Três veias abertas de erotismo no Tratado de Rita Santana

AMÁSIA

Vem, homem, ofereço-te fibras duras

Da doida serpente que me guarda.

De paz sei pouco, dinamito em gritos.

Trago silêncios vazios que adornam as mulheres.

Se quiseres, beijo teu falo, e me ponho a falar

Das coisas que aprendi entre as pedras do rio.

Aproveita o calendário, a oferta das horas,

Diz-me adorar meus seios flácidos, minha embriaguez de puta.

Lambe com disputa asceta os meus meios, meus fundos.

Tratado_das_veias

Imagem disponível na internet

Deixa banhar de olhos os pêlos, a jactância têxtil,

Os arroubos de gado livre.

Faço-me de mulher boa, apascentada e morna.

Banho-te, filho advindo das trevas, na cisterna,

No poço fundo e frio dos meus mistérios.

Aqueço teus ossos com minhas carnes cativas

Ao que em ti é arrefecido.

Prometo, eu Amásia, amaciar o teu sono,

Enganar tua vaidade viril,

Avaliar sem critérios teu caráter de macho.

Depois, deixa a luz acesa e corre.

Ergo-me, esquecida de tantos deuses vingativos,

E abro a caixa de Pandora.

ARREFECIMENTO

Mário bateu à porta na primeira noite.

Beijou-me a mão, sorriu-me desajeitado

E calou.

Abri, acendi a vela, aqueci o guarda-chuva

Que ficou armado, duro, firme.

Na segunda noite, Mário só entrou, sem bater,

Sem cerimônia, sem requintes de fineza ou timidez.

Fiquei azeda, apaguei o fogo guardado,

Apaguei meus olhos molhados de uma esperançazinha boba,

Não mandei que sentasse.

Deixei o guarda-chuva num canto,

Mole como entrou.

Mário virou uma batata e nunca mais me fez visitas.

É uma pena!

Quando arrefeço é assim.

CONFISSÃO

Eu não creio em sonhos

José de Anchieta

Eu creio em sonhos, Padre.

Rezo o Credo olhando pras telhas,

E lá mesmo fico.

Sou matéria barro de querer impossibilidades,

Trago um marido debaixo das saias,

Um marido alado, azul, lindo!

Quando quero, ele bate as asas

E apaga incêndio – é um anjo de luzes!

Meus ofertórios matinais são dele.

Imagem disponível na internet

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Amantes me cercam de ofícios:

Toadas à janela, flores a cada dia, alianças e promessas,

E um eu-te-amo em cada beijo, muitos os são.

Não digo mais porque não posso, é pecado!

Eu creio em sonhos, Padre!

Vede que sou feliz.

Meu noivo nem sabe da minha espera,

Habita águas claras, rios pequenos, conchas.

À noite eu vôo,

Visito cidades, beijo velhos desconhecidos,

E amanheço nua de tantas vontades.

Eu creio em sonhos, sim!

Amém!

Rita Santana

(Os poemas integram o livro Tratado das Veias (Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2006)

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