A poética das águas de Olga Savary

Sensorial

 

Íntima da água eu sou

por força, mar, igarapé, rio, açude,

pela água meu amor incestuoso.

 

Ycatu*

 

E assim vou

com a fremente mão do mar em minhas coxas.

Minha paixão? Uma armadilha de água,

rápida como peixes,

lenta como medusas,

muda como ostras.

 

*Do tupi: água boa

 

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

Mar I

 

Para ti queria estar

sempre vestida de branco

como convém a deuses

tendo na boca o esperma

de tua brava espuma.

Violenta ou lentamente o mar

no seu vai-e-vem pulsante

ordena vagas me lamberem coxas,

seu arremesso me cravando

uma adaga roxa.

 

Mar II

 

Amo-te, amor-meu-inimigo,

de mim não tendo piedade alguma.

Amo-te, amor-sol-a-pino,

feroz, sem nenhuma sombra.

Estás inteiro em mim

e vou sozinha.

Ao ver-te, amor, minha sorte ficou

como se fiz: marcada.

Mar é o nome do meu macho,

meu cavalo e cavaleiro

que arremete, força, chicoteia

a fêmea que ele chama de rainha,

areia.

 

Mar é um macho como não há nenhum.

Mar é um macho como não há igual

– e eu toda água.

 

Olga Savary. Repertório Selvagem: obra reunida (MultiMais/ UMC; 1998).

 

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