Penso às vezes, com um deleite triste

Penso às vezes, com um deleite triste, que se um dia, num futuro a que eu já não pertença, estas phrases, que escrevo, durarem com louvor, terei em fim a gente que me “comprehenda”, os meus, a familia verdadeira para nella nascer e ser amado. Mas, longe de eu nella ir nascer, eu terei já morrido ha muito. Serei comprehendido só em effigie; quando a affeição já não compense a quem morreu a só desaffeição que teve, quando vivo.

Um dia talvez comprehendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de interprete de uma parte de um seculo; e, quando o comprehendam, hão de escrever que na minha epocha fui incomprehendido, que infelizmente vivi entre desaffeições e friezas, e que é pena que tal me acontecesse. E o que escrever isto será, na epocha em que o escrever, incomprehendedor, como os que me cercam, do meu analogo d’aquelle tempo futuro. Porque os homens só aprendem para uso de seus bisavós, que já morreram. Só aos mortos sabemos ensinar as verdadeiras regras de viver.

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

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Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma alegria do ar é fresca de mais contra a pelle. O dia vae acabando não em cinzento, mas em azul-pallido. Um azul vago reflecte-se, mesmo, nas pedras das ruas. Doe viver, mas é de longe. Sentir não importa. Accende-se uma ou outra montra. Em uma outra janella alta ha gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo que roça por mim pasmaria, se me conhecesse.

No azul menos pallido e menos azul, que se espelha nos predios, entardece um pouco mais a hora indefinida.

Cahe leve, fim do dia certo, em que os que creem e erram se engrenam no trabalho do costume, e tem, na sua própria dor, a felicidade do inconsciencia. Cahe leve, onda de luz que cessa, melancholia da tarde inutil, bruma sem nevoa que entra no meu coração. Cahe leve, suave, indefinida pallidez lucida e azul da tarde aquatica – leve, suave, triste sobre a terra simples e fria. Cahe leve, cinza invisivel, monotonia maguada, tedio sem torpor.

Fernando Pessoa. Livro do desassossego, p. 208-209. (Tinta da China Brasil, 2013, edição de Jerónimo Pizarro)

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