Três abismos na poética de Clarissa Macedo

Trilogia

 

Ontem uma lacuna se abriu

rasgando os meus reinos.

 

Hoje uma coluna se ergue

na armadilha do meu peito.

 

Amanhã uma ferida que nunca tive

irá maturar até me quebrar ao meio.

 

 

Alegoria

P1020780

Foto: Lílian Almeida

 

O pão mofado

de quase sempre

mostra

que entre

a verdade e a fome

há um abismo

de pontes

imaginárias.

 

 

Fenda

 

Há tempo o menino ficou lá fora.

Espera, espreita a barra da porta,

mas já não pode passar.

 

Todos os longos anos de preparo –

escola, dentista, boxe –

e a busca pelos jogos de montar,

pelo seio roído da mãe que já foi.

 

Uma vida de busca e solidão,

a passagem do peito fechada:

 

só o túmulo aberto da infância.

 

 

Clarissa Macedo (Na pata do cavalo há sete abismos, 7Letras, 2014 – Prêmio Nacional Academia de Letras da Bahia 2013)

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