Uma viagem, duas rotas, múltiplas chegadas.

Eu voltava da Primeira Festa Literária da Chapada Diamantina. Trazia na bagagem livros: alguns meus, uns comprados, outros adquiridos em trocas com parceiros de escrita. Na ausência de tempo livre, fiz da viagem o tempo para ler.

Um dia antes enamorei-me de um objeto bonito, páginas pretas e letras brancas. Ilustrações em branco iluminavam o negro espaço do papel e os meus olhos, ávidos por investigar as letras e os pontilhados do desenho. Eu desejei aquele objeto. O cheiro dele me seduzia. Não saberei descrever o cheiro do livro novo e do desejo de ler o que ali se guarda e se oferece. A leitora queria descobrir o que morava ali. A professora disse-me que precisava conhecer mais aquele autor. A escritora sabia que mais aprendia quando tomava lição nos livros de outros autores. Cedi. Estava decidido, compraria o livro e desejaria o tempo de tomá-lo nas mãos como se faz quando a gente encontra namorado depois da ausência.

Junto com esse, outro. Dessa vez não era a escritora, nem a professora que me convidavam para o outro livro. A menina que mora em mim queria e queria o livro grande e cheio de efeitos de cor, textura e relevo. Enganava-me lembrando do projeto de encantamento pensado para o leitor que o meu sobrinho um dia será. Ele vai amar esse livro. Eu folheava e passava o dedo nos contornos em saliência. Minha menina pedia a história. Conta, mãe, essa história, deve ser boa como o livro. A breve história dizia da filha de um deus e de seus choros de alegria e tristeza. Eu não me demorei em tomar cada página e as palavras ali grafadas como criança que bebe o suco preferido olhando para a jarra e sonhando com mais. Eu saboreava uma a uma as páginas até chegar ao final. A minha menina estava satisfeita. Mais: agora tinha mais argumento para insistir na compra do livro. Não podia ficar sem aquela história. Sem o bom de passar o dedo no papel. Sem voltar a ver Ombela, a protagonista, no dentro do livro de Ondjaki. Eu sacudia a cabeça em não. Parecia querer me convencer a não levar. A história já era conhecida, já não era mais imprescindível o livro. Era caro aquele valor que se cobrava por ele. Reclamei para a vendedora. Ela uniu-se ao coro da pequena em mim e dizia da capa dura e de todos os atrativos do livro. Aquela era uma briga sem jeito, já estava ganha. Era certo que ele faria companhia ao outro. A menina em mim sabia que morando dentro de uma leitora, professora, escritora, outro caminho não havia.

Foi também nesse dia que tive acesso ao livro de um irmão de escrita, há muito comentado por uma amiga em comum. Fizemos um escambo, como ele tinha sugerido num encontro anterior. Eu queria muito ler o livro, os comentários da minha amiga eram instigantes. Eu desejava ver um outro lado da cidade do meu afeto e os seus desafetos com os vivem e doem. Fizemos a troca, dessa vez fui eu que sugeri. Autografei o meu livro, entreguei, peguei o livro dele, li a dedicatória, me senti honrada nas palavras manuscritas e pensei que finalmente ia acontecer o encontro com aquele texto tão bem comentado.

A viagem era longa e diurna. Abri Uma escuridão bonita como uma menina que guardou o chocolate para comer sozinha quando todos já não têm a memória do doce. Era um prazer pueril. Acarinhar a capa, dedilhar as páginas e sentir o cheiro do livro. Ondjaki já era um autor por mim apreciado. A beleza e a delicadeza de sua linguagem, das imagens, me cativou desde A bicicleta que tinha bigodes. Eu me demorava em começar a ler, gostando dessas preliminares, relembrando o bom do livro anterior. Principiei. Eu lia como gato que se enrodilha na perna da gente, dengando o ritmo, amolecendo em mim a leveza e a poesia de uma noite sem luz elétrica. Me deixava levar pelas imagens e por aquele menino cheio de sonhos e invenções, neto da Avó Dezanove. O escuro da noite era a fantasia das sombras e o desejo de um beijo. Avancei e avancei as páginas, no sem pressa de quem já ganhou tudo o que podia em cada página, pois a falta de luz também inventava mais tempo para as pessoas estarem juntas, devagar. E ganho mais no cinema de sombras em páginas brancas e amplas. É na imaginação do menino e na minha cabeça que o farol de um carro sobre galhos de árvores e tudo o mais vira a vida que se recria no muro branco. Folha a folha chego ao fim com o gostoso do beijo, do encontro com a poesia que há na alma de cada ser, à espera de um colibri.

