Silenciosa reverência ao artista

Eu chegava ao Rio com um grupo de amigos. Foi num dia qualquer no passado, incólume na memória, caracterizado pela presença de um carinho sem palavras. Aguardávamos o despacho de nossas bagagens no aeroporto. Gente, muita gente e muita mala rolando na esteira. Parece-me que eu já estava fora do ritmo e do tom. Uma amiga parou, na saída da aeronave, para registrar o encontro com um cantor famoso na década de 80. Não vi, não percebi, tamanha a minha disritmia. Todos juntos, aguardando, conversando. Uma alegria em falatórios e risos, a nossa juventude saltando aos olhos e ouvidos. Ali, ao lado, avisto aquele que se fez música em minha trajetória, desde a infância. Toda menina baiana tem um santo que deus dá, que deus deu. Sim, estava ao meu lado. Os olhos esmaecidos, os cabelos brilhando na luz que beijava os fios brancos. Ele ali, do tamanho de sua altura e simplicidade. Eu também ali, parada, contemplava a beleza e a sabedoria vestidas de homem. Uma trilha musical acompanhava o meu êxtase. Realce, realce, quanto mais parafina melhor, realce, realce, com a cor-do-veludo, com amor, com tudo de real teor de beleza, realce. Para dar movimento à minha inércia, um curta-metragem da minha vida deslocava-se ante os meus olhos cheios de recordação. Os fins de semana, ouvindo-o na radiola do meu pai. Como as imagens dos dois se pareciam, sobretudo os olhos enevoados pela idade. Pula, caminha não pode parar, pula, caminha que eu quero passar, pula, morena, que eu quero ver, ficar parado assim é que não pode ser. Eu pulava e dançava na sala da infância e o meu pai pulava comigo. O livro da escola iniciava-nos nas culturas e saberes. O convite para escrever uma redação vinha com Se eu quiser falar com Deus. Aquele universo já era meu e eu sabia que precisaria despir-me para falar com Ele e caminhar, decido, pela estrada que ao findar vai dar em nada do que eu pensava encontrar. Os rumos das minhas rotas sempre me faziam lembrar de andar com fé, pois a fé não costuma faiar, mesmo a quem não tem fé a fé costuma acompanhar. Eu ia e vou, andando com fé na vida, melodiosamente acompanhada pela voz e pelas músicas daquele homem, ali, aguardando sua bagagem na esteira. Ele conversa com uma moça bonita ao seu lado, suponho que seja sua filha, parece até que os traços dela lembram os dele. Eu apenas contemplo e reverencio em silêncio. Gostaria de me mexer, de falar, de dizer o quanto agradeço pela obra poético-musical dele. Mas nada. Mudez. Contemplação. Só me mexo para tirar a fotografia com o celular de um dos amigos que notou a presença dele. Você poderia tirar uma foto conosco? Sim, claro. Amiga, você poderia tirar a nossa foto? Eu apenas estendi a mão e segurei o smartphone. Focalizei o grupo, ele ao centro. Os meus olhos marejavam uma felicidade sem palavras. Olhei com atenção o seu rosto, agora mirando a câmera. Fiz duas fotos, para garantir o registro. Não disse uma só palavra, não movi um passo. Todo o meu ser dobrava-se e saudava a grandiosidade daquele homem de notas musicais. Revisitei na lembrança sua apresentação com a Orquestra Sinfônica da Bahia, lá onde eu era desterro. Naquela noite, matei a saudade e morri na distância do meu lugar. Eu, longe do meu pertencimento, vendo e ouvindo a minha gente e a minha música. Eu chorava, cantava, sorria, contrariando a plateia muda e contrita do lugar. O show me lembrava que meu caminho pelo mundo eu mesmo traço, a Bahia já me deu régua e compasso. Ele pegou a sacola na esteira, a moça também pegou uma mala. Gil, eu amo a sua obra musical e reverencio o artista que você é, pensei em despedida. Ele atravessou o espaço, cruzou a porta eletrônica, saiu do meu campo de visão. Eu peguei a minha bagagem e aguardei os meus amigos, recompondo-me das lágrimas extasiadas que escorriam sobre minha face.

Lílian Almeida

Foto de Lílian Almeida; capas de disco disponíveis na internet

Foto de Lílian Almeida; capas de disco disponíveis na internet

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