As digitais estavam todas lá

Faz escuro, mas eu canto.

Thiago de Mello

Uma madruga dormida em sobressaltos com o horário. Era preciso levantar e tomar o primeiro ônibus para casa. O escuro e o galo cantando seu irmanado cocoricó. A pressa de quem não podia perder o ônibus e o tempo se impelia na beleza de ouvir de perto a sinfonia das aves. Galos e passarinhos desconhecidos tecendo a manhã que logo seria. Não perdeu o ônibus e seguiu olhando a árida paisagem de galhos secos e verdes pés de mandacaru e palma, apesar. Apesar da restrição, a vida. Uma pulsação incômoda na barriga revirava o que não assimilou. Estômago e intestinos na sapiência de incorporar, excretar, remoer. Remoía nas vísceras a marca invisível à vista. Era preta a mão

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

que digitava as letras e rabiscava vidas.

Aquele instante da vida da mulher era a impossibilidade. A mesa de cirurgia impassível. O dentro dela todo em sangue e dor antes do corte ser. Não foi nem seria a mãe que desejou no adiado tempo. Quantas mulheres na impossibilidade do desejo realizado? Quantas cores de vontade de ser possível? Branca, amarela, preta, índia, negra, europeia, asiática, africana. Só doía, a dor. A cor não queimava mais que a impossibilidade cravada no papel virtual.

Não! O silêncio gritava na cara dela que a cor doía mais que todas as dores multicolores. Não! Balançava a cabeça. O estômago retorcia-se aos solavancos na estrada esburacada. Lembrou-se da letra de música popular. Não se escreve o nome de um homem em tudo o que ele faz, mas onde ele põe suas mãos estão as digitais. Estavam lá as marcas dos dedos, nas letras do texto em versão digital. As letras podiam ser da cor que o leitor quisesse. Era só alterar a cor da fonte. A dor era dos que doíam. Olhou para as próprias mãos, leu as linhas escuras que percorreu até ali. Ela sabia que as suas mãos eram negras. Fez refúgio na tristeza de Honwana e em As mãos dos pretos. Que o que os homens fazem, é feito por mãos iguais, mãos de pessoas que se tiverem juízo sabem que antes de serem qualquer outra coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos.

Tinha consciência da cor que pulsava na pele e no peito. Palmilhava as linhas das mãos como quem segue um oráculo. Ficou pensando que não tinha a palavra negro, lá. Mas existia. As digitais estavam todas lá. O texto dizia de dores multidescoloridas e em silêncio. Calou o estômago e a cabeça. Sentiu o corte da navalha de dois fios sobre a pele marrom.

Lílian Almeida

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