Permito-me o tempo de saborear as emoções e voltar a sentir o cheiro do livro, a passar as mãos pelas folhas negras, rever o cinema nas folhas brancas. Decanto as sensações, descanso os sentidos despertados.

O ônibus segue o seu caminho. Eu vou, pela escuridão bonita, caminhando por dentro de mim e das minhas luas, estrelas, candeeiros, faróis. Aos poucos me acostumo a ver-me no escuro, a ver-me sem me olhar. A estrada é uma, o ônibus vai. Em mim os caminhos são vários.

Me percebo voraz. Busco na sacola Salvador negro rancor, o livro do escambo. O ritual é o mesmo. Não há repetições, cada celebração é única. Cada livro uma energia, uma história, várias estórias, uma sensação, um pertencimento. Os contatos iniciais me dizem de uma outra batida. O ritmo é marcado com dor. Eu tenho pressa, como se os que sofrem também tivessem pressa de viver e de desprender-se das armadilhas da rua. O pulo precisa ser preciso, ou a rasteira é certa e o tombo feio. A vida das ruas entra pelos meus olhos. Eu volto no tempo. No meu tempo de passar pelo Aquidabã com seus viadutos e moradores de rua, com os meninos disputando a ponta do cigarro descartado pela janela do ônibus, com um improvisado fogo queimando a lata e cozinhando o exíguo alimento. A vida vem como um golpe no estômago, desferido pelas linhas duras e belas de Fábio Mandingo. A poesia se veste de esperança no sonho estrangulado de fumar quarentas pedras de crack, no orgulhar-se da hombridade do filho nos ritos de passagem instaurados pelos códigos da rua, no desejo de aconchego com a mulher amada depois do trabalho árduo na terça-feira de carnaval e de desviar dos imperativos sádicos que querem expurgar a violência a qualquer custo nessa noite.

A Salvador dos becos, dos acordos tácitos entre vagabundo e traficante, do paraíso sexual para turista gozar, da polícia desvirtuada que extermina sem averiguar, assalta-me nas páginas que passo, ávida. Não reajo, sigo as linhas, as letras, as lombras, as dores e o sangue. Me rebulo por dentro, embrulho e desembrulho estômago, olhos, pensamentos. A ginga do capoeira me leva no balanço do berimbau e na melodia do corpo dançando. Os golpes se sucediam, lentos e sincronizados, bonitos, ritmados pela languidez do toque do berimbau, a luz opaca que descia do teto enchia a sala de nostalgia, e eu pratiquei quase que em transe, aquela magia secular de resistência, como se corpo não tivesse, e fosse somente movimento. O Velho Mestre abaixou o berimbau, chamando o final do jogo. Fechei minha oração, apertei a mão do americano e fui tocar o atabaque, e fiquei lá até a roda terminar, já pelas tantas da noite, admirando o jogo dos coroas, cheio da malícia ingênua e perigosa, que nos ajuda a vencer os dias.

O golpe da capoeira acerta-me, eu saio doída dos contos que encerro. E feliz, com uma esperança que a vida impõe a quem se refaz a cada sol que rompe o céu.

O meu caminho ainda não é fim quando o ônibus pára na rodoviária de Salvador. Eu desço e me encontro com tudo o que já era e é.

 

Lílian Almeida

Apresentação1

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2 pensamentos sobre “Uma viagem, duas rotas, múltiplas chegadas.

  1. Gostei da sugestão da Luciana Moreno, eu aqui cheio de coisas a fazer, lendo a manhã inteira. O texto corrido como quem quer chegar logo ao fim, sabendo que a viagem de ônibus irá terminar, deixou-me sem fôlego, fui até o fim e gostei. Compartilharei com nosso grupo.

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