adelice Souza (As camas e os cães. Fundação Casa de Jorge Amado, 2001.)

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