Menelau e os homens

Os instantes de Menelau eram para olhar para o amigo; aguardar o que fazer em diante. Farejou uma sombra e ficou mirando Davi com aquele jeito de sempre; olhos entrecerrados, língua pendurada e, a qualquer pio diferente, focinho no ar, buscando notícia do mundo a sua volta. Também, a qualquer sinal do amigo, se aproximava dele; afinal, no estado em que Davi se achava, poderia precisar de algo, uma lambida, ou um gracejo, quem sabe? E mais um pouco se passou até dar a hora das cagaitas. Sol medonho e os dois comendo cagaitas, para chumbear e esquecer a vida; ou sonhar com um bom plano, talvez.

E foi como daquelas bebedeiras melosas em que o bebedor, já num estado grudento e de um sentimentalismo maçante, chora coisas velhas e em aberto em sua vida. Assim estava Davi. Uma vez mais, bêbedo de cagaitas, chorava baixinho, porque era como podia chorar. Menelau, aninhado a ele, dava seus cains,para não deixar o amigo chorar só. Estavam fracos e bêbados e eram, de parte a parte, o que havia restado um ao outro; e ali deitados, os dois ao pé do curral de pedras, dormiram abraçados. (…)

Nem precisava Davi ter se agachado para olhar nos olhos do seu cão, porque ele já havia entendido tudo.

– Tu fica bem aqui, Mené. Não sai daqui, senão eles pegam você e… pááá! Entendeu? – Davi simulou um tiro de rifle com as mãos e Menelau entendeu. – Se eu não morrer, eu volto. Não sai daqui, Menelau. Se eu não morrer, eu volto. (…)

O sol subiu inclemente sobre a cabecinha de Menelau, o imbatível – porque para isso estava ali; para estorricar os seres e a terra. E mais um início de tarde se deu, o ar tremulou e o mundo quedou-se numa brancura pelo carrascal ingrato, que Menelau nem podia enxergar tanto; e algum pouco frescor àquelas horas, só nas nesguinhas de sombra sob o cocho dos bois, ao pé das paredes do curralinho de pedra ou, senão, na cagaiteira magra. Prcurar um nicho da serra não iria, que Davi falou que ficasse; não iria sair, podia algo dar errado e Davi não lhe encontrar mais. (…) Esquadrinhou mais um pedaço do chão poento, campeando o que comesse, mas só lhe coube mesmo aquilo que lhe recaiu feito um regalo do velho amigo que os homens levaram; o gosto que aprendeu a ter por cagaitas. Achou mais duas bem azedas e comeu, como que para brindar ao amigo que se foi; como se intentasse agradar a Davi, caso ele chegasse de repente, saindo daquela brancura.

No fundo, sentia pena de Davi, o amigo que, dentre essa raça de homens, era o que, em seu entendimento, mais se irmanava a ele. Era o único homem grande que o entendia, que falava com ele que, já que não era como ele, ao menos por toda a vida tirara umas horas para dengá-lo, sentados os dois no quintal. Bem verdade que, às vezes, até ralhava com ele. Como no dia em que apanhou um frango polaco desavisado que se achegou do terreiro, sem saber que aquele era o setor de Menelau, o terror dos forasteiros. Mesmo naquele dia, quando, por ter matado o frango andejo, levou duas lapeadas de bainha de facão, entendeu que Davi, na verdade, agiu assim porque queria muito lhe dar modos. Sinal de que Davi o amava, pensava Menelau, sozinho no curral de pedras e já com saudades do amigo. (…)

Posto de pé, o cujo se deu a mirar Davi; e dava uns passos a seu redor, contemplando aquela encarnação da desvalença, bem ali em sua sala. Davi, cansado daquele silêncio idiota, rompeu com o que não podia mais conter e lançou um olhar temeroso ao homem.

– O que foi feito com meu povo? Onde está meu irmão? – Davi indagou com voz trêmula, temendo o que teria de resposta.

