Fumaça e cinzas

Uma cidade de montanhas e montes. Uma língua doce e sinuosa me envolve inteira no estar estrangeira. As palavras nativas dançam em meus ouvidos. Eu falo como quem baila com os sons que escuto e respondo. Dónde está el Mercado Central de San Pedro? Fotografo as paisagens, os monumentos, as gentes. Respiro muito o ar que falta. Caminho pela subida que leva ao lugar.

As mulheres e suas tranças compridas, os tecidos coloridos rebatendo o frescor do outono. As crianças amarradas em panos, às costas das mães. A pele vermelha, a negra cabeleira, os olhos escuros. A gente atrai meus

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

olhos e algum passado em mim. As lojas oferecem tecidos, artesanias, peles, roupas. O multicolor enche-me de ânimo. Um homem desce. Eu olho, reparo, acompanho imóvel alguma semelhança com o que já foi. O preto resoluto acima da cabeça, os olhos, o idioma. O suficiente para o seu retrato.

O encontro na Avenida 9 de julio. A despedida na Calle Florida. Um déjà vu numa rua cusquenha. O indício da minha carência, ver seu rosto num estranho de outro país. A sua ausência é forte em mim. Mais presente à medida que subo e me aproximo do mercado. O mercado, só um mercado deslocado ante as minhas recordações. Milhos, grãos, frutas, carnes, ervas. Você, a avenida, a rua, a saudade no quarto de hotel.

Escrevo com a ânsia de registrar cada pulsar desritmado da lembrança. Te vi na face de outro e era você. Descansei minha língua no castelhano que escutei de ti. Me ri aprendendo um vocabulário tão seu. As palavras daqui me dizem de você, mesmo tão longe. Paro. Queria dizer tudo isso. Não posso. Falar é entregar-se. Não me entrego. Resisto, senhora da fortaleza de ventos dentro de mim.

Subi as montanhas da cidade para me encontrar. No templo do Sol a sacerdotisa pediu minha armas. Rendida, deixei meu arco junto às pedras, segui de volta para mim. Cruzei contigo na distância de um olhar, na materialidade de um pensamento.  Desarmada, voltei de novo àquela avenida do passado e à rua florida de adeus.

Eu poderia te dizer tudo isso. A tempestade que me habita consome minhas forças. Ponho fogo nesse escrito de vontade e impotência. Fotografo a fumaça e as cinzas. O que restou de tudo o que eu poderia lhe dizer.

A fotografia desse momento segue numa correspondência manchada pelo sal do que não pode ser.

Lílian Almeida

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