A casa do maluco

Do lado da casa em que eu morava havia outra casa, suspensa no alto do barranco. Era a casa do maluco, todas as vozes adultas afirmavam. Eu, menina treinada no medo e no susto, tremia só de ouvir falar na tal casa. De dentro das territorialidades que demarcavam o transitar dele, eu via o muro que separava o bambuzal e a alvenaria da morada sem razão. O ar que embalava as folhas do bambu era sombrio e pesado, elas mal se moviam. Aquele era o território temido, proibido. Era o espaço onde todas as minhas perguntas de criança cheia de porques residiam. Por que ele ficou maluco? Por que uma pessoa não ama a outra? Por que alguém não cuidou dele? Por que ele não mora na casa?

Era maluco de loucura de amor. Uma mulher enfeitiçou-lhe o coração e a cabeça. Depois foi embora e o deixou com todo o oco da casa e do bambu. Dizem que o vazio da ausência ocupou os miolos dele e nunca mais ele foi o mesmo homem.

O fato é que eu nunca vi o maluco, só ouvi a penumbra dele que pairava nas conversas sobre aquele terreno no alto da encosta. A infância desaparecia com o acumular da idade, as conversas se repetiam no já dito, vez ou outra acrescentando um dado novo sobre o ilustre desmiolado. A mãe o levou para um sanatório, mas ele fugiu. Desde então vive a vagar pelas ruas. A casa? Ficou abandonada, a mãe retirou os móveis e os pertences. Às vezes ele volta à procura da amada. Ela não está lá, então ele chora alto e grita e implora o retorno. Dizem que nessas horas o vento uiva no cabelo dos bambus. É ela, dizendo que nunca voltará. O pior é que era verdade, às vezes, eu escutava, desconfiada, o murmúrio do vento ao lado do muro onde estava o bambuzal. A casa tornou-se mal assombrada pelo desamor.

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Foto: Lílian Almeida

Eram de medo e curiosidade aquelas paredes, vistas pelos meus olhos de menina amarela. Já ia pela casa dos dez quando, um dia, Joana veio brincar comigo. Cansamos das bonecas e fomos catar frutas no quintal. Ela insistia se eu nunca tinha ido do outro lado, também morria de curiosidade. Eu morria de medo antes da curiosidade me matar. E dizia que não, na gostava nem de ficar perto do muro.  E se o maluco estiver do outro lado? Pior, imagina se a mulher sopra seu vento assombroso? Eu queria mudar o rumo daquela conversa, mas ela insistia redobrada na curiosidade. Você tem um tesouro na mão e nem se dá conta, ela dizia decepcionada com o meu excesso de medo. Tesouro? Nunca pensei que ter um maluco e uma casa abandonada por vizinhos fosse um tesouro. Nunca pensou em investigar a vida sobrante na casa dele? Descobrir os mistérios que moram naquela casa? Decidimos, mais ela do que eu, que íamos brincar de espiã daquela estória de amor e loucura. Qual é o plano, senhora espiã? Ela desviava da resposta, sabia que se eu soubesse a brincadeira acabava antes de começar. Me ajude com essa escada. Vamos colocar ali no muro. A escada de alumínio que meu pai usava para limpar o telhado era a via de acesso ao mistério. Ela subiu de imediato, assim que apoiamos no muro. Noossa! Um território todo inexplorado. Que beleza! O que tem aí? Um bambuzal e uma casa. Isso eu já sei. Pois é, daqui só dá pra ver isso, a gente tem que descer para ver o resto.

Ela articulou colocarmos a escada na parte mais alta do nosso muro, do lado do maluco um muro acompanhava o nosso, mais baixo, descendo a escarpa do terreno. Recolocamos a escada e ultrapassamos o nosso muro. Quase despencamos lá de cima ao puxar a escada para o outro lado. Fomos descendo o muro até encontrar um lugar onde o mato não estivesse tão alto. E se tiver cobra? Eu logo me adiantei no pavor. Não vai ter cobra, você não sabe que onde tem pé de bambu o terreno fica limpo, não nasce outro mato por perto? Você acha que esse pedaço aqui tá limpo por quê? Por que a mãe dele veio e roçou? Eu olhava abismada para ela, como é que ela era tão destemida? Fiquei achando que ela recebia treinamento do irmão mais velho, só podia ser. Eu, como não tinha irmão, ficava nas amarelices de menininha. Era assim que ela falava quando eu emburrava de não fazer o que ela queria.

Descemos pertinho do bambuzal, nos livrando de seus galhos e folhas. Olhe só, tudo aberto. Não havia portas e ainda restavam pedaços de janelas naquilo que parecia ser quarto e sala. O sol da manhã batia em pino e eu sentia frio. Não, eu sentia muito medo. O frio era apenas um acessório ao medo que me gelava e mantinha estanque na frente da porta dos fundos. Você não vai entrar? Eu não tinha condições de responder tão paralisada que estava. Joana avançava em seu desbravamento, cruzou a porta espantando o mato com um galho de bambu e logo voltou. Não tem como continuar, tem muito mato lá dentro. Ela foi para o lado da casa e eu, ali, parada perto da escada. Daqui dá pra ver um retrato num quadro. Não, tem dois quadros. Acho que são eles dois, e ela. Vamos embora, não quero mais ficar aqui, eu gritava. Venha ver, eles formavam um casal bonito. A imagem está desgastada, mas dá pra ver. Vamos embora, eu repetia, reunindo a coragem. Ele tem cabelos cacheados e ela tem cabelos longos e pretos. Joana ignorava e dizia que eu tinha que ver que moço bonito ele era. Naquele instante o bambuzal deixou a quietude e começou a balançar-se de um lado para o outro. Eu quero ir pra casa. Joana só voltou quando um uivo correu do bambuzal para a casa. Era ela, e não estava gostando nada daquela invasão. Eu subi a escada correndo e tremendo. Ela veio logo atrás. Corremos sobre o muro escarpado e puxamos a escada, que nem parecia pesada. Atravessamos os muros e a escada para o lado da minha casa. Tudo o que eu queria era chegar em casa. A pressa era tamanha que despenquei. Bati as pernas na perna de Joana, sentada na minha cama trocando a roupa da boneca Maricota. Êta, precisa me bater assim? Você dormiu tanto que já passou a hora de levar Maricota e Carmelita para o baile. Estava esperando você acordar pra fazer uma proposta. Tive uma ideia bem melhor que fazer um baile para as bonecas. Ahmm, proposta, que proposta? Vamos espiar a casa do maluco?

Naquele dia as amarelices se redobraram em meus olhos e no agudo não.

Lílian Almeida

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