Ler para se perder e se encontrar

          

Ao ler o livro Todas as cartas de amor da baiana Lilian Almeida (professora da UNEB), recém lançado pela editora Quarteto, foi inevitável cantarolar na mente uma linda canção de Edu Lobo e Chico Buarque intitulada Valsa Brasileira, cuja temática se assemelha ao livro de Lilian: um livro sobre buscas. Para mim, foi um modo de me revistar também de muitas formas, pois a música de Chico fora ouvida repetidamente num álbum da cantora Zizi Possi na época em que escrevia minha dissertação de Mestrado lá na minha cidade maravilhosa nos idos de 1995.

Como todo texto é trama, na trama tecida por muitos fios, me vi, leitora e mulher que sou, enredada em tantos outros. O livro de Lilian Almeida que se quer uma longa carta endereçada a um Amado (assim personificado pelo uso da maiúscula, transformando o que poderia ser ou um adjetivo ou mesmo um substantivo simples em substantivo próprio) nos apresenta uma narradora pós-moderna, habitando, atuando e interagindo no mundo público, mas angustiada pelas temáticas do mundo privado. A narradora corre as cidades, viaja a negócios, mas continua na espera: uma Penélope às avessas, de certo modo, pois altera parcialmente o mito da espera. Sua espera é em movimento. É ela e não Ulisses que corre o mundo, mas entre os números, as contas, os cálculos das empresas que representa (é isso que sugere o livro, pois nada é dito de forma muito esclarecedora já que é uma escrita labiríntica e feminina) a persona feminina parece insatisfeita e incompleta.

De dentro de casa ou dos hotéis, em viagem, a televisão acompanha uma sociedade retratada como solitária pela autora: “Quantas ilhas de pessoas estão à deriva neste prédio de quinze andares? Quantas telas de plasma oferecem companhia numa madrugada gelada de inverno?” Neste cenário há uma mocinha que se recusa, a saber, da crise imobiliária e aguarda um noticiário que fale sobre “ a epidemia da solidão das pessoas”, ou seja, mais uma vez cabe ao feminino clamar pela gravidade e importância do mundo privado cada vez mais silenciado pela lógica do capital, do mercado e do consumo. Assim como Antígona (no mito Grego) reclama enterrar seu irmão morto (Creonte) trazendo para pauta pública das leis da cidade o universo do familiar e do doméstico, Lilian Almeida, numa faceta pós-moderna de Antígona, afirma o que  tem sido o papel das mulheres até hoje:  trazer o privado para pauta pública, aliás, como já nos orientava o feminismo da diferença em Rose Muraro e Rosiska Darcy Oliveira (feministas brasileiras que merecem todo o meu respeito).

Entretanto, é da mesma TV de plasma que sai a voz do mocinho que embala o sono da narradora. E essa sentença no texto de Lilian conversa com um antigo argumento meu sobre a espera do príncipe. O príncipe dos contos de fada foi reeditado na minha geração (hoje entre os 40 e 50 anos) pelos filmes de seção da tarde, filmes da década de 40 e 50 , muitos musicais, nos quais a donzela (não há palavra melhor para definir aquelas personagens) tem sua vida transformada pela chegada do grande amor. Embaladas por este referencial temático as mulheres continuaram na espera, mesmo quando, como a personagem/narradora de Todas as cartas de amor, saíram em busca de autonomia e trabalho, elas ficaram sempre com a sensação de falta, caso não haja um homem em casa.

Mas em Todas as cartas de amor, desfaz-se o equívoco dos contos de fada e da sessão da tarde na rede globo na década de oitenta, já que a busca, a incompletude são características da nossa humanidade, e não uma demanda de mulheres. Talvez, por conta das etiquetas sociais (que dizem o que podemos ou não fazer de acordo com nosso sexo) só foi permitido às mulheres expressarem publicamente essa angústia. Mas as incompletudes, o desejo de companhia, a solidão nos grandes centros, tudo isso aflige homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais, travestis, bissexuais, e toda a diversidade já abertamente discutida (felizmente) no século XXI.

E o final do livro de Lilian Almeida (não vou contar para não estragar a surpresa) revela que os finais de filme e contos de fada não podem aplacar essa busca maior, identitária, espiritual, humana e transcendental que nos fala desse nosso constituir em pessoas que somos: que começa com um desapego do primeiro grande amor: nossa mãe; depois passeia pelas investidas por amor na vida adulta com parceiros e parceiras e culmina sempre em nós mesmos. Eu e outro. Eu com o outro. Somos todos um!

Termino meu convite à leitura do livro de Lilian Almeida, dedicando este texto a Charles Meira que pacientemente esperou meu retorno à Cotoxó. Um abraço fraterno, companheiro Meira, pela acolhida jequieense que desafia a solidão das cidades.

 

Adriana Maria de Abreu Barbosa[i]

[i] Carioca, feminista, professora Adjunta da cadeira de Literatura da UESB-Jequié.  Coordenadora do Grupo Estudos de Teorias do Discurso(GETED) e integrante do CEL- Centro de Estudos da Leitura.

 

Esse texto foi originalmente publicado na Revista Cotoxó do mês de maio/2014.

Você pode conferir Uma dor de mim e Uma proposta obtusa, duas cartas de Todas as cartas de amor.

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