Três cantos do Aboio Livre de José Inácio Vieira de Melo

Foto: Lílian Almeida

Foto: Lílian Almeida

Outono

 

As árvores se despem do verde

para sentir com mais intensidade

a nervura do caule.

 

Vozes secas

 

Pão, antes de ser palavra, é vontade de comer.

Pão é uma palavra que começa na fome.

E se pão não houver, acaba-se a fome e o nome.

 

A seca bebeu todas as águas, a sede é grande.

A seca tomou conta de tudo.

 

O pão da minha terra está nas nuvens.

E eu tenho medo – o meu boi morreu.

 

A seca tem me tirado o fôlego.

A seca, às vezes, me dá vontade de desistir.

 

Ainda assim, persiste em mim a poesia

e essa vontade de inundar o mundo.

 

Aí eu monto em meu cavalo baio,

entro no mato e ascendo nos garranchos

e começo a soltar meus aboios

para espantar o medo para bem longe.

 

A seca de tudo é terrível!

Se você vacilar, a poesia some.

 

Aboio Livre

 

Meu pai, caí no escuro,

grande é a minha pequenez

e longa esta penitência.

 

Meu avô, selai por mim,

que sempre persegui desertos,

tangendo louvores ao Sertão.

 

Aprendiz de anjos e centauros,

de tanto me perder, ando só.

Tornei agora para de onde vim.

 

E meu gado nunca mais

há de passar fome nem sede,

porque Deus não me deserta,

porque Deus é assim,

aquele que espera de mim

 

um Aboio Livre.

 

(Do livro Pedra Só, de José Inácio Vieira de Melo)

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