Nirvana

Respire profundamente soltando o som do coração. A voz no micro-system conduzia o meu estado de nirvana. Observe sua respiração, sinta o ar entrar e sair das narinas. O ar entrava com cheiro de frango cozido. Uma panela de feijão entrava pelas janelas e nariz. Na casa de algum vizinho cantava-se bilu bilu. Trabalhe com determinação na conquista de si mesmo. Sentir o ar entrar e sair pelo nariz, eu me determinava a estar presente na minha respiração.

Todas as manhãs ele vinha, ele vem. Chega logo cedo, sambando na esquadria de alumínio. Dos meus aposentos eu escuto a chegada dele. Me viro na cama como quem está à vontade com a visita recebida à distância. Às vezes ele sente algum tipo de saudade e tamborila na janela do meu quarto. Em silêncio e profusão de amor eu agradeço a presença olhando seu inquietante mexer-se de um lado a outro. Ele vai e recomeça o batuque lá na sala. De cá, eu digo num pensamento: pode entrar, a casa é sua também. Ele sabe bem que é verdade, tanto que ganhou intimidade e vai à cozinha. E à cozinha só vão os que são de dentro, de casa, do coração. Sem pudores come uma bananinha e, como me demoro na despedida do travesseiro, vai dar uma volta nos arredores.

Imagem disponível na internet

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Em posição de lótus no templo do meu ser, contemplo o encher-se e o esvaziar-se dos pulmões. O ar é frio ao entrar e quente ao deixar a cavidade nasal. Preciso retirar a salada da geladeira ao sair daqui, não gosto de salada fria. Frio e quente era o olhar da minha colega. Derramava desprezo e raiva. Era dela ou meus, o desprezo e a raiva? Eu me enchia de calor. Pode vir quente, eu tô fervendo e não cedo um milímetro. Surgir e desaparecer. Eu me dava conta da alteração em meu estado meditativo e lembrava de deixar pensamentos e sentimentos livres, sem ignorar, expulsar ou segurar qualquer um deles. Voltava a me concentrar na respiração. Acompanhava o movimento de elevação do peito. Um tisq-tisq chamava minha atenção. Eu recusava e segurava o ar por mais tempo, um lembrete de que era preciso determinação. Era insistente o tisq-tisq, vinha do lado da cozinha. Abri os olhos na calma de respirar e virei lentamente a cabeça na direção do barulhinho. Estava lá na fruteira, comendo uma bananinha que deixei para ele. Parecia dançar no cesto metálico de frutas, subia e descia na borda, aproximava-se, comia um pouco, afastava-se da banana e voltava para novo beliscar. Era esse o tisq-tisq. Surgir e desaparecer. Cumprimentei-o mentalmente, fique à vontade, e voltei a me firmar no respirar.

A gravação ia chegando ao fim e me sugeria ir voltando para o agora. Bem na hora em que eu escapava dele para outro tempo. Respire profundamente, sentindo a energia fluir por todo o seu corpo, deixando a mente serena, tranqüila, alerta. O meu nirvana chegava ao fim. Ainda deu tempo de olhar para a fruteira e me despedir. A cabecinha preta voltou-se na minha direção e o amarelo das penas ergueu-se num voo para além do meu ninho.

Lílian Almeida

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