Saber português

Nova Imagem1 Ele era português. Mas não era desses portugas que há por aí, que, descendentes longínquos da Terrinha, por serem bons tomadores de vinho e apreciadores do melhor bacalhau, se dizem portugueses. Ele era legítimo, viera de Portugal, de navio, bem jovem. O bigodão era, pois, genuíno. Trouxera consigo a preciosa esposa, Preciosa inclusive de nome. Depois de morarem por muitos anos em São Paulo, abriram uma pousada no litoral catarinense. Foi lá que os conheci. E na convivência com o casal, ganhei algumas lições valiosas, de cada um, e do par. A lição óbvia, já adivinharam, por certo, foram as receitas preciosas de quitutes portugueses. Afinal, será que existe portuguesa que não cozinhe bem? Ainda bem que ainda não conheci nenhuma… Apesar dos dois (que quando privei com eles já tinham idade) terem, por conta das crônicas – infelizmente não as da forma narrativa, mas as moléstias – de fazer muita dieta, ela não se fez de rogada, e ensinou-me especialmente macetes do preparo de vários pratos. Mas o convívio com ambos enriquecia-me de muitas maneiras. Certa vez, ela apareceu na consulta (era minha paciente de consultório) muito taciturna, o que não era de seu comportamento usual. Demonstrou até vontade de adiar o procedimento, e acabou contando que estava muito chateada com o esposo, que agora, ultimamente, tinha dado pra ser grosseiro, ríspido com ela. E que ela não conseguia nem chorar, e aquela mágoa estava lhe fazendo mal. Eu, lembrando-me que, quando criança, havia aprendido com uma tia a, sempre que algo estivesse me angustiando, procurar um lugar deserto e gritar até passar, dei a ela este conselho “precioso”… Na semana seguinte, está de volta, toda “catita”, e quando eu lhe perguntei se lhe deu alívio, se foi mesmo um desafogo gritar, sozinha, na praia, ela responde: “ – Mas eu mudei a prescrição! Não gritei sozinha, não, oras, gritei com ele!”! E, lá de fora, ouço a poderosa voz de Seu Alfredo: “ – Tu me pagas, doutorinha…”! Mas o que mais recordo, porque foi o ensinamento mais profundo, mais precioso, quem deu foi ele. Veio da forma como ele me cumprimentava. Ao invés do tradicional “Tenha um bom dia”, Seu Alfredo dizia “Faça um bom dia”! E isto sempre era uma chacoalhada que ele me dava, sem saber, talvez. Mas aquilo sempre calava em mim. E eu passava todo o resto do dia atenta a fazê-lo, meu dia, não a tê-lo. Bons dias, aqueles…

Ana Valéria Fink (formada em Odontologia. Poeta, cronista, contista. Acadêmica de Letras no Campus XXI da Uneb, Ipiaú, Bahia.)

Saber português faz parte do livro Regando os Jardins do Senhor e Outras Crônicas (Ana Valéria Fink, Via Litterarum, 2015).

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