27 de setembro de 2014

A proposta veio pelas redes sociais. Lembrava o escritor soviético Máximo Gorki e sua ideia de que todos os escritores do mundo relatassem um dia 27 de setembro de 1935. Assim, um dia do mundo, pelo menos, teria o seu registro escrito. A ideia de Gorki não foi adiante. A proposta, explicava o convite na rede social, está sendo retomada pela Universidade de Barcelona: escrever, sem intenções artísticas, um dia do mundo. E, mais adiante, propor à UNESCO que o dia 27 de setembro seja declarado o dia da escritura. Gostei do convite e aceitei a proposta. Eis aí o meu 27 de setembro.

Imagem disponível na internet

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27 de setembro de 2014

Faltavam dez minutos para as cinco da manhã quando o alarme tocou. Aperto o botão confirmando que acordei e mantenho-me unida ao travesseiro. Essa despedida é sempre difícil para mim, sobretudo tão cedo. Dez minutos depois novo alarme diz que não há tempo para maiores delongas. Levanto. O banheiro e as primeiras necessidades. Banho, dentes, cabelo. Arrumada, faço a cama e guardo todos os meus poucos pertences de itinerante. Em silêncio, dobro os lençóis, o pijama, guardo na mochila o que volta, deixo na sacola o que fica. A colega de profissão dorme ao lado. Revira-se na cama duas vezes, redobro o cuidado e o silêncio. O mototaxista aguarda lá fora. Eu saio segurando e girando vagarosamente a enorme penca de chaves. Todos dormem na casa dos professores. Em cinco minutos estou sentada aguardando pelo ônibus na rodoviária. As estações de ônibus são a rotina de professor itinerante pelos campi da minha universidade. Ele chega, eu entro, arrumo a mochila no bagageiro, sento e peço uma boa viagem e um sono reparador. Me custa dormir, eu que não tenho cerimônias quando o assunto é sono. Olho os cactos, as plantações de palma, o sisal retirado dos pés e os restos de fibra. O ônibus segue rasgando a manhã sertaneja. O povo das roças já labuta na frente das casas à margem da estrada. Eu investigo o meu estar acordada. Nada. Vou apreciando o que vejo. Um gavião se impõe no topo de uma árvore seca. Saúdo. Passa boi, passa boiada e o sertão é uma flor delicada de mandacaru. Entre o verde e o pontiagudo ela se abre branca e leve. Ao longe, escuto: “rodoviária de Serrinha”. Vejo o lugar num entreabrir rápido de olhos. O sono me tem e eu a ele. Um silêncio é em mim. Outra vez: “rodoviária de Feira”, entreabro os olhos, identifico o lugar. Relembrei de quando estava sem sono. Ar de riso para mim mesma no mistério de ser, de sentir e não sentir sono. Ainda nos queremos e eu sigo sem resistência. Só nos separamos quando já é quase Salvador. Recomponho-me na atenção, no infinito de que-fazeres ao chegar em casa, nas demandas de hoje e de amanhã. Desço na rodoviária de Salvador, sem o anúncio do lugar. Tomo o transporte e logo estou em casa. Retiro das costas a mochila. Desfazer e refazer. Hoje a viagem é fim, amanhã outro começo.

 

Lílian Almeida

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