– Não há mais seu povo, Davi. Agora somos nós. (…)

“não, Davi. Eu preciso de você. Nossa cidade precisa de sua inteligência. Vamos unir forças”. E nisso reside algo de memorável porque, se alguém pudesse se esconder por entre o mobiliário da sala grande para ouvir a conversa poderia, então, um ano depois e para sempre, lembrar daquele dia como o dia em que Davi aceitou o cargo de primeiro adjunto do intendente e mais uns bons cobres pelo susto da fuga. E mais, de contrapeso, a mão da irmã do intendente, que ninguém nunca cortejou mesmo…

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

E os dois dias seguintes foram Davi e o intendente e mais uma fila de cacundeiros, todos montados pelas ruas a pararem aqui e ali para um petisco ao redor de uma mesa ou outra, numa encenação busrlesca em que todos parecem ser iguais. (…)

E mais dois dias e duas noites se passaram; porque muitas honras foram necessárias para tanta deferência e homenagens e cafezinho pelas casas adentro. (…)

Era ainda uma hora sem sol quando Davi se levantou. Chamou a égua no cabresto e arreou-a, arrumando bem rabicho, loros e belo alforje que tinha, preso à sela. Banhou-se da água da talha que havia no quintal – se tivesse se lembrado que era adjunto não teria feito aquilo com tanto gosto – e vestiu sua melhor fatiota, para condizer com seu cargo e posição. Montou, saiu devagar pelo colchete e tomou uma rua discreta que lhe levasse à beira do rio. Foi por ali até a altura do vau. Atravessou o leito magro e ganhou o carreirinho da outra margem. Era um percurso de menos de meia légua pelo carrascal seco e ainda coberto por uma cerração, o que dava àquilo tudo um cunho solene, um ar quase apoteótico ao pequeno trajeto. Mais ainda pela importância da figura, quase um estranho, a cruzar pelo meio das juremas e unhas-de-gato. Davi olhava aquela paragem como se lhe fosse estranha. Para ele, parecia fazer um ano ou mais que tinha estado ali e, por todo o tempo, questionou o sentido daquele retorno. Pensou em voltar para não ser visto nos matos, coisa mais vulgar para um alguém de sua altura. Foi rumando cabisbaixo, que a montaria até adivinhava seu desânimo, e nisso, diminuiu a andadura. Seu coração, no entanto, ia num ritmo diverso; a cada braça percorrida daquela garrancheira, batia-lhe mais forte, tomado de um misto de medo, emoção e vergonha.

Até que, enfim, Davi enxergou, a trinta passos, numa aberta do carrascal, o curralinho de pedras, e mais uma vez a forte sensação de lugar estranho: um aprisco esquecido no tempo, usado por ladrões de gado. Foi se achegando dele, até avistar a cagaiteira. A égua acelerou a pisada conforme a urgência do olhar de Davi. Ele apeou, atou a ponta do cabresto num pau qualquer e foi se aproximando de Menelau, o obediente. Menelau estava feliz; choramingou seus cains de tanta emoção. Estava moribundo e batido por uma doença feia que lhe comeu as carnes e que lhe fez sobrar só couro e ossos. Apesar disso, manifestou sua alegria em ver Davi e, colado ao chão sob a cagaiteira, pôde, com esforço, abanar a cauda, porque só lhe restou força para isso. Disse ao amigo com o olhar: “Você falou que eu ficasse, eu fiquei… esperei você”. Tremelicou a cauda, depois abanou três vezes, duas, uma. E Davi sentiu profundo ardor no estômago, como o ardor da fome que sentiu alguns dias. Fechou um cigarro e acendeu recostado ao tronco da árvore. Derramou umas lágrimas de culpa e soluçou um pouco, mas Menelau não se achegou dele para um consolo. Não conseguiu mais o calor do olhar de seu cão de caça; só melancolia e um sincero desejo de descansar. Depois de um suspiro profundo e de um breve gemido, então, finalmente, Menelau, o duro, cerrou seus olhos sossegado, porque Davi estava de volta. A égua, atada ao longe, nunca pareceu tão feia, cabisbaixa e triste de ver aquele quadro. Davi enxugou os olhos, engoliu o choro covarde e foi tirando umas pedras do curral para cobrir a carcaça do amigo, onde, até hoje, se pode ver a cruz fincada sob a cagaiteira velha do curral de pedras, no carrascal espinhento. Olhou uma vez mais para aquele recanto, em que pôde desfrutar dos últimos instantes com Menelau, e sentiu, de verdade, que estava sozinho no mundo. Olhou outra vez e se envergonhou de quem era quando uma voz lhe golpeou no peito: “Os homens não são bichos de confiança”. Tomou as rédeas de sua égua monumental, montou-a e se afastou num galope apressado, afinal, a cidade precisava dele.

Dênisson Padilha Filho – fragmento de Menelau e os homens (Menelau e os homens, Casarão do Verbo, 2011)

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