De cabelos e ousadias

Cheios de ousadia! Ela pensava enquanto deslizava o pente. Dei-lhes todas as permissões e agora os queria em meu ordenamento? Alguns cachos resitiam à contenção sugerida pelo instrumento da ordem. Tarde demais. Cabelos cheios de atitude não se dobram facilmente a quereres. Sorriu condescendente com a teimosia de alguns curtos fios. Ela mesma era responsável por toda aquela autonomia.

Identificações, identidades. Criança é mesmo um ser inocente, toma por verdade as sandices que os adultos dizem. Desprovidas de parâmetros, o que parece ser, aos olhos delas, acaba sendo. Venha pentear essa juba, menina, ouviu tantas vezes. Ela ia, para a sessão de tortura: puxões, esticadas. Segura essa cabeça, era certa a ordem depois dos estirões. Desembaraçado, imediatamente era contido, preso. Ela adorava as raras vezes em que, por instantes, ele ficava livre. Pulava e jogava a cabeça para a direita e para a esquerda. Era o máximo aquele balanço. Toda menina tem em si uma altivez capilar, a satisfação de exibir e balançar os seus cabelos, seja ele como for. Mas, cotidianamente, isso muda. E as meninas de cabelo crespo vão, pouco a pouco, enrolando-se nas ondulações dos seus fios. Deixar esse cabelo de arapuá solto? Nem pensar. Eu sei a trabalheira que é para pentear, era a justificativa dos que cuidavam dele na infância.

Foto montagem cabelo/ peça de cerâmica da Cores da Terra: Lílian Almeida

Foto montagem: Lílian Almeida

Ela foi reduzindo-se nos caracóis aprisionados dos seus cabelos, acreditando na juba, no cabelo de arapuá, no cabelo de Bombril, no cabelo duro e no outro, aquele não é acompanhado por desqualificações. Ainda menina, conheceu o “glamour” de ver o vento brincar com os fios esticados, não pelo pente, mas pelo cheiro horroroso da amônia. Na primeira vez, ela ficou surpresa com o tamanho adquirido pelo cabelo, desfeitas todas as curvas e voltas. As longas mechas bailando no vento, uma imagem para a vida inteira. Era novidade o cabelo solto, bailante, alisado. A cena digna de comercial de alisante. Ela mais se retraía, desconfortável com o que nem sabia, só sentia. Muitos anos depois, descobriu que havia, desde lá, o germe de uma identidade que não era, ainda, consciência.

Alisado, permanenteado, relaxado. Um cabelo tratado com a tendência da vez. Ela, uma cliente resistente na preservação das ondulações. Minha cabeça tá ardendo, deve ser hora de enxaguar. Só tem cinco minutos. Mas tá ardendo muito. Mais que isso e os meneios transformavam-se em retos fios. O tempo correndo sobre as lembranças, o cabelo preso, a juba contida, a vergonha da artificial beleza. A vergonha. Foi pouco a pouco lembrando-se da juba solta e altiva, em raros momentos infantis. Recordou da leveza de jogar o cabelo de Bombril para os lados, da alegria de vê-lo balançar. Tempo de reordenamentos, desaprendizagens.

Sustentar a liberdade não era fácil. O cabelo inchado na cabeça que só conhecia os fios unidos, contidos, colados a ela. Anos de prisão, os condicionamentos, os acanhamentos. Manter soltos os cabelos ondulados. Assumir os traços do que se é. Aprender a soltar-se dos rígidos fios de uma estética da exclusão. Superar a vergonha exercitada no encolhimento de si mesmo. Anos, pentes e cremes no aprender as sinuosidades várias. Reposicionar os fios no majestoso e ancestral lugar. O tempo, a cabeleira menos oprimida, menos reduzida a não ser. Suplantar o solo em que se pisou um dia, tarefa para fortes quereres internos. As aceitações externas, escassas, incentivavam a mudança. Você ficou muito bem com o cabelo solto. Deveria usar ele assim mais vezes. A altivez se fazia dentro e a resposta ecoava fora.

Construir sólidos terrenos de identificações. Deslocar-se do movediço lugar do tudo igual. Igual a quê? Igual a quem? Identificações compulsórias, identidades forjadas. Palmilhar o solo, saber-se no identificar, construir-se na colcha de retalhos de si mesmo. A imagem no espelho não estampa tudo o que se vê, o desafio é diário. O percurso não é reto. Há aclives e descidas, buracos, aceitações e estranhamentos. Ela? Segue aprendendo com as curvas dos seus cachos a ser quem, de verdade, é.

Lílian Almeida

Anúncios

2 pensamentos sobre “De cabelos e ousadias

  1. Mais uma vez, Lílian, você provoca não apenas a identificação da leitora com teus escritos, mas também fomenta um forte sentimento de alteridade. A tua dor, tão nossa, nos leva a regozijar pelo que hoje somos, pelo que buscamos ser, por não sermos o que quiseram forjar em nós. Então, parabéns.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s