O filho eterno – romance

Só descobriu a dependência que sentia pelo filho no dia em que Felipe desapareceu pela primeira vez. É, talvez, ele refletirá logo depois, ainda em pânico, dando corda à sua rara vocação dramática, que agora lhe toma por inteiro, a pior sensação imaginável na vida – quase a mesma sensação terrível do momento em que o filho se revelou ao mundo, da qual ele jamais se recuperará completamente, repete-se agora ao espelho, com intensidade semelhante, mas não se trata mais do acaso. Desta vez ele não tem álibi: o filho está em suas mãos. E há que preencher aquele vazio que aumenta segundo a segundo, com alguma coisa, qualquer coisa – é o fim de uma escalada mental que vai queimando tosos os cartuchos da razão até, aparentemente, não sobrar nenhum, e então a ideia de solidão deixa de ter o charme confortável de uma ideia e ocupa inteira a nossa alma, em que não caberá mais nada, exceto, quem sabe, a coisa-em-si que ele parece procurar tanto: o sentimento de abismo. (Não se mova, que dói.)

Esse é o retrospecto desenhado com calma, quase vinte anos depois. No momento, tudo é uma banalidade absurda, em que a partir de um primeiro olhar mecânico de procura – cadê o menino? – que logo se perde em outros afazeres, até voltar ao ponto – ele estava aqui, vendo televisão – e o apartamento não é tão grande assim para uma criança se esconder, o que ele nunca fez, aliás.

(…)

A porta aberta, ele percebe – saiu de casa e deixou uma fresta de pista. Com certeza pegou o elevador para descer os dezenove andares, o que ele sabe fazer. Não, o porteiro não o viu, o que não quer dizer muito – bastaria uma breve descida de dois minutos até o estacionamento, uma ida e volta, e o menino passaria por ali sem ser notado. O prédio, sinal dos tempos, ainda não tinha as grades altas com pontas agudas e câmeras de segurança e os fios elétricos desencapados que pouco depois fecharia aquele pátio generoso e inteiro aberto, quinze metros da portaria à calçada, onde o pai se postou, pateta, olhando para um lado e para o outro, o mundo inteiro diante dele. Escolheu o caminho mais conhecido, em direção ao centro. Ele deve ter ido por aqui. Pequenas esperanças vão se formando lado a lado com grandes terrores. Virando a esquina, quem sabe ele esteja ali? É preciso perguntar às pessoas, mas ele sente uma inibição absurda, uma espécie de vergonha, por ele e pelo filho, que trava os gestos – ou a simples vergonha masculina de perguntar, como nas piadas homens versus mulher. O homem nunca pergunta, e ele parece corresponder ao próprio lugar-comum. Cretino topográfico, o pai é capaz de rodar dez vezes perdido num bairro antes de perguntar a alguém onde fica a rua que procura. Mas agora não é uma rua, é um filho. Teria de achar a palavra certa para explicar, as pessoas não sabem – talvez dizer “você viu meu filho? Ele é um menino com problema”, ou “ele é meio bobo; ou, ele é “deficiente mental”e tudo aquilo não corresponde nem ao filho nem ao que ele quer dizer para definir seu filho; ele é uma criança carinhosa mas meio tontinho, talvez assim ficasse melhor; não pode dizer “mongolóide”, que dói, nem “síndrome de Down” – naquela década de 1980, ninguém sabe o que é isso.

(…)

O pai apressa o passo. Em pouco tempo, já está correndo nas quadras adjacentes – nada, praticamente ninguém nas ruas. Ele pode estar em qualquer lugar. Ele pode ter encontrado uma porta aberta, qualquer uma das milhões que existem no mundo, e avançado por ela, subido em escadas, em elevadores; e, se alguém encontrou, não saberá o que fazer, nem ele saberá explicar quem é. Se o próprio pai também não sabe quem é, pensa ele, tentando escapar com o jogo vazio de palavras. Vai até a banca de jornal, onde sempre passa com o filho para comprar revistinha, e enfim pergunta pelo filho, mais seguro porque ali já o conhecem – não é preciso explicar nada. Não, ninguém viu o menino ali. Ele deixa o telefone: se ele aparecer, me chamem, por favor. Vai fazendo um círculo em torno de casa, avançando pelas ruas. Nada.

Imagem disponível na internet

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Que talento seu filho tem, além de ser uma criança carinhosa, com surtos de teimosia? Nenhum, ele calcula. Todas as tentativas de alfabetização fracassam. Talvez seja cedo para ele: 9 anos. Talvez não seja uma limitação de inteligência, isto é, falta do potencial capaz de reconhecer num sinal escrito a representação de um som (o que é mais difícil) ou de uma ideia (o que é mais fácil – e que ele consegue erraticamente, mas não na abstração das letras; a primeira palavra que leu foi coca-cola). A questão, o pai divagava, enquanto anda já desanimado, afundando-se na paralisia do pânico – onde se meteu esse filho da puta desse guri? – , é que ele não tem linguagem sofisticada a ponto de a alfabetização fazer sentido; ele não tem sintaxe, tempos de verbo, marcas sistemáticas de plural ou de gênero, nada. Ele tem apenas o domínio de palavras ou blocos de duas ou três palavras avulsas. Já seria útil, ele imagina, para pegar um ônibus. Mas ele não tem maturidade para pegar um ônibus sozinho; ele vive no mundo da fantasia. O que faria ele lendo essa placa azul,  pergunta-se o pai, novamente na esquina próxima de casa – rua Dr. Faivre? O que isso significa para ele? Nada. Talvez a indicação do caminho para o planeta de seus heróis – e Felipe diria, o braço estendido: “Por aqui”, repetindo algum bordão do Pokemón, como um desenho animado, não uma pessoa.

É preciso – e o pânico aumentou – acionar a polícia. Eu não vou conseguir sozinho – e em cinco segundos prefigurou uma sequência desvairada de biscas que culminaria em entrevista na televisão, reportagens, cartazes na cidade inteira, uma comoção coletiva em torno de seu filho. Sentiu mais forte o frio na espinha e a perda definitiva da liberdade. Alguém marcado até o fim dos tempos como o pai que perdeu o filho – que, naturalmente, jamais será encontrado. Volta para casa suando, de cansaço das corridas e do terror do momento: a cada segundo a ideia do desaparecimento vai ficando mais concreta na sua vida; é preciso readaptar a alma àquela nova situação – a ausência. Talento. Sim, o filho desenha, ele lembra, e é como se isso o redimisse. Vejam: meu filho tem qualidades! Sim, ele desenha, e tem um traço original, parece – mas não sabe disso. Ele ainda não tem a dimensão da “autoria”, esse orgulho primeiro – e granítico – de toda a arte nos últimos quinhentos anos. Para o menino, o mundo não tem hierarquia nenhuma, nem nas formas, nem nos valores – tudo é a mesma matéria instantânea a todo instante. Um surto de desânimo arrasta o pai de volta para casa. Tudo que não foi não poderia ter sido: é assim que as coisas funcionam. Conforme-se, ele repete três, quatro vezes, no velho jogo para saber se o sentido se esfarela ou se mantém. Conforme-se.

(…)

Aqui e agora: voltando para casa sem o filho, o mesmo filho que ele desejou morto assim que nasceu, e que agora, pela ausência, parece matá-lo.

Cristovão Tezza – O filho eterno

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