O dia em que pensei em ser escritora

Quando se é criança os adultos sem muita imaginação insistem em perguntar: o que você quer ser quando crescer? O pequenino ou pequenina responde leve, sem os pesos que a escolha profissional implica aos adultos. Afinal, quando se é criança pode-se ser o que quiser e, às vezes, diferentes desejos se combinam ao mesmo tempo. Muitas vezes eu quis ser de circo, vivia pendurando-me de cabeça para baixo no sofá da sala, ou no beliche do quarto dividido com minha irmã, adorava contorcer o corpo e dar estrelas. Achava mesmo que tinha nascido para aquela vida animada. Outras tantas quis ser bailarina, principalmente depois das aulas de balé e de dança, na escola. Também quis ser professora, embora achasse um saco aquela conversa, hoje já envelhecida e renovada, de má remuneração e desprestígio social. Achava que se eu fosse mesmo pró, um dia, não ia poder ficar reclamando, afinal desde menina eu já sabia que não ia enriquecer com essa profissão. Mas como uma das coisas que eu menos pensava naqueles idos era em dinheiro, vivia ensinando aos meus irmãos-alunos. Na adolescência também quis ser escritora, não sabia bem se de livro. Cheguei a pensar em ser jornalista para escrever em vários jornais da cidade. Queria escrever, escrever muito, em todos os lugares. Falar coisas bonitas e apascentar as feridas dos que doem, era isso que eu achava bonito nos livros que eu lia, em especial os livros de poesia. Tudo isso era um sonho feliz de infância, sem perspectivas de concretizações, apenas o gesto e o ato de sonhar, presente nos olhos de qualquer criança.

O tempo passou e dediquei-me àquele sonho mais palpável à minha realidade: o de ser professora. Investi e dediquei-me ao ofício de ensinar e de aprender. Dele vem-me o sustento. Mas um bicho comichão, desses que hora ou outra inquieta a gente, me rebulia. Eu fazia que não via e deixava pra lá. Um dia, não pude mais enganá-lo e a mim. Aquele olhar de quem vê estrela na gota do orvalho, ou sinfonia na pele do mar, de quem ouve o vento cantar e adivinha a alegria aí não quis mais fechar-se e me exigia uma posição: registrar o que via com o coração e o que sentia com os olhos. Sim ou não? Eu relutava e negava, dizia que não, não sabia. Como fazer o que não se aprendeu? A comichão insistia, no fazendo é que se fazia. Eu anotava ali, apagava, re-escrevia. Depois sorria e balançava a cabeça em não. Isso era bobice. De bobice em bobice fui colecionando palavras e versos e histórias.

Um dia, sonhei que entrei numa caixa enorme. Lá, eu era trapezista, acrobata, bailarina. Ao mesmo tempo era todas elas e era eu mesma. Eu me via vestida com saia de filó, com collant colorido e com meu pijama. Era estranho. Num passe de mágica eu recebia das mãos de Mabel Veloso uma medalha e um caderno em branco embalado em papel colorido. Eu estava contente e via a trapezista, a bailarina e a acrobata batendo palmas para mim. Eram tão pequenas que não se podia ouvir o ruído produzido por suas mãos. Eu olhava para elas e olhava para os flashes. Quando voltei o olhar, a bailarina ficava na ponta do pé na minha mesa de trabalho. A trapezista pendurava-se no móbile que se derrama pela porta. A acrobata saltava sobre meus livros e dava estrelas entre as estantes e a mesa. Sentada à mesa eu parava a digitação e acompanhava aquele espetáculo. Elas diziam, escreve, escreve, não para, não para. Acordei. Eu era ou não era todas elas? Somente escrevendo eu poderia ser elas e quem mais eu quisesse ser.

Foi lá, na adolescência, que tudo teve começo, na Ribeira do poema que Mabel premiou. Foi lá que comecei a colecionar bobices. Mas parei. Fiquei num longo recesso brigando com a comichão. Perdi a luta, ganhei o jogo. Hoje coleciono bobices e partilho palavras. Naquele dia, o dia da medalha, um tênue pensamento me disse que se eu quisesse poderia ser escritora. Acho que vou querer.

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

Lílian Almeida